Capítulo 1Concordei em voltar para casa e me casar por conveniência, e só um ano depois meu ex, aquele que nunca consegui aquecer o coração, se lembrou de mim.Ele apareceu confiante na minha frente, trazendo as flores de íris que eu costumava amar.Ele tinha certeza de que, ao se virar, eu o perdoaria com lágrimas nos olhos.Mas as íris já não me encantavam, e ele, eu já não queria mais.Meu marido de casamento arranjado me puxou para seus braços, olhando para ele com desdém: "Vicente Tavares, minha esposa já está grávida, e você ainda não superou?"Durante a noite, meu marido, que durante o dia era frio e reservado, me beijou até me faltar o ar: "Amor, se você continuar dando bola pro Vicente, vou desenhar uma tartaruga na sua mão!""Mano, concordei em voltar para casa e me casar."Era tarde da noite, e a luz da lua brilhava prateada.Elisa Rios abaixou o olhar, arrumando as roupas no corpo.Logo, a voz de Gabriel Rios soou do outro lado da linha: "Que bom que você se decidiu. Depois que você se formou e insistiu em ir para a Cidade Aurora, já se passaram três anos. Papai e mamãe achavam que algum homem tinha roubado nossa princesinha. Ainda bem que você finalmente decidiu voltar."A voz de Gabriel estava cheia de alívio.Sim, já faz três anos.Os dedos de Elisa tocaram o bracelete de madeira em seu pulso, que ela cuidou tão bem que, mesmo após três anos, parecia novo.Lembrando-se de sua determinação impetuosa ao seguir Vicente para a Cidade Aurora, o coração de Elisa ficou amargo, mas ela não retrucou."Eu fui imatura, deixei vocês preocupados. Vou deixar o casamento por conta de você e dos nossos pais.""Fique tranquila, os pais escolheram um pretendente para você que é impecável em todos os sentidos, desde a aparência até o caráter. Você vai gostar dele."Do outro lado, Gabriel a confortou, mas não mencionou quem era o pretendente, rapidamente mudando de assunto."Ah, Elisa, não esquece de chamar seu Irmão Vicente. Ele também está na Cidade Aurora. Você sempre estava atrás dele, chamando de Irmão Vicente. Desta vez, não esqueça de convidá-lo para o casamento. Mas não sei o que ele anda fazendo, esses dias não consigo falar com ele."A língua de Elisa ficou amarga.É claro que o telefone de Vicente não estava disponível.Porque, um mês atrás, Clara Nunes voltou.Ultimamente, ele estava ocupado trocando longas conversas com Clara.Depois de um momento de silêncio, ela respondeu baixinho: "Ele talvez... não venha ao casamento...""Que casamento?"Antes que ela pudesse terminar, uma voz masculina profunda soou.A porta foi aberta de repente, e Elisa desligou o telefone abruptamente.Ela levantou os olhos e viu Vicente colocando seu terno de lado. Ele estava altivo, com um rosto bonito e um sorriso frio e irônico nos lábios.Ele era a própria elegância.Vicente se aproximou e a puxou para seus braços: "Quem vai se casar?"Ele segurou sua cintura com uma mão, enterrando o rosto em seu pescoço, como se precisasse de sua presença para relaxar."Ninguém."Elisa respondeu suavemente.Mas em seu coração, pensou que seu casamento não precisava da bênção dele pessoalmente.Vicente não notou nada de estranho, apenas tirou a gravata e desabotoou a camisa, com uma postura preguiçosa e sedutora.Ele apertou a cintura dela, brincando: "Eu pensei que você queria se casar."Elisa encontrou seu olhar e, de repente, disse: "E se eu realmente quisesse me casar?""Por que dizer isso de repente?" Vicente parou por um momento, afastando o cabelo dela do rosto, seu olhar profundo. "Você ainda é jovem, não há pressa para isso."Não há pressa, ou era porque ele nunca quis se casar com ela?O coração de Elisa ficou amargo, e ela murmurou baixinho: "Você realmente se casaria comigo?"Ao ouvir sua pergunta, Vicente quis responder prontamente, mas hesitou por um breve momento.Depois de um instante, sua voz era suave e reconfortante: "Claro, Elisa, você veio para a Cidade Aurora comigo, e eu não vou te decepcionar. Quando for o momento certo, eu vou me casar com você..."As palavras dele se perderam entre os lábios, seus lábios frios deslizando do canto da boca dela para o pescoço.A sensação de formigamento fez Elisa estremecer levemente.Elisa fechou os olhos, sem afastá-lo.Ela sabia que Vicente nunca ultrapassaria os limites.Durante esses anos, muitas vezes, Vicente se conteve, nunca avançando o suficiente para dar o próximo passo.No início, ela não entendia, mordeu o lábio timidamente, indicando que estava disposta.Vicente, no entanto, apenas acariciou seus cabelos com gentileza, seu olhar era suave: "Você ainda é jovem, depois que nos casarmos, faremos esse tipo de coisa."Naquele momento, ela pensou que aquilo era um sinal do carinho de Vicente por ela, e com o rosto corado, se aconchegou em seu abraço.Até que Clara voltou, e houve uma ocasião em que ele estava em uma reunião com os amigos.Ela chegou tarde, e, antes de abrir a porta, ouviu um dos amigos de Vicente brincando: "Irmão Vicente, sua esposa está de volta, quando você vai terminar com a substituta da Elisa?"Logo, outro amigo acrescentou: "Pois é, se não fosse pela Elisa, sua esposa não teria sofrido, ela odeia a Elisa."Clara foi a filha adotiva da Família Rios e também filha da governanta deles.Naquela época, por causa de uma armação da governanta, Elisa e Clara foram trocadas, e só perceberam isso quinze anos depois.Depois, a Família Rios trouxe Elisa de volta e devolveu Clara à Família Nunes, dando um milhão de reais como compensação.Pouco tempo depois, Clara foi para o exterior e cortou relações com a Família Rios.Acontece que, aos olhos dos amigos de infância de Vicente, Clara sofreu por causa dela.Mas, na verdade, nos primeiros quinze anos, Elisa não teve uma boa vida na casa adotiva e, ao voltar para a Família Rios, a convivência com Carlos Rios e Camila sempre foi um tanto distante.Talvez os outros não soubessem, mas Vicente estava bem ciente do que havia acontecido entre Clara e ela.No entanto, Vicente apenas interrompeu a conversa, sem emoção: "Não falem bobagem."Essas três palavras curtas não foram acompanhadas de nenhuma explicação adicional.Naquele momento, Elisa percebeu que Vicente nunca a amou.Ele não queria tocá-la, pois guardava-se para Clara.Ela, desde o início, não passava de uma substituta de Clara.De fato.Finalmente, ela percebeu a tensão no corpo de Vicente, mas no segundo seguinte, Vicente a soltou com uma contenção visível.Elisa olhou para suas mãos vazias, sentindo uma tristeza indescritível.Ela e Vicente eram amigos de infância.Nos primeiros dias após voltar para a Família Rios, ela era solitária e reservada, e os amigos de Clara a provocavam, contratando alguns delinquentes para encurralá-la em um beco.Foi Vicente quem levou uma facada por ela.Os bandidos fugiram, mas a lâmina entrou em seu peito, e, mesmo ensanguentado, seus olhos brilhavam com um sorriso, sua voz era suave ao acalmá-la."Não se preocupe, Elisa, o irmão está bem."Desde então, ela se apaixonou perdidamente, sem querer desistir.Por isso, após se formar na universidade, ela o seguiu até Cidade Aurora e se tornou sua secretária.De uma menina ingênua e inexperiente, ela se tornou uma Elisa competente e conhecedora de tudo.Para ajudá-lo a conseguir um projeto, nos momentos mais difíceis, ela trabalhou sem parar por três dias, dormindo apenas quatro horas, e ainda assim, preocupada com a saúde dele, fez sopa para ele.No entanto, três anos se passaram, e o coração dele ainda pertencia a outra mulher."O que está pensando?"Vicente percebeu que ela estava distraída e, com um sorriso, arqueou a sobrancelha: "Foi só um beijo, por que ainda está perdida?"Elisa balançou a cabeça amargamente.Como de costume, após momentos de carinho, ela e Vicente dormiriam em camas separadas.Elisa estava prestes a falar, planejando voltar para seu quarto.O celular de Vicente tocou.Ele não se afastou, e, na frente de Elisa, atendeu no viva-voz.Era um dos bons amigos de Vicente ligando."Vicente, faz tempo que não nos reunimos, hoje você tem tempo, vem ao Clube das Águas, vamos nos encontrar.""Sem chance."Vicente lançou um olhar para Elisa, sorrindo: "Tenho que ficar com sua cunhada, a menos que ela queira ir junto, caso contrário, não vou a lugar algum..."Assim que ele terminou de falar, do outro lado da linha, seus amigos começaram a brincar."Cunhada, venha com Vicente.""É isso mesmo, cunhada, finalmente temos tempo, vamos nos encontrar e tomar um drink."Ao lado, Vicente sorria, seus olhos brilhantes e provocadores, olhando para ela com um misto de brincadeira e carinho.Ele era tão sincero que até mesmo os amigos no telefone chamavam-na de cunhada.Elisa, no entanto, sentia uma leve pontada no coração.Porque, não muito tempo atrás, os amigos de infância de Vicente também chamavam Clara assim.Elisa reprimiu as emoções que fervilhavam dentro dela e respondeu lentamente: "Tudo bem, eu vou."Os amigos de infância de Vicente começaram a provocá-la, e com isso, Elisa não encontrou uma desculpa para recusar.Além disso, ela estava prestes a partir.Esse tempo restante era o que ela tinha de último com Vicente.Seria como uma despedida antes de ir embora.Elisa trocou de roupa, preparando-se para sair com Vicente.No carro, ela acidentalmente notou o chaveiro de Vicente.Era um chaveiro em forma de coelho, nas cores rosa e branco.Em um local discreto, estavam gravadas as letras CN.Claramente, era um presente de Clara para ele.Vicente usava esse chaveiro há muito tempo, mas ele estava bem conservado.No passado, ela não sabia a origem do chaveiro, apenas brincava dizendo que gostaria de tê-lo.Naquela época, Vicente apenas ria e dizia: "Elisa, isso é algo muito importante para o irmão, o que você vai oferecer em troca?"Ela não entendia na época, apenas se irritava por Vicente não querer abrir mão nem de um chaveiro.Agora ela via que esse chaveiro era realmente algo que ele prezava e considerava importante."Por que está olhando para esse chaveiro de novo?" Vicente brincou, sorrindo. "Gosta tanto assim? O irmão manda fazer um novo para você."Ele sorria com os olhos, que brilhavam como águas tranquilas na primavera.No passado, Elisa amava aqueles olhos.Agora, ela percebia que talvez fossem aqueles olhos que a fizeram acreditar que era amada.Elisa ficou em silêncio por um bom tempo antes de sacudir a cabeça e dizer: "Não precisa, Irmão Vicente, já passei da idade de gostar dessas coisinhas."Seja o chaveiro ou o amor de Vicente.Ela não precisava mais.Vicente apenas bagunçou o cabelo dela e dirigiu até o clube.Chegaram tarde, e o lugar já estava cheio de gente.Ao ver Elisa, todos começaram a fazer piadas."Ah, é a cunhada, senão o Vicente teria dado um bolo na gente hoje à noite."Vicente a puxou para sentar ao lado dele.A luz no interior não era muito forte, e Vicente, com sua postura elegante e presença marcante, se destacava no meio das pessoas.Ele sabia que Elisa era tímida e introvertida, então, quando viu o grupo provocando-a, calmamente interveio em sua defesa."Vocês beberam, mantenham distância da Elisa, não quero ela cheirando a bebida.""Isso mesmo."Alguém imediatamente entrou na brincadeira, rindo: "A cunhada não bebe, né? Suco ou leite? Vou pedir para trazerem."Vicente raramente deixava ela beber. Ele afagou a cabeça dela e perguntou baixinho: "Leite?"A voz dele era suave, e o olhar cheio de ternura, tanto que, desde pequena, ela se deixava envolver por essa doçura.Mas agora, ela só sentia cansaço.Ela não era mais uma criança.Ternura não era sinônimo de amor."Tanto faz." Ela respondeu baixinho.Logo trouxeram o leite.Todos ali eram muito cuidadosos com Elisa, até evitavam fumar perto dela.Sem mencionar as piadas de duplo sentido entre os homens.Mas Elisa se sentia um tanto entediada.Vicente percebeu e perguntou gentilmente: "Elisa, você está se sentindo mal?"Os olhares ao redor se voltaram para ela, com expressões de preocupação."Cunhada, está tudo bem? Somos um pouco barulhentos quando nos divertimos, você está bem?"Ela olhou para todos, lembrando-se do tom afetuoso com que os amigos de infância de Vicente chamavam Clara.Ela não conseguia mais manter a fachada."Estou bem, está um pouco abafado aqui, vou sair para tomar um ar.""É uma boa ideia." Vicente sorriu e colocou um casaco sobre ela. "Está frio lá fora, vista o casaco antes de sair."Elisa saiu silenciosamente do salão.O vento noturno estava um pouco frio, e enquanto olhava para as estrelas, flashes de momentos passados com Vicente cruzavam sua mente, enchendo seu coração de tristeza.Clara foi o primeiro amor de Vicente.E o que Vicente foi para ela, senão seu primeiro amor também?Com um olhar melancólico, ela avistou uma figura familiar ao longe.A mulher usava um vestido branco, com feições que lembravam as suas, suave e serena.Clara... também estava ali.Elisa ficou paralisada.Ela pensou que Vicente não permitiria que ela se encontrasse com Clara, mas ele a trouxe também.De repente, lembrou-se da frase de Vicente: "A menos que sua cunhada venha comigo, não vou a lugar algum."Afinal, a quem ele realmente se referia como cunhada, a ela ou a Clara?Os dedos de Elisa se fecharam, o peito apertado de tal forma que ela não conseguiu controlar e seguiu em frente.A porta do salão não estava totalmente fechada, deixando uma fresta.Clara entrou, claramente acostumada com os amigos de infância de Vicente.Todos a cumprimentaram alegremente: "Cunhada, ainda bem que você veio, o Irmão Vicente estava esperando por você.""É verdade, antes de você chegar, o Irmão Vicente estava meio desanimado.""Não falem besteira."Vicente interrompeu suavemente, mas não impediu Clara de se sentar ao lado dele.Elisa observou a cena, sentindo-se estranhamente calma e entorpecida.Claro.Todos ao redor de Vicente sabiam da existência de Clara.No fundo, a cunhada reconhecida por todos sempre foi Clara.Nesse momento, o som de uma mensagem no celular interrompeu seus pensamentos.Elisa abriu a mensagem, era de Vicente."Não se preocupe, o irmão vai se comportar, não vou tocar em outra mulher, só estou bebendo com eles."Acompanhada de uma foto dele bebendo.Esse era o relatório de rotina entre eles.Quando se tratava de relacionamento, Elisa era como qualquer outra garota.Insegura e possessiva.Para tranquilizá-la, Vicente sempre relatava seus passos quando ela não estava por perto.Contudo, no instante seguinte.Os olhos de Elisa pousaram na mão de Vicente, que estava em volta de Clara.Os dois estavam tão próximos, pareciam amantes.O homem que acabara de tranquilizá-la e prometer que se comportaria, no minuto seguinte estava abraçado à mulher que ela mais odiava.Elisa observou a cena, perdendo todas as esperanças.Talvez tudo isso devesse chegar ao fim.Ela pegou o celular e reservou a passagem de volta para a Capital para dali a vinte e nove dias.Capítulo 2Concordei em voltar para casa e me casar por conveniência, e só um ano depois meu ex, aquele que nunca consegui aquecer o coração, se lembrou de mim.Ele apareceu confiante na minha frente, trazendo as flores de íris que eu costumava amar.Ele tinha certeza de que, ao se virar, eu o perdoaria com lágrimas nos olhos.Mas as íris já não me encantavam, e ele, eu já não queria mais.Meu marido de casamento arranjado me puxou para seus braços, olhando para ele com desdém: "Vicente Tavares, minha esposa já está grávida, e você ainda não superou?"Durante a noite, meu marido, que durante o dia era frio e reservado, me beijou até me faltar o ar: "Amor, se você continuar dando bola pro Vicente, vou desenhar uma tartaruga na sua mão!""Mano, concordei em voltar para casa e me casar."Era tarde da noite, e a luz da lua brilhava prateada.Elisa Rios abaixou o olhar, arrumando as roupas no corpo.Logo, a voz de Gabriel Rios soou do outro lado da linha: "Que bom que você se decidiu. Depois que você se formou e insistiu em ir para a Cidade Aurora, já se passaram três anos. Papai e mamãe achavam que algum homem tinha roubado nossa princesinha. Ainda bem que você finalmente decidiu voltar."A voz de Gabriel estava cheia de alívio.Sim, já faz três anos.Os dedos de Elisa tocaram o bracelete de madeira em seu pulso, que ela cuidou tão bem que, mesmo após três anos, parecia novo.Lembrando-se de sua determinação impetuosa ao seguir Vicente para a Cidade Aurora, o coração de Elisa ficou amargo, mas ela não retrucou."Eu fui imatura, deixei vocês preocupados. Vou deixar o casamento por conta de você e dos nossos pais.""Fique tranquila, os pais escolheram um pretendente para você que é impecável em todos os sentidos, desde a aparência até o caráter. Você vai gostar dele."Do outro lado, Gabriel a confortou, mas não mencionou quem era o pretendente, rapidamente mudando de assunto."Ah, Elisa, não esquece de chamar seu Irmão Vicente. Ele também está na Cidade Aurora. Você sempre estava atrás dele, chamando de Irmão Vicente. Desta vez, não esqueça de convidá-lo para o casamento. Mas não sei o que ele anda fazendo, esses dias não consigo falar com ele."A língua de Elisa ficou amarga.É claro que o telefone de Vicente não estava disponível.Porque, um mês atrás, Clara Nunes voltou.Ultimamente, ele estava ocupado trocando longas conversas com Clara.Depois de um momento de silêncio, ela respondeu baixinho: "Ele talvez... não venha ao casamento...""Que casamento?"Antes que ela pudesse terminar, uma voz masculina profunda soou.A porta foi aberta de repente, e Elisa desligou o telefone abruptamente.Ela levantou os olhos e viu Vicente colocando seu terno de lado. Ele estava altivo, com um rosto bonito e um sorriso frio e irônico nos lábios.Ele era a própria elegância.Vicente se aproximou e a puxou para seus braços: "Quem vai se casar?"Ele segurou sua cintura com uma mão, enterrando o rosto em seu pescoço, como se precisasse de sua presença para relaxar."Ninguém."Elisa respondeu suavemente.Mas em seu coração, pensou que seu casamento não precisava da bênção dele pessoalmente.Vicente não notou nada de estranho, apenas tirou a gravata e desabotoou a camisa, com uma postura preguiçosa e sedutora.Ele apertou a cintura dela, brincando: "Eu pensei que você queria se casar."Elisa encontrou seu olhar e, de repente, disse: "E se eu realmente quisesse me casar?""Por que dizer isso de repente?" Vicente parou por um momento, afastando o cabelo dela do rosto, seu olhar profundo. "Você ainda é jovem, não há pressa para isso."Não há pressa, ou era porque ele nunca quis se casar com ela?O coração de Elisa ficou amargo, e ela murmurou baixinho: "Você realmente se casaria comigo?"Ao ouvir sua pergunta, Vicente quis responder prontamente, mas hesitou por um breve momento.Depois de um instante, sua voz era suave e reconfortante: "Claro, Elisa, você veio para a Cidade Aurora comigo, e eu não vou te decepcionar. Quando for o momento certo, eu vou me casar com você..."As palavras dele se perderam entre os lábios, seus lábios frios deslizando do canto da boca dela para o pescoço.A sensação de formigamento fez Elisa estremecer levemente.Elisa fechou os olhos, sem afastá-lo.Ela sabia que Vicente nunca ultrapassaria os limites.Durante esses anos, muitas vezes, Vicente se conteve, nunca avançando o suficiente para dar o próximo passo.No início, ela não entendia, mordeu o lábio timidamente, indicando que estava disposta.Vicente, no entanto, apenas acariciou seus cabelos com gentileza, seu olhar era suave: "Você ainda é jovem, depois que nos casarmos, faremos esse tipo de coisa."Naquele momento, ela pensou que aquilo era um sinal do carinho de Vicente por ela, e com o rosto corado, se aconchegou em seu abraço.Até que Clara voltou, e houve uma ocasião em que ele estava em uma reunião com os amigos.Ela chegou tarde, e, antes de abrir a porta, ouviu um dos amigos de Vicente brincando: "Irmão Vicente, sua esposa está de volta, quando você vai terminar com a substituta da Elisa?"Logo, outro amigo acrescentou: "Pois é, se não fosse pela Elisa, sua esposa não teria sofrido, ela odeia a Elisa."Clara foi a filha adotiva da Família Rios e também filha da governanta deles.Naquela época, por causa de uma armação da governanta, Elisa e Clara foram trocadas, e só perceberam isso quinze anos depois.Depois, a Família Rios trouxe Elisa de volta e devolveu Clara à Família Nunes, dando um milhão de reais como compensação.Pouco tempo depois, Clara foi para o exterior e cortou relações com a Família Rios.Acontece que, aos olhos dos amigos de infância de Vicente, Clara sofreu por causa dela.Mas, na verdade, nos primeiros quinze anos, Elisa não teve uma boa vida na casa adotiva e, ao voltar para a Família Rios, a convivência com Carlos Rios e Camila sempre foi um tanto distante.Talvez os outros não soubessem, mas Vicente estava bem ciente do que havia acontecido entre Clara e ela.No entanto, Vicente apenas interrompeu a conversa, sem emoção: "Não falem bobagem."Essas três palavras curtas não foram acompanhadas de nenhuma explicação adicional.Naquele momento, Elisa percebeu que Vicente nunca a amou.Ele não queria tocá-la, pois guardava-se para Clara.Ela, desde o início, não passava de uma substituta de Clara.De fato.Finalmente, ela percebeu a tensão no corpo de Vicente, mas no segundo seguinte, Vicente a soltou com uma contenção visível.Elisa olhou para suas mãos vazias, sentindo uma tristeza indescritível.Ela e Vicente eram amigos de infância.Nos primeiros dias após voltar para a Família Rios, ela era solitária e reservada, e os amigos de Clara a provocavam, contratando alguns delinquentes para encurralá-la em um beco.Foi Vicente quem levou uma facada por ela.Os bandidos fugiram, mas a lâmina entrou em seu peito, e, mesmo ensanguentado, seus olhos brilhavam com um sorriso, sua voz era suave ao acalmá-la."Não se preocupe, Elisa, o irmão está bem."Desde então, ela se apaixonou perdidamente, sem querer desistir.Por isso, após se formar na universidade, ela o seguiu até Cidade Aurora e se tornou sua secretária.De uma menina ingênua e inexperiente, ela se tornou uma Elisa competente e conhecedora de tudo.Para ajudá-lo a conseguir um projeto, nos momentos mais difíceis, ela trabalhou sem parar por três dias, dormindo apenas quatro horas, e ainda assim, preocupada com a saúde dele, fez sopa para ele.No entanto, três anos se passaram, e o coração dele ainda pertencia a outra mulher."O que está pensando?"Vicente percebeu que ela estava distraída e, com um sorriso, arqueou a sobrancelha: "Foi só um beijo, por que ainda está perdida?"Elisa balançou a cabeça amargamente.Como de costume, após momentos de carinho, ela e Vicente dormiriam em camas separadas.Elisa estava prestes a falar, planejando voltar para seu quarto.O celular de Vicente tocou.Ele não se afastou, e, na frente de Elisa, atendeu no viva-voz.Era um dos bons amigos de Vicente ligando."Vicente, faz tempo que não nos reunimos, hoje você tem tempo, vem ao Clube das Águas, vamos nos encontrar.""Sem chance."Vicente lançou um olhar para Elisa, sorrindo: "Tenho que ficar com sua cunhada, a menos que ela queira ir junto, caso contrário, não vou a lugar algum..."Assim que ele terminou de falar, do outro lado da linha, seus amigos começaram a brincar."Cunhada, venha com Vicente.""É isso mesmo, cunhada, finalmente temos tempo, vamos nos encontrar e tomar um drink."Ao lado, Vicente sorria, seus olhos brilhantes e provocadores, olhando para ela com um misto de brincadeira e carinho.Ele era tão sincero que até mesmo os amigos no telefone chamavam-na de cunhada.Elisa, no entanto, sentia uma leve pontada no coração.Porque, não muito tempo atrás, os amigos de infância de Vicente também chamavam Clara assim.Elisa reprimiu as emoções que fervilhavam dentro dela e respondeu lentamente: "Tudo bem, eu vou."Os amigos de infância de Vicente começaram a provocá-la, e com isso, Elisa não encontrou uma desculpa para recusar.Além disso, ela estava prestes a partir.Esse tempo restante era o que ela tinha de último com Vicente.Seria como uma despedida antes de ir embora.Elisa trocou de roupa, preparando-se para sair com Vicente.No carro, ela acidentalmente notou o chaveiro de Vicente.Era um chaveiro em forma de coelho, nas cores rosa e branco.Em um local discreto, estavam gravadas as letras CN.Claramente, era um presente de Clara para ele.Vicente usava esse chaveiro há muito tempo, mas ele estava bem conservado.No passado, ela não sabia a origem do chaveiro, apenas brincava dizendo que gostaria de tê-lo.Naquela época, Vicente apenas ria e dizia: "Elisa, isso é algo muito importante para o irmão, o que você vai oferecer em troca?"Ela não entendia na época, apenas se irritava por Vicente não querer abrir mão nem de um chaveiro.Agora ela via que esse chaveiro era realmente algo que ele prezava e considerava importante."Por que está olhando para esse chaveiro de novo?" Vicente brincou, sorrindo. "Gosta tanto assim? O irmão manda fazer um novo para você."Ele sorria com os olhos, que brilhavam como águas tranquilas na primavera.No passado, Elisa amava aqueles olhos.Agora, ela percebia que talvez fossem aqueles olhos que a fizeram acreditar que era amada.Elisa ficou em silêncio por um bom tempo antes de sacudir a cabeça e dizer: "Não precisa, Irmão Vicente, já passei da idade de gostar dessas coisinhas."Seja o chaveiro ou o amor de Vicente.Ela não precisava mais.Vicente apenas bagunçou o cabelo dela e dirigiu até o clube.Chegaram tarde, e o lugar já estava cheio de gente.Ao ver Elisa, todos começaram a fazer piadas."Ah, é a cunhada, senão o Vicente teria dado um bolo na gente hoje à noite."Vicente a puxou para sentar ao lado dele.A luz no interior não era muito forte, e Vicente, com sua postura elegante e presença marcante, se destacava no meio das pessoas.Ele sabia que Elisa era tímida e introvertida, então, quando viu o grupo provocando-a, calmamente interveio em sua defesa."Vocês beberam, mantenham distância da Elisa, não quero ela cheirando a bebida.""Isso mesmo."Alguém imediatamente entrou na brincadeira, rindo: "A cunhada não bebe, né? Suco ou leite? Vou pedir para trazerem."Vicente raramente deixava ela beber. Ele afagou a cabeça dela e perguntou baixinho: "Leite?"A voz dele era suave, e o olhar cheio de ternura, tanto que, desde pequena, ela se deixava envolver por essa doçura.Mas agora, ela só sentia cansaço.Ela não era mais uma criança.Ternura não era sinônimo de amor."Tanto faz." Ela respondeu baixinho.Logo trouxeram o leite.Todos ali eram muito cuidadosos com Elisa, até evitavam fumar perto dela.Sem mencionar as piadas de duplo sentido entre os homens.Mas Elisa se sentia um tanto entediada.Vicente percebeu e perguntou gentilmente: "Elisa, você está se sentindo mal?"Os olhares ao redor se voltaram para ela, com expressões de preocupação."Cunhada, está tudo bem? Somos um pouco barulhentos quando nos divertimos, você está bem?"Ela olhou para todos, lembrando-se do tom afetuoso com que os amigos de infância de Vicente chamavam Clara.Ela não conseguia mais manter a fachada."Estou bem, está um pouco abafado aqui, vou sair para tomar um ar.""É uma boa ideia." Vicente sorriu e colocou um casaco sobre ela. "Está frio lá fora, vista o casaco antes de sair."Elisa saiu silenciosamente do salão.O vento noturno estava um pouco frio, e enquanto olhava para as estrelas, flashes de momentos passados com Vicente cruzavam sua mente, enchendo seu coração de tristeza.Clara foi o primeiro amor de Vicente.E o que Vicente foi para ela, senão seu primeiro amor também?Com um olhar melancólico, ela avistou uma figura familiar ao longe.A mulher usava um vestido branco, com feições que lembravam as suas, suave e serena.Clara... também estava ali.Elisa ficou paralisada.Ela pensou que Vicente não permitiria que ela se encontrasse com Clara, mas ele a trouxe também.De repente, lembrou-se da frase de Vicente: "A menos que sua cunhada venha comigo, não vou a lugar algum."Afinal, a quem ele realmente se referia como cunhada, a ela ou a Clara?Os dedos de Elisa se fecharam, o peito apertado de tal forma que ela não conseguiu controlar e seguiu em frente.A porta do salão não estava totalmente fechada, deixando uma fresta.Clara entrou, claramente acostumada com os amigos de infância de Vicente.Todos a cumprimentaram alegremente: "Cunhada, ainda bem que você veio, o Irmão Vicente estava esperando por você.""É verdade, antes de você chegar, o Irmão Vicente estava meio desanimado.""Não falem besteira."Vicente interrompeu suavemente, mas não impediu Clara de se sentar ao lado dele.Elisa observou a cena, sentindo-se estranhamente calma e entorpecida.Claro.Todos ao redor de Vicente sabiam da existência de Clara.No fundo, a cunhada reconhecida por todos sempre foi Clara.Nesse momento, o som de uma mensagem no celular interrompeu seus pensamentos.Elisa abriu a mensagem, era de Vicente."Não se preocupe, o irmão vai se comportar, não vou tocar em outra mulher, só estou bebendo com eles."Acompanhada de uma foto dele bebendo.Esse era o relatório de rotina entre eles.Quando se tratava de relacionamento, Elisa era como qualquer outra garota.Insegura e possessiva.Para tranquilizá-la, Vicente sempre relatava seus passos quando ela não estava por perto.Contudo, no instante seguinte.Os olhos de Elisa pousaram na mão de Vicente, que estava em volta de Clara.Os dois estavam tão próximos, pareciam amantes.O homem que acabara de tranquilizá-la e prometer que se comportaria, no minuto seguinte estava abraçado à mulher que ela mais odiava.Elisa observou a cena, perdendo todas as esperanças.Talvez tudo isso devesse chegar ao fim.Ela pegou o celular e reservou a passagem de volta para a Capital para dali a vinte e nove dias.Capítulo 3Concordei em voltar para casa e me casar por conveniência, e só um ano depois meu ex, aquele que nunca consegui aquecer o coração, se lembrou de mim.Ele apareceu confiante na minha frente, trazendo as flores de íris que eu costumava amar.Ele tinha certeza de que, ao se virar, eu o perdoaria com lágrimas nos olhos.Mas as íris já não me encantavam, e ele, eu já não queria mais.Meu marido de casamento arranjado me puxou para seus braços, olhando para ele com desdém: "Vicente Tavares, minha esposa já está grávida, e você ainda não superou?"Durante a noite, meu marido, que durante o dia era frio e reservado, me beijou até me faltar o ar: "Amor, se você continuar dando bola pro Vicente, vou desenhar uma tartaruga na sua mão!""Mano, concordei em voltar para casa e me casar."Era tarde da noite, e a luz da lua brilhava prateada.Elisa Rios abaixou o olhar, arrumando as roupas no corpo.Logo, a voz de Gabriel Rios soou do outro lado da linha: "Que bom que você se decidiu. Depois que você se formou e insistiu em ir para a Cidade Aurora, já se passaram três anos. Papai e mamãe achavam que algum homem tinha roubado nossa princesinha. Ainda bem que você finalmente decidiu voltar."A voz de Gabriel estava cheia de alívio.Sim, já faz três anos.Os dedos de Elisa tocaram o bracelete de madeira em seu pulso, que ela cuidou tão bem que, mesmo após três anos, parecia novo.Lembrando-se de sua determinação impetuosa ao seguir Vicente para a Cidade Aurora, o coração de Elisa ficou amargo, mas ela não retrucou."Eu fui imatura, deixei vocês preocupados. Vou deixar o casamento por conta de você e dos nossos pais.""Fique tranquila, os pais escolheram um pretendente para você que é impecável em todos os sentidos, desde a aparência até o caráter. Você vai gostar dele."Do outro lado, Gabriel a confortou, mas não mencionou quem era o pretendente, rapidamente mudando de assunto."Ah, Elisa, não esquece de chamar seu Irmão Vicente. Ele também está na Cidade Aurora. Você sempre estava atrás dele, chamando de Irmão Vicente. Desta vez, não esqueça de convidá-lo para o casamento. Mas não sei o que ele anda fazendo, esses dias não consigo falar com ele."A língua de Elisa ficou amarga.É claro que o telefone de Vicente não estava disponível.Porque, um mês atrás, Clara Nunes voltou.Ultimamente, ele estava ocupado trocando longas conversas com Clara.Depois de um momento de silêncio, ela respondeu baixinho: "Ele talvez... não venha ao casamento...""Que casamento?"Antes que ela pudesse terminar, uma voz masculina profunda soou.A porta foi aberta de repente, e Elisa desligou o telefone abruptamente.Ela levantou os olhos e viu Vicente colocando seu terno de lado. Ele estava altivo, com um rosto bonito e um sorriso frio e irônico nos lábios.Ele era a própria elegância.Vicente se aproximou e a puxou para seus braços: "Quem vai se casar?"Ele segurou sua cintura com uma mão, enterrando o rosto em seu pescoço, como se precisasse de sua presença para relaxar."Ninguém."Elisa respondeu suavemente.Mas em seu coração, pensou que seu casamento não precisava da bênção dele pessoalmente.Vicente não notou nada de estranho, apenas tirou a gravata e desabotoou a camisa, com uma postura preguiçosa e sedutora.Ele apertou a cintura dela, brincando: "Eu pensei que você queria se casar."Elisa encontrou seu olhar e, de repente, disse: "E se eu realmente quisesse me casar?""Por que dizer isso de repente?" Vicente parou por um momento, afastando o cabelo dela do rosto, seu olhar profundo. "Você ainda é jovem, não há pressa para isso."Não há pressa, ou era porque ele nunca quis se casar com ela?O coração de Elisa ficou amargo, e ela murmurou baixinho: "Você realmente se casaria comigo?"Ao ouvir sua pergunta, Vicente quis responder prontamente, mas hesitou por um breve momento.Depois de um instante, sua voz era suave e reconfortante: "Claro, Elisa, você veio para a Cidade Aurora comigo, e eu não vou te decepcionar. Quando for o momento certo, eu vou me casar com você..."As palavras dele se perderam entre os lábios, seus lábios frios deslizando do canto da boca dela para o pescoço.A sensação de formigamento fez Elisa estremecer levemente.Elisa fechou os olhos, sem afastá-lo.Ela sabia que Vicente nunca ultrapassaria os limites.Durante esses anos, muitas vezes, Vicente se conteve, nunca avançando o suficiente para dar o próximo passo.No início, ela não entendia, mordeu o lábio timidamente, indicando que estava disposta.Vicente, no entanto, apenas acariciou seus cabelos com gentileza, seu olhar era suave: "Você ainda é jovem, depois que nos casarmos, faremos esse tipo de coisa."Naquele momento, ela pensou que aquilo era um sinal do carinho de Vicente por ela, e com o rosto corado, se aconchegou em seu abraço.Até que Clara voltou, e houve uma ocasião em que ele estava em uma reunião com os amigos.Ela chegou tarde, e, antes de abrir a porta, ouviu um dos amigos de Vicente brincando: "Irmão Vicente, sua esposa está de volta, quando você vai terminar com a substituta da Elisa?"Logo, outro amigo acrescentou: "Pois é, se não fosse pela Elisa, sua esposa não teria sofrido, ela odeia a Elisa."Clara foi a filha adotiva da Família Rios e também filha da governanta deles.Naquela época, por causa de uma armação da governanta, Elisa e Clara foram trocadas, e só perceberam isso quinze anos depois.Depois, a Família Rios trouxe Elisa de volta e devolveu Clara à Família Nunes, dando um milhão de reais como compensação.Pouco tempo depois, Clara foi para o exterior e cortou relações com a Família Rios.Acontece que, aos olhos dos amigos de infância de Vicente, Clara sofreu por causa dela.Mas, na verdade, nos primeiros quinze anos, Elisa não teve uma boa vida na casa adotiva e, ao voltar para a Família Rios, a convivência com Carlos Rios e Camila sempre foi um tanto distante.Talvez os outros não soubessem, mas Vicente estava bem ciente do que havia acontecido entre Clara e ela.No entanto, Vicente apenas interrompeu a conversa, sem emoção: "Não falem bobagem."Essas três palavras curtas não foram acompanhadas de nenhuma explicação adicional.Naquele momento, Elisa percebeu que Vicente nunca a amou.Ele não queria tocá-la, pois guardava-se para Clara.Ela, desde o início, não passava de uma substituta de Clara.De fato.Finalmente, ela percebeu a tensão no corpo de Vicente, mas no segundo seguinte, Vicente a soltou com uma contenção visível.Elisa olhou para suas mãos vazias, sentindo uma tristeza indescritível.Ela e Vicente eram amigos de infância.Nos primeiros dias após voltar para a Família Rios, ela era solitária e reservada, e os amigos de Clara a provocavam, contratando alguns delinquentes para encurralá-la em um beco.Foi Vicente quem levou uma facada por ela.Os bandidos fugiram, mas a lâmina entrou em seu peito, e, mesmo ensanguentado, seus olhos brilhavam com um sorriso, sua voz era suave ao acalmá-la."Não se preocupe, Elisa, o irmão está bem."Desde então, ela se apaixonou perdidamente, sem querer desistir.Por isso, após se formar na universidade, ela o seguiu até Cidade Aurora e se tornou sua secretária.De uma menina ingênua e inexperiente, ela se tornou uma Elisa competente e conhecedora de tudo.Para ajudá-lo a conseguir um projeto, nos momentos mais difíceis, ela trabalhou sem parar por três dias, dormindo apenas quatro horas, e ainda assim, preocupada com a saúde dele, fez sopa para ele.No entanto, três anos se passaram, e o coração dele ainda pertencia a outra mulher."O que está pensando?"Vicente percebeu que ela estava distraída e, com um sorriso, arqueou a sobrancelha: "Foi só um beijo, por que ainda está perdida?"Elisa balançou a cabeça amargamente.Como de costume, após momentos de carinho, ela e Vicente dormiriam em camas separadas.Elisa estava prestes a falar, planejando voltar para seu quarto.O celular de Vicente tocou.Ele não se afastou, e, na frente de Elisa, atendeu no viva-voz.Era um dos bons amigos de Vicente ligando."Vicente, faz tempo que não nos reunimos, hoje você tem tempo, vem ao Clube das Águas, vamos nos encontrar.""Sem chance."Vicente lançou um olhar para Elisa, sorrindo: "Tenho que ficar com sua cunhada, a menos que ela queira ir junto, caso contrário, não vou a lugar algum..."Assim que ele terminou de falar, do outro lado da linha, seus amigos começaram a brincar."Cunhada, venha com Vicente.""É isso mesmo, cunhada, finalmente temos tempo, vamos nos encontrar e tomar um drink."Ao lado, Vicente sorria, seus olhos brilhantes e provocadores, olhando para ela com um misto de brincadeira e carinho.Ele era tão sincero que até mesmo os amigos no telefone chamavam-na de cunhada.Elisa, no entanto, sentia uma leve pontada no coração.Porque, não muito tempo atrás, os amigos de infância de Vicente também chamavam Clara assim.Elisa reprimiu as emoções que fervilhavam dentro dela e respondeu lentamente: "Tudo bem, eu vou."Os amigos de infância de Vicente começaram a provocá-la, e com isso, Elisa não encontrou uma desculpa para recusar.Além disso, ela estava prestes a partir.Esse tempo restante era o que ela tinha de último com Vicente.Seria como uma despedida antes de ir embora.Elisa trocou de roupa, preparando-se para sair com Vicente.No carro, ela acidentalmente notou o chaveiro de Vicente.Era um chaveiro em forma de coelho, nas cores rosa e branco.Em um local discreto, estavam gravadas as letras CN.Claramente, era um presente de Clara para ele.Vicente usava esse chaveiro há muito tempo, mas ele estava bem conservado.No passado, ela não sabia a origem do chaveiro, apenas brincava dizendo que gostaria de tê-lo.Naquela época, Vicente apenas ria e dizia: "Elisa, isso é algo muito importante para o irmão, o que você vai oferecer em troca?"Ela não entendia na época, apenas se irritava por Vicente não querer abrir mão nem de um chaveiro.Agora ela via que esse chaveiro era realmente algo que ele prezava e considerava importante."Por que está olhando para esse chaveiro de novo?" Vicente brincou, sorrindo. "Gosta tanto assim? O irmão manda fazer um novo para você."Ele sorria com os olhos, que brilhavam como águas tranquilas na primavera.No passado, Elisa amava aqueles olhos.Agora, ela percebia que talvez fossem aqueles olhos que a fizeram acreditar que era amada.Elisa ficou em silêncio por um bom tempo antes de sacudir a cabeça e dizer: "Não precisa, Irmão Vicente, já passei da idade de gostar dessas coisinhas."Seja o chaveiro ou o amor de Vicente.Ela não precisava mais.Vicente apenas bagunçou o cabelo dela e dirigiu até o clube.Chegaram tarde, e o lugar já estava cheio de gente.Ao ver Elisa, todos começaram a fazer piadas."Ah, é a cunhada, senão o Vicente teria dado um bolo na gente hoje à noite."Vicente a puxou para sentar ao lado dele.A luz no interior não era muito forte, e Vicente, com sua postura elegante e presença marcante, se destacava no meio das pessoas.Ele sabia que Elisa era tímida e introvertida, então, quando viu o grupo provocando-a, calmamente interveio em sua defesa."Vocês beberam, mantenham distância da Elisa, não quero ela cheirando a bebida.""Isso mesmo."Alguém imediatamente entrou na brincadeira, rindo: "A cunhada não bebe, né? Suco ou leite? Vou pedir para trazerem."Vicente raramente deixava ela beber. Ele afagou a cabeça dela e perguntou baixinho: "Leite?"A voz dele era suave, e o olhar cheio de ternura, tanto que, desde pequena, ela se deixava envolver por essa doçura.Mas agora, ela só sentia cansaço.Ela não era mais uma criança.Ternura não era sinônimo de amor."Tanto faz." Ela respondeu baixinho.Logo trouxeram o leite.Todos ali eram muito cuidadosos com Elisa, até evitavam fumar perto dela.Sem mencionar as piadas de duplo sentido entre os homens.Mas Elisa se sentia um tanto entediada.Vicente percebeu e perguntou gentilmente: "Elisa, você está se sentindo mal?"Os olhares ao redor se voltaram para ela, com expressões de preocupação."Cunhada, está tudo bem? Somos um pouco barulhentos quando nos divertimos, você está bem?"Ela olhou para todos, lembrando-se do tom afetuoso com que os amigos de infância de Vicente chamavam Clara.Ela não conseguia mais manter a fachada."Estou bem, está um pouco abafado aqui, vou sair para tomar um ar.""É uma boa ideia." Vicente sorriu e colocou um casaco sobre ela. "Está frio lá fora, vista o casaco antes de sair."Elisa saiu silenciosamente do salão.O vento noturno estava um pouco frio, e enquanto olhava para as estrelas, flashes de momentos passados com Vicente cruzavam sua mente, enchendo seu coração de tristeza.Clara foi o primeiro amor de Vicente.E o que Vicente foi para ela, senão seu primeiro amor também?Com um olhar melancólico, ela avistou uma figura familiar ao longe.A mulher usava um vestido branco, com feições que lembravam as suas, suave e serena.Clara... também estava ali.Elisa ficou paralisada.Ela pensou que Vicente não permitiria que ela se encontrasse com Clara, mas ele a trouxe também.De repente, lembrou-se da frase de Vicente: "A menos que sua cunhada venha comigo, não vou a lugar algum."Afinal, a quem ele realmente se referia como cunhada, a ela ou a Clara?Os dedos de Elisa se fecharam, o peito apertado de tal forma que ela não conseguiu controlar e seguiu em frente.A porta do salão não estava totalmente fechada, deixando uma fresta.Clara entrou, claramente acostumada com os amigos de infância de Vicente.Todos a cumprimentaram alegremente: "Cunhada, ainda bem que você veio, o Irmão Vicente estava esperando por você.""É verdade, antes de você chegar, o Irmão Vicente estava meio desanimado.""Não falem besteira."Vicente interrompeu suavemente, mas não impediu Clara de se sentar ao lado dele.Elisa observou a cena, sentindo-se estranhamente calma e entorpecida.Claro.Todos ao redor de Vicente sabiam da existência de Clara.No fundo, a cunhada reconhecida por todos sempre foi Clara.Nesse momento, o som de uma mensagem no celular interrompeu seus pensamentos.Elisa abriu a mensagem, era de Vicente."Não se preocupe, o irmão vai se comportar, não vou tocar em outra mulher, só estou bebendo com eles."Acompanhada de uma foto dele bebendo.Esse era o relatório de rotina entre eles.Quando se tratava de relacionamento, Elisa era como qualquer outra garota.Insegura e possessiva.Para tranquilizá-la, Vicente sempre relatava seus passos quando ela não estava por perto.Contudo, no instante seguinte.Os olhos de Elisa pousaram na mão de Vicente, que estava em volta de Clara.Os dois estavam tão próximos, pareciam amantes.O homem que acabara de tranquilizá-la e prometer que se comportaria, no minuto seguinte estava abraçado à mulher que ela mais odiava.Elisa observou a cena, perdendo todas as esperanças.Talvez tudo isso devesse chegar ao fim.Ela pegou o celular e reservou a passagem de volta para a Capital para dali a vinte e nove dias.