Capítulo 1Ao fechar a porta do carro, todos os ruídos desapareceram.Lúcia Guedes fixou o olhar no laudo de diagnóstico de câncer de fígado; seus olhos amendoados avermelharam, e o papel em sua mão ficou marcado por vários vincos que ela apertou.O médico lhe dissera que ela havia perdido o melhor período para a cirurgia e que lhe restavam apenas seis meses de vida.Hoje havia uma atividade de integração entre pais e filhos na escola, e Virgílio Naia, de forma inédita, a notificara, convidando-a para participar junto com ele.Já faziam sete anos desde que ele passara de uma figura inatingível da alta sociedade, desde a juventude, a tornar-se seu marido até o dia de hoje.Durante esses sete anos, ele, sempre reservado e altivo, jamais a levara a nenhum evento público.Se fosse antigamente, ela certamente teria ficado eufórica ao receber essa notícia.Quando a empregada ouviu sobre o convite, também ficou feliz e disse a ela: "Dona Lúcia, parece que o senhor finalmente vai assumir seu relacionamento com a senhora!"Ninguém sabia que, desde que ela descobrira aquele segredo dele, vinha planejando o divórcio em segredo há muito tempo.Na verdade, Lúcia nem pretendia ir à atividade de pais e filhos.Mas não conseguia suportar a ideia de decepcionar o filho.Ela podia ignorar Virgílio, mas não conseguia ser indiferente ao próprio filho, Júlio Naia, que havia gerado com tanto sacrifício.Lúcia chegou à escola, tirou um bloco de notas da bolsa, escreveu uma linha com sua caligrafia graciosa e entregou educadamente ao porteiro.[Olá, sou a mãe do Júlio Naia, do 1º ano, vim participar da atividade de pais e filhos, poderia abrir o portão para mim?]Lúcia escolheu propositalmente uma camisa de chiffon franzida, prendeu o cabelo de maneira simples e, depois de muito tempo, voltou a usar os brincos de pérola que ganhara de Virgílio.Ela já era de feições serenas, e essa produção discreta a deixava ainda mais delicada e encantadora.Ela sabia, as crianças sempre desejam que suas mães estejam bonitas nos eventos da escola.O porteiro a olhou com sobrancelha erguida: "Você não sabe falar?"Lúcia sorriu e acenou com a cabeça.Na verdade, ela não era muda de nascença; desde aquele ano em que sofrera um grande trauma, desenvolvera afasia, e já havia se acostumado com esse tipo de pergunta.O porteiro pegou a lista de presença, deu uma olhada atenta, e então examinou Lúcia de cima a baixo.Uma mulher bonita, que pena ser muda.O tom do porteiro tornou-se menos amigável: "O pai e a mãe do Júlio já assinaram a entrada, como é que você pode se passar pela mãe dele?"Lúcia franziu a testa e rapidamente escreveu no papel: "Júlio é realmente meu filho, não há necessidade de fingir."Impaciente, o porteiro trouxe a lista e apontou para o nome de Júlio: "Olhe direito!"Lúcia viu os dois nomes na coluna de assinatura dos responsáveis e sentiu o coração apertar de repente.Ela já estava acostumada às ironias e piadas por causa de sua mudez.Mas hoje, o peito parecia sufocado, sem espaço para respirar.Não era por causa da ironia do porteiro.Era pelo nome que Virgílio, com sua caligrafia incisiva, deixara na lista de presença—Leonor Lima.Ele ousara chegar a esse ponto.Ela nunca havia visto Leonor, mas certa vez, ao arrumar o escritório, achou um papel caído num canto debaixo da mesa.Nele, o nome "Leonor" estava escrito repetidas vezes.O sexto sentido de mulher lhe deu a resposta.Leonor, então, tinha o sobrenome Lima.Quando o filho nasceu, Virgílio escolheu o nome Júlio para ele.Foi exatamente nesse dia que Lúcia decidiu firmemente que pediria o divórcio.Nos últimos meses, fora os assuntos relacionados a Júlio, ela dedicara o restante de suas energias a essa questão.Consultou vários escritórios de advocacia, mas ao saberem que Virgílio seria o réu, os advogados a dispensavam educadamente.No fim das contas, talvez fosse melhor assim: em seis meses, ela não existiria mais neste mundo, e seu casamento com Virgílio se dissolveria automaticamente.Nem precisaria mais contratar um advogado para o divórcio.Ao retornar para a mansão, sentiu uma dor intensa no abdômen.O médico dissera que o fígado não tinha terminações nervosas para dor; quando a dor aparecia, geralmente já era tarde demais.Lúcia pegou o celular, querendo pesquisar informações sobre a doença, mas ele havia desligado por falta de bateria.Ela conectou o carregador, e ao religar o aparelho, percebeu que o grupo dos pais estava lotado de mensagens.Viu mais de 99 notificações e abriu.Nos vídeos, os tornozelos de Júlio estavam amarrados com fitas vermelhas, cada uma presa ao tornozelo de Virgílio e de Leonor.Júlio sorria radiante.Virgílio, sempre tão sério, exibia um leve sorriso nos lábios bem delineados, e seus olhos escuros brilhavam com suavidade.Com sua postura alta e imponente, traços faciais marcantes, cabelos negros densos e olhar profundo, cada gesto seu transbordava uma dignidade arrebatadora.Ela já o vira muitas vezes triunfante nos negócios.Desde o primeiro olhar, apaixonara-se perdidamente por ele.Mas, afinal, quanto daquela ternura no olhar ele já dedicara a ela?Quanto a Leonor… De vestido claro e simples, pele alva como a neve, delicada e elegante, irradiava naturalmente o charme de uma autêntica dama da elite paulistana.No vídeo, por causa das fitas nos tornozelos, eles acabaram tropeçando e caindo juntos; Virgílio, sempre de expressão impassível, agora demonstrava preocupação e segurava firmemente a cintura de Leonor.Além desse vídeo, havia várias fotos tiradas espontaneamente.[Os pais do pequeno Júlio eram realmente um casal admirável.][De fato, o pai era charmoso, a mãe, linda. Não é de se estranhar que o pequeno Júlio também fosse tão bonito.][Essa família de três despertava inveja em qualquer um.]Ao folhear essas imagens, o coração dela já não se abalava mais.Só sentia pena daquela que um dia se entregara incondicionalmente; seus olhos ardiam, e pequenas lágrimas brilhavam em suas órbitas claras.A dor que vinha do abdômen fez com que o suor frio brotasse em sua testa.A empregada Bruna, ao perceber seu estado, aproximou-se e disse: "Senhora, a senhora está se sentindo mal? Quer que eu a leve ao hospital?"Lúcia balançou a cabeça, pegou o celular e digitou: "Não é nada, só preciso descansar um pouco.""Tem certeza?"Lúcia assentiu.Ela se levantou, serviu-se de um copo d’água e foi para o quarto. De sua bolsa tirou o remédio prescrito pelo médico para o tratamento conservador e, seguindo as instruções, tomou alguns comprimidos.Depois de colocar o copo sobre a mesa, levantou o olhar para a foto de casamento pendurada na parede.Era uma foto ampliada do registro civil.Ela queria tirar fotos de casamento para colocar no novo lar, mas Virgílio dissera não gostar de tirar fotos. Se ela quisesse uma, bastava ampliar a do registro.Durante os sete anos de casamento com Virgílio, aquela era a única foto dos dois juntos.Hoje, porém, ele tirara tantas fotos com Leonor.Não é que ele não gostasse de tirar fotos; talvez ele só não quisesse tirar com ela.Por sete anos, ela se enganara com essa mentira cheia de falhas.Hoje à noite, ela despedaçaria essa farsa e diria a Virgílio que queria o divórcio.Já passava das dez da noite quando o som do motor de um carro veio do lado de fora.Pouco depois, Bruna anunciou: "Senhora, o senhor e o menino chegaram."Os cílios de Lúcia tremeram levemente. Ela saiu do quarto, pronta para pedir o divórcio.Quanto ao câncer de fígado, não pretendia contar.Mesmo que dissesse, ele provavelmente não se importaria; não queria se humilhar mais.Virgílio entrou com duas malas, passos elegantes e firmes.O terno sob medida, impecavelmente ajustado ao corpo esguio, destacava ainda mais sua elegância e beleza, e o tecido cinza-prateado reluzia sobriamente.Virgílio ergueu levemente o queixo, o olhar profundo percorreu Lúcia devagar.Ela estava linda aquela noite; a camisa de tom dourado-claro valorizava sua pele alva. Durante as viagens a trabalho, ele frequentemente sentia falta dessa suavidade dela.A expressão sempre austera de Virgílio suavizou-se, e o olhar intenso, escuro como a noite, repousou sobre Lúcia. Sua voz soou elegante e serena: "Temos visita em casa. Por favor, prepare o quarto de hóspedes."Atrás dele, Leonor entrou lentamente.O pequeno Júlio, com a cabecinha encostada no pescoço de Leonor, dormia profundamente.Virgílio trouxe Leonor para casa sem nenhum constrangimento.Lúcia ficou paralisada.Sem que Lúcia se movesse, Bruna também não ousou tomar a iniciativa de arrumar nada.Leonor puxou suavemente a manga de Virgílio."Virgílio, você é casado, sua esposa está em casa. Não convém eu ficar aqui novamente. Só vim trazer o Júlio de volta, reservei um quarto no hotel."A testa de Lúcia se franziu; pelo visto, Leonor já morara ali antes.Falando isso, Leonor passou Júlio para Lúcia."Lúcia, venha pegar o Júlio."Lúcia ficou surpresa ao perceber que Leonor Lima sabia seu nome. Ela estendeu as mãos para segurar o menino.Júlio abriu os olhos sonolento, abraçando Leonor com carinho."irmã Leonor, você prometeu me contar uma história antes de dormir hoje.""Júlio, você já está em casa. Sua mãe pode contar a história para você. Eu preciso ir agora."A voz de Leonor era suave.Júlio a abraçou ainda mais forte."irmã Leonor, não vá, por favor? Minha mãe sempre coloca histórias no celular para eu ouvir. Quando falo com ela, parece que estou falando sozinho, não tem graça. Nem conto para meus colegas que ela é..."As palavras "muda" quase escaparam dos lábios de Júlio, mas ele se conteve. Sentia-se desconfortável em dizer que sua mãe era muda.Na escola, haveria momentos em que os pais seriam chamados para participar de atividades. Por isso, Júlio tentava se aproximar de Leonor: "Ainda bem que hoje você foi com meu pai na atividade de pais e filhos na escola. Meus colegas acham que você é minha mãe e ficaram com inveja."Quando era menor, Júlio não tinha noção dessas coisas e dependia muito de Lúcia. Com o tempo, começou a reclamar do fato de ela não falar.Só hoje Lúcia percebeu o quanto Júlio se importava com sua condição.É, o menino estava crescendo e começando a se preocupar com a própria imagem.Constrangida, Lúcia recolheu as mãos, que ficaram suspensas no ar.Em Libras, ela sinalizou com firmeza: "Quem é ela?"Lúcia achou engraçado ser questionada daquela forma, mas, estando à beira da morte, não queria mais fingir ignorância ou manter ambiguidades.Ao que parecia, Leonor interpretou a atitude de Lúcia como um acesso de ciúmes.Ela era afilhada reconhecida pela avó de Virgílio, e, ao longo dos anos, a Velha Senhora a tratara como se fosse sua própria filha.Leonor, por sua vez, já se considerava uma verdadeira integrante da Família Lima.Com um gesto contido, Leonor recolheu o sorriso dos lábios, olhou fixamente para Virgílio e disse em voz baixa: "Virgílio, você não contou para a Lúcia que eu sou sua tia?"Lúcia ficou surpresa.Afinal, aquele Virgílio sempre tão gentil e refinado, com educação impecável, também sabia se divertir às escondidas.Além disso, Leonor ainda demonstrava entender a linguagem de sinais.Virgílio respondeu a Leonor em tom baixo e preguiçoso: "Contar ou não tanto faz. Não se preocupe, fique esta noite aqui."O coração de Lúcia afundou repentinamente.Após dizer isso, Virgílio pediu para Bruna preparar um quarto.O ambiente ficou tenso.Leonor repreendeu Virgílio suavemente: "Virgílio, Lúcia é sua esposa, como pode falar com ela desse jeito?"A aura sombria de Virgílio diminuiu consideravelmente.De fato, ele acatou as palavras de Leonor.Júlio também mostrou desagrado: "Mamãe, a irmã Leonor é tia do papai, eu deveria chamá-la de tia-avó, mas ela é tão jovem que fico sem jeito de chamá-la assim, por isso a chamo de irmã. Ela veio nos visitar, pedir para você preparar um quarto para ela é algo tão difícil assim?"O coração de Lúcia quase se despedaçou.Aquele era o filho que ela carregara por nove meses e criou com todo cuidado.Naquela tarde, ao retornar para casa, Lúcia refletiu sobre o que aconteceria com Júlio caso ela morresse.Ela se dedicara completamente a planejar o futuro do filho.No entanto, bastou Júlio encontrar Leonor uma vez para passar a defendê-la em tudo.Talvez tudo o que fizera tivesse sido em vão.Pai e filho já não precisavam mais dela.Percebendo o clima pesado, Leonor entregou Júlio nos braços de Virgílio e, com voz gentil, disse: "Virgílio, é melhor eu ir para um hotel. Amanhã volto para ver o Júlio."Leonor pegou sua mala e saiu sem olhar para trás.Júlio imediatamente começou a chorar: "Irmã Leonor, não vá embora, por favor!"Virgílio lançou um olhar de lado para Lúcia, o olhar escuro e complexo: "Lúcia, hoje você foi muito inconveniente."Ao dizer isso, ele colocou Júlio nos braços de Lúcia, que, por reflexo, segurou o filho.Virgílio saiu logo em seguida.Em sete anos de casamento, Lúcia nunca o vira tão inquieto.Ainda atordoada, Lúcia ouviu Júlio se debater: "Me solta! Me solta!"Ela não teve escolha a não ser soltá-lo.Júlio, porém, a empurrou: "Mamãe é má! Mamãe fez a irmã Leonor ir embora!"Dito isso, Júlio correu zangado para seu quarto.O coração de Lúcia se sentiu dilacerado.Bruna testemunhou a cena e quis consolar Lúcia, mas não encontrou palavras.Sem expressão, Lúcia foi para o quarto principal.Sem chance de se explicar? Se era o destino, ela partiria em silêncio.Guardou o remédio que o médico receitara naquele dia em sua bolsa e, ao abri-la, viu o cartão bancário guardado no compartimento das cartas.Desde que se casara com Virgílio, sempre que havia visitas em casa ou eventos públicos, ele pedia que ela se retirasse e transferia dois milhões para que ela fosse fazer compras.Ao todo, aquele cartão já havia recebido sessenta e seis milhões.Porém, mais da metade já havia sido gasta.Lúcia nunca entendeu por que Virgílio, que insistira em casar com ela, depois a desprezava por ser muda.Muitas vezes quis perguntar, mas nunca teve coragem.Não conseguia se desapegar dele, nem do filho.Todos os dias cuidava pessoalmente de Júlio e mantinha a casa impecável.Durante sete anos, girou em torno de pai e filho.Raramente pensava em si mesma.Agora, estava com câncer.Restavam-lhe apenas seis meses de vida.Todo o esforço passado fora em vão.O toque repentino do celular a trouxe de volta à realidade.Era uma ligação do Velho Sr. Naia.Ela não falava, e o Velho Sr. Naia raramente a procurava. Durante os sete anos de casamento, ele sempre fora mais cordial com ela do que os demais membros da Família Naia.Ela atendeu à ligação."Virgílio está aí?"Logo após perguntar, o Velho Sr. Naia se lembrou de que Lúcia não podia responder e disse: "Se ele estiver aí, bata no celular."Lúcia não bateu.Então, o Velho Sr. Naia falou em tom grave: "Você está casada com Virgílio há sete anos, deu a ele um filho, Júlio, mas nem assim conseguiu prender o coração dele?"Os dedos de Lúcia ficaram dormentes.Todos sabiam que o título de Sra. Naia era apenas uma fachada.Sem resposta, restou apenas o silêncio do outro lado da linha."Mesmo sem falar, você conseguiu que Virgílio quisesse se casar com você e lhe desse um filho, então alguma qualidade você deve ter..."O Velho Sr. Naia fez uma pausa e continuou: "Se Virgílio mudar de ideia, com sua condição, certamente perderá Júlio. Eu não me importaria em encontrar uma mãe que fale para Júlio, mas madrasta nunca será igual à mãe de sangue. Pense bem."Após isso, o Velho Sr. Naia desligou.O pouco de cordialidade que ele lhe reservava vinha da esperança de que ela mantivesse Virgílio ao seu lado.A mensagem era clara: se ela não conseguisse, o Velho Senhor logo trocaria a Sra. Naia por Leonor.Famílias tradicionais como os Naia não toleravam escândalos imorais.No fim, era o Velho Sr. Naia quem mais se preocupava.Somente ela não sabia do envolvimento entre Virgílio e Leonor.Tudo isso lhe deu uma resposta: Virgílio nunca a amaria.Provavelmente, mesmo que não pedisse o divórcio, Virgílio logo o faria.Estava na hora de partir.Devolver aquele lugar que nunca lhe pertenceu.Lúcia colocou a bolsa no ombro, pegou o envelope de papel pardo cheio dos exames médicos e saiu do quarto com o olhar vazio.Sem perceber, deixou cair o diagnóstico que sentenciava o fim de sua vida, ficando abandonado junto à cama.Capítulo 2Ao fechar a porta do carro, todos os ruídos desapareceram.Lúcia Guedes fixou o olhar no laudo de diagnóstico de câncer de fígado; seus olhos amendoados avermelharam, e o papel em sua mão ficou marcado por vários vincos que ela apertou.O médico lhe dissera que ela havia perdido o melhor período para a cirurgia e que lhe restavam apenas seis meses de vida.Hoje havia uma atividade de integração entre pais e filhos na escola, e Virgílio Naia, de forma inédita, a notificara, convidando-a para participar junto com ele.Já faziam sete anos desde que ele passara de uma figura inatingível da alta sociedade, desde a juventude, a tornar-se seu marido até o dia de hoje.Durante esses sete anos, ele, sempre reservado e altivo, jamais a levara a nenhum evento público.Se fosse antigamente, ela certamente teria ficado eufórica ao receber essa notícia.Quando a empregada ouviu sobre o convite, também ficou feliz e disse a ela: "Dona Lúcia, parece que o senhor finalmente vai assumir seu relacionamento com a senhora!"Ninguém sabia que, desde que ela descobrira aquele segredo dele, vinha planejando o divórcio em segredo há muito tempo.Na verdade, Lúcia nem pretendia ir à atividade de pais e filhos.Mas não conseguia suportar a ideia de decepcionar o filho.Ela podia ignorar Virgílio, mas não conseguia ser indiferente ao próprio filho, Júlio Naia, que havia gerado com tanto sacrifício.Lúcia chegou à escola, tirou um bloco de notas da bolsa, escreveu uma linha com sua caligrafia graciosa e entregou educadamente ao porteiro.[Olá, sou a mãe do Júlio Naia, do 1º ano, vim participar da atividade de pais e filhos, poderia abrir o portão para mim?]Lúcia escolheu propositalmente uma camisa de chiffon franzida, prendeu o cabelo de maneira simples e, depois de muito tempo, voltou a usar os brincos de pérola que ganhara de Virgílio.Ela já era de feições serenas, e essa produção discreta a deixava ainda mais delicada e encantadora.Ela sabia, as crianças sempre desejam que suas mães estejam bonitas nos eventos da escola.O porteiro a olhou com sobrancelha erguida: "Você não sabe falar?"Lúcia sorriu e acenou com a cabeça.Na verdade, ela não era muda de nascença; desde aquele ano em que sofrera um grande trauma, desenvolvera afasia, e já havia se acostumado com esse tipo de pergunta.O porteiro pegou a lista de presença, deu uma olhada atenta, e então examinou Lúcia de cima a baixo.Uma mulher bonita, que pena ser muda.O tom do porteiro tornou-se menos amigável: "O pai e a mãe do Júlio já assinaram a entrada, como é que você pode se passar pela mãe dele?"Lúcia franziu a testa e rapidamente escreveu no papel: "Júlio é realmente meu filho, não há necessidade de fingir."Impaciente, o porteiro trouxe a lista e apontou para o nome de Júlio: "Olhe direito!"Lúcia viu os dois nomes na coluna de assinatura dos responsáveis e sentiu o coração apertar de repente.Ela já estava acostumada às ironias e piadas por causa de sua mudez.Mas hoje, o peito parecia sufocado, sem espaço para respirar.Não era por causa da ironia do porteiro.Era pelo nome que Virgílio, com sua caligrafia incisiva, deixara na lista de presença—Leonor Lima.Ele ousara chegar a esse ponto.Ela nunca havia visto Leonor, mas certa vez, ao arrumar o escritório, achou um papel caído num canto debaixo da mesa.Nele, o nome "Leonor" estava escrito repetidas vezes.O sexto sentido de mulher lhe deu a resposta.Leonor, então, tinha o sobrenome Lima.Quando o filho nasceu, Virgílio escolheu o nome Júlio para ele.Foi exatamente nesse dia que Lúcia decidiu firmemente que pediria o divórcio.Nos últimos meses, fora os assuntos relacionados a Júlio, ela dedicara o restante de suas energias a essa questão.Consultou vários escritórios de advocacia, mas ao saberem que Virgílio seria o réu, os advogados a dispensavam educadamente.No fim das contas, talvez fosse melhor assim: em seis meses, ela não existiria mais neste mundo, e seu casamento com Virgílio se dissolveria automaticamente.Nem precisaria mais contratar um advogado para o divórcio.Ao retornar para a mansão, sentiu uma dor intensa no abdômen.O médico dissera que o fígado não tinha terminações nervosas para dor; quando a dor aparecia, geralmente já era tarde demais.Lúcia pegou o celular, querendo pesquisar informações sobre a doença, mas ele havia desligado por falta de bateria.Ela conectou o carregador, e ao religar o aparelho, percebeu que o grupo dos pais estava lotado de mensagens.Viu mais de 99 notificações e abriu.Nos vídeos, os tornozelos de Júlio estavam amarrados com fitas vermelhas, cada uma presa ao tornozelo de Virgílio e de Leonor.Júlio sorria radiante.Virgílio, sempre tão sério, exibia um leve sorriso nos lábios bem delineados, e seus olhos escuros brilhavam com suavidade.Com sua postura alta e imponente, traços faciais marcantes, cabelos negros densos e olhar profundo, cada gesto seu transbordava uma dignidade arrebatadora.Ela já o vira muitas vezes triunfante nos negócios.Desde o primeiro olhar, apaixonara-se perdidamente por ele.Mas, afinal, quanto daquela ternura no olhar ele já dedicara a ela?Quanto a Leonor… De vestido claro e simples, pele alva como a neve, delicada e elegante, irradiava naturalmente o charme de uma autêntica dama da elite paulistana.No vídeo, por causa das fitas nos tornozelos, eles acabaram tropeçando e caindo juntos; Virgílio, sempre de expressão impassível, agora demonstrava preocupação e segurava firmemente a cintura de Leonor.Além desse vídeo, havia várias fotos tiradas espontaneamente.[Os pais do pequeno Júlio eram realmente um casal admirável.][De fato, o pai era charmoso, a mãe, linda. Não é de se estranhar que o pequeno Júlio também fosse tão bonito.][Essa família de três despertava inveja em qualquer um.]Ao folhear essas imagens, o coração dela já não se abalava mais.Só sentia pena daquela que um dia se entregara incondicionalmente; seus olhos ardiam, e pequenas lágrimas brilhavam em suas órbitas claras.A dor que vinha do abdômen fez com que o suor frio brotasse em sua testa.A empregada Bruna, ao perceber seu estado, aproximou-se e disse: "Senhora, a senhora está se sentindo mal? Quer que eu a leve ao hospital?"Lúcia balançou a cabeça, pegou o celular e digitou: "Não é nada, só preciso descansar um pouco.""Tem certeza?"Lúcia assentiu.Ela se levantou, serviu-se de um copo d’água e foi para o quarto. De sua bolsa tirou o remédio prescrito pelo médico para o tratamento conservador e, seguindo as instruções, tomou alguns comprimidos.Depois de colocar o copo sobre a mesa, levantou o olhar para a foto de casamento pendurada na parede.Era uma foto ampliada do registro civil.Ela queria tirar fotos de casamento para colocar no novo lar, mas Virgílio dissera não gostar de tirar fotos. Se ela quisesse uma, bastava ampliar a do registro.Durante os sete anos de casamento com Virgílio, aquela era a única foto dos dois juntos.Hoje, porém, ele tirara tantas fotos com Leonor.Não é que ele não gostasse de tirar fotos; talvez ele só não quisesse tirar com ela.Por sete anos, ela se enganara com essa mentira cheia de falhas.Hoje à noite, ela despedaçaria essa farsa e diria a Virgílio que queria o divórcio.Já passava das dez da noite quando o som do motor de um carro veio do lado de fora.Pouco depois, Bruna anunciou: "Senhora, o senhor e o menino chegaram."Os cílios de Lúcia tremeram levemente. Ela saiu do quarto, pronta para pedir o divórcio.Quanto ao câncer de fígado, não pretendia contar.Mesmo que dissesse, ele provavelmente não se importaria; não queria se humilhar mais.Virgílio entrou com duas malas, passos elegantes e firmes.O terno sob medida, impecavelmente ajustado ao corpo esguio, destacava ainda mais sua elegância e beleza, e o tecido cinza-prateado reluzia sobriamente.Virgílio ergueu levemente o queixo, o olhar profundo percorreu Lúcia devagar.Ela estava linda aquela noite; a camisa de tom dourado-claro valorizava sua pele alva. Durante as viagens a trabalho, ele frequentemente sentia falta dessa suavidade dela.A expressão sempre austera de Virgílio suavizou-se, e o olhar intenso, escuro como a noite, repousou sobre Lúcia. Sua voz soou elegante e serena: "Temos visita em casa. Por favor, prepare o quarto de hóspedes."Atrás dele, Leonor entrou lentamente.O pequeno Júlio, com a cabecinha encostada no pescoço de Leonor, dormia profundamente.Virgílio trouxe Leonor para casa sem nenhum constrangimento.Lúcia ficou paralisada.Sem que Lúcia se movesse, Bruna também não ousou tomar a iniciativa de arrumar nada.Leonor puxou suavemente a manga de Virgílio."Virgílio, você é casado, sua esposa está em casa. Não convém eu ficar aqui novamente. Só vim trazer o Júlio de volta, reservei um quarto no hotel."A testa de Lúcia se franziu; pelo visto, Leonor já morara ali antes.Falando isso, Leonor passou Júlio para Lúcia."Lúcia, venha pegar o Júlio."Lúcia ficou surpresa ao perceber que Leonor Lima sabia seu nome. Ela estendeu as mãos para segurar o menino.Júlio abriu os olhos sonolento, abraçando Leonor com carinho."irmã Leonor, você prometeu me contar uma história antes de dormir hoje.""Júlio, você já está em casa. Sua mãe pode contar a história para você. Eu preciso ir agora."A voz de Leonor era suave.Júlio a abraçou ainda mais forte."irmã Leonor, não vá, por favor? Minha mãe sempre coloca histórias no celular para eu ouvir. Quando falo com ela, parece que estou falando sozinho, não tem graça. Nem conto para meus colegas que ela é..."As palavras "muda" quase escaparam dos lábios de Júlio, mas ele se conteve. Sentia-se desconfortável em dizer que sua mãe era muda.Na escola, haveria momentos em que os pais seriam chamados para participar de atividades. Por isso, Júlio tentava se aproximar de Leonor: "Ainda bem que hoje você foi com meu pai na atividade de pais e filhos na escola. Meus colegas acham que você é minha mãe e ficaram com inveja."Quando era menor, Júlio não tinha noção dessas coisas e dependia muito de Lúcia. Com o tempo, começou a reclamar do fato de ela não falar.Só hoje Lúcia percebeu o quanto Júlio se importava com sua condição.É, o menino estava crescendo e começando a se preocupar com a própria imagem.Constrangida, Lúcia recolheu as mãos, que ficaram suspensas no ar.Em Libras, ela sinalizou com firmeza: "Quem é ela?"Lúcia achou engraçado ser questionada daquela forma, mas, estando à beira da morte, não queria mais fingir ignorância ou manter ambiguidades.Ao que parecia, Leonor interpretou a atitude de Lúcia como um acesso de ciúmes.Ela era afilhada reconhecida pela avó de Virgílio, e, ao longo dos anos, a Velha Senhora a tratara como se fosse sua própria filha.Leonor, por sua vez, já se considerava uma verdadeira integrante da Família Lima.Com um gesto contido, Leonor recolheu o sorriso dos lábios, olhou fixamente para Virgílio e disse em voz baixa: "Virgílio, você não contou para a Lúcia que eu sou sua tia?"Lúcia ficou surpresa.Afinal, aquele Virgílio sempre tão gentil e refinado, com educação impecável, também sabia se divertir às escondidas.Além disso, Leonor ainda demonstrava entender a linguagem de sinais.Virgílio respondeu a Leonor em tom baixo e preguiçoso: "Contar ou não tanto faz. Não se preocupe, fique esta noite aqui."O coração de Lúcia afundou repentinamente.Após dizer isso, Virgílio pediu para Bruna preparar um quarto.O ambiente ficou tenso.Leonor repreendeu Virgílio suavemente: "Virgílio, Lúcia é sua esposa, como pode falar com ela desse jeito?"A aura sombria de Virgílio diminuiu consideravelmente.De fato, ele acatou as palavras de Leonor.Júlio também mostrou desagrado: "Mamãe, a irmã Leonor é tia do papai, eu deveria chamá-la de tia-avó, mas ela é tão jovem que fico sem jeito de chamá-la assim, por isso a chamo de irmã. Ela veio nos visitar, pedir para você preparar um quarto para ela é algo tão difícil assim?"O coração de Lúcia quase se despedaçou.Aquele era o filho que ela carregara por nove meses e criou com todo cuidado.Naquela tarde, ao retornar para casa, Lúcia refletiu sobre o que aconteceria com Júlio caso ela morresse.Ela se dedicara completamente a planejar o futuro do filho.No entanto, bastou Júlio encontrar Leonor uma vez para passar a defendê-la em tudo.Talvez tudo o que fizera tivesse sido em vão.Pai e filho já não precisavam mais dela.Percebendo o clima pesado, Leonor entregou Júlio nos braços de Virgílio e, com voz gentil, disse: "Virgílio, é melhor eu ir para um hotel. Amanhã volto para ver o Júlio."Leonor pegou sua mala e saiu sem olhar para trás.Júlio imediatamente começou a chorar: "Irmã Leonor, não vá embora, por favor!"Virgílio lançou um olhar de lado para Lúcia, o olhar escuro e complexo: "Lúcia, hoje você foi muito inconveniente."Ao dizer isso, ele colocou Júlio nos braços de Lúcia, que, por reflexo, segurou o filho.Virgílio saiu logo em seguida.Em sete anos de casamento, Lúcia nunca o vira tão inquieto.Ainda atordoada, Lúcia ouviu Júlio se debater: "Me solta! Me solta!"Ela não teve escolha a não ser soltá-lo.Júlio, porém, a empurrou: "Mamãe é má! Mamãe fez a irmã Leonor ir embora!"Dito isso, Júlio correu zangado para seu quarto.O coração de Lúcia se sentiu dilacerado.Bruna testemunhou a cena e quis consolar Lúcia, mas não encontrou palavras.Sem expressão, Lúcia foi para o quarto principal.Sem chance de se explicar? Se era o destino, ela partiria em silêncio.Guardou o remédio que o médico receitara naquele dia em sua bolsa e, ao abri-la, viu o cartão bancário guardado no compartimento das cartas.Desde que se casara com Virgílio, sempre que havia visitas em casa ou eventos públicos, ele pedia que ela se retirasse e transferia dois milhões para que ela fosse fazer compras.Ao todo, aquele cartão já havia recebido sessenta e seis milhões.Porém, mais da metade já havia sido gasta.Lúcia nunca entendeu por que Virgílio, que insistira em casar com ela, depois a desprezava por ser muda.Muitas vezes quis perguntar, mas nunca teve coragem.Não conseguia se desapegar dele, nem do filho.Todos os dias cuidava pessoalmente de Júlio e mantinha a casa impecável.Durante sete anos, girou em torno de pai e filho.Raramente pensava em si mesma.Agora, estava com câncer.Restavam-lhe apenas seis meses de vida.Todo o esforço passado fora em vão.O toque repentino do celular a trouxe de volta à realidade.Era uma ligação do Velho Sr. Naia.Ela não falava, e o Velho Sr. Naia raramente a procurava. Durante os sete anos de casamento, ele sempre fora mais cordial com ela do que os demais membros da Família Naia.Ela atendeu à ligação."Virgílio está aí?"Logo após perguntar, o Velho Sr. Naia se lembrou de que Lúcia não podia responder e disse: "Se ele estiver aí, bata no celular."Lúcia não bateu.Então, o Velho Sr. Naia falou em tom grave: "Você está casada com Virgílio há sete anos, deu a ele um filho, Júlio, mas nem assim conseguiu prender o coração dele?"Os dedos de Lúcia ficaram dormentes.Todos sabiam que o título de Sra. Naia era apenas uma fachada.Sem resposta, restou apenas o silêncio do outro lado da linha."Mesmo sem falar, você conseguiu que Virgílio quisesse se casar com você e lhe desse um filho, então alguma qualidade você deve ter..."O Velho Sr. Naia fez uma pausa e continuou: "Se Virgílio mudar de ideia, com sua condição, certamente perderá Júlio. Eu não me importaria em encontrar uma mãe que fale para Júlio, mas madrasta nunca será igual à mãe de sangue. Pense bem."Após isso, o Velho Sr. Naia desligou.O pouco de cordialidade que ele lhe reservava vinha da esperança de que ela mantivesse Virgílio ao seu lado.A mensagem era clara: se ela não conseguisse, o Velho Senhor logo trocaria a Sra. Naia por Leonor.Famílias tradicionais como os Naia não toleravam escândalos imorais.No fim, era o Velho Sr. Naia quem mais se preocupava.Somente ela não sabia do envolvimento entre Virgílio e Leonor.Tudo isso lhe deu uma resposta: Virgílio nunca a amaria.Provavelmente, mesmo que não pedisse o divórcio, Virgílio logo o faria.Estava na hora de partir.Devolver aquele lugar que nunca lhe pertenceu.Lúcia colocou a bolsa no ombro, pegou o envelope de papel pardo cheio dos exames médicos e saiu do quarto com o olhar vazio.Sem perceber, deixou cair o diagnóstico que sentenciava o fim de sua vida, ficando abandonado junto à cama.Capítulo 3Ao fechar a porta do carro, todos os ruídos desapareceram.Lúcia Guedes fixou o olhar no laudo de diagnóstico de câncer de fígado; seus olhos amendoados avermelharam, e o papel em sua mão ficou marcado por vários vincos que ela apertou.O médico lhe dissera que ela havia perdido o melhor período para a cirurgia e que lhe restavam apenas seis meses de vida.Hoje havia uma atividade de integração entre pais e filhos na escola, e Virgílio Naia, de forma inédita, a notificara, convidando-a para participar junto com ele.Já faziam sete anos desde que ele passara de uma figura inatingível da alta sociedade, desde a juventude, a tornar-se seu marido até o dia de hoje.Durante esses sete anos, ele, sempre reservado e altivo, jamais a levara a nenhum evento público.Se fosse antigamente, ela certamente teria ficado eufórica ao receber essa notícia.Quando a empregada ouviu sobre o convite, também ficou feliz e disse a ela: "Dona Lúcia, parece que o senhor finalmente vai assumir seu relacionamento com a senhora!"Ninguém sabia que, desde que ela descobrira aquele segredo dele, vinha planejando o divórcio em segredo há muito tempo.Na verdade, Lúcia nem pretendia ir à atividade de pais e filhos.Mas não conseguia suportar a ideia de decepcionar o filho.Ela podia ignorar Virgílio, mas não conseguia ser indiferente ao próprio filho, Júlio Naia, que havia gerado com tanto sacrifício.Lúcia chegou à escola, tirou um bloco de notas da bolsa, escreveu uma linha com sua caligrafia graciosa e entregou educadamente ao porteiro.[Olá, sou a mãe do Júlio Naia, do 1º ano, vim participar da atividade de pais e filhos, poderia abrir o portão para mim?]Lúcia escolheu propositalmente uma camisa de chiffon franzida, prendeu o cabelo de maneira simples e, depois de muito tempo, voltou a usar os brincos de pérola que ganhara de Virgílio.Ela já era de feições serenas, e essa produção discreta a deixava ainda mais delicada e encantadora.Ela sabia, as crianças sempre desejam que suas mães estejam bonitas nos eventos da escola.O porteiro a olhou com sobrancelha erguida: "Você não sabe falar?"Lúcia sorriu e acenou com a cabeça.Na verdade, ela não era muda de nascença; desde aquele ano em que sofrera um grande trauma, desenvolvera afasia, e já havia se acostumado com esse tipo de pergunta.O porteiro pegou a lista de presença, deu uma olhada atenta, e então examinou Lúcia de cima a baixo.Uma mulher bonita, que pena ser muda.O tom do porteiro tornou-se menos amigável: "O pai e a mãe do Júlio já assinaram a entrada, como é que você pode se passar pela mãe dele?"Lúcia franziu a testa e rapidamente escreveu no papel: "Júlio é realmente meu filho, não há necessidade de fingir."Impaciente, o porteiro trouxe a lista e apontou para o nome de Júlio: "Olhe direito!"Lúcia viu os dois nomes na coluna de assinatura dos responsáveis e sentiu o coração apertar de repente.Ela já estava acostumada às ironias e piadas por causa de sua mudez.Mas hoje, o peito parecia sufocado, sem espaço para respirar.Não era por causa da ironia do porteiro.Era pelo nome que Virgílio, com sua caligrafia incisiva, deixara na lista de presença—Leonor Lima.Ele ousara chegar a esse ponto.Ela nunca havia visto Leonor, mas certa vez, ao arrumar o escritório, achou um papel caído num canto debaixo da mesa.Nele, o nome "Leonor" estava escrito repetidas vezes.O sexto sentido de mulher lhe deu a resposta.Leonor, então, tinha o sobrenome Lima.Quando o filho nasceu, Virgílio escolheu o nome Júlio para ele.Foi exatamente nesse dia que Lúcia decidiu firmemente que pediria o divórcio.Nos últimos meses, fora os assuntos relacionados a Júlio, ela dedicara o restante de suas energias a essa questão.Consultou vários escritórios de advocacia, mas ao saberem que Virgílio seria o réu, os advogados a dispensavam educadamente.No fim das contas, talvez fosse melhor assim: em seis meses, ela não existiria mais neste mundo, e seu casamento com Virgílio se dissolveria automaticamente.Nem precisaria mais contratar um advogado para o divórcio.Ao retornar para a mansão, sentiu uma dor intensa no abdômen.O médico dissera que o fígado não tinha terminações nervosas para dor; quando a dor aparecia, geralmente já era tarde demais.Lúcia pegou o celular, querendo pesquisar informações sobre a doença, mas ele havia desligado por falta de bateria.Ela conectou o carregador, e ao religar o aparelho, percebeu que o grupo dos pais estava lotado de mensagens.Viu mais de 99 notificações e abriu.Nos vídeos, os tornozelos de Júlio estavam amarrados com fitas vermelhas, cada uma presa ao tornozelo de Virgílio e de Leonor.Júlio sorria radiante.Virgílio, sempre tão sério, exibia um leve sorriso nos lábios bem delineados, e seus olhos escuros brilhavam com suavidade.Com sua postura alta e imponente, traços faciais marcantes, cabelos negros densos e olhar profundo, cada gesto seu transbordava uma dignidade arrebatadora.Ela já o vira muitas vezes triunfante nos negócios.Desde o primeiro olhar, apaixonara-se perdidamente por ele.Mas, afinal, quanto daquela ternura no olhar ele já dedicara a ela?Quanto a Leonor… De vestido claro e simples, pele alva como a neve, delicada e elegante, irradiava naturalmente o charme de uma autêntica dama da elite paulistana.No vídeo, por causa das fitas nos tornozelos, eles acabaram tropeçando e caindo juntos; Virgílio, sempre de expressão impassível, agora demonstrava preocupação e segurava firmemente a cintura de Leonor.Além desse vídeo, havia várias fotos tiradas espontaneamente.[Os pais do pequeno Júlio eram realmente um casal admirável.][De fato, o pai era charmoso, a mãe, linda. Não é de se estranhar que o pequeno Júlio também fosse tão bonito.][Essa família de três despertava inveja em qualquer um.]Ao folhear essas imagens, o coração dela já não se abalava mais.Só sentia pena daquela que um dia se entregara incondicionalmente; seus olhos ardiam, e pequenas lágrimas brilhavam em suas órbitas claras.A dor que vinha do abdômen fez com que o suor frio brotasse em sua testa.A empregada Bruna, ao perceber seu estado, aproximou-se e disse: "Senhora, a senhora está se sentindo mal? Quer que eu a leve ao hospital?"Lúcia balançou a cabeça, pegou o celular e digitou: "Não é nada, só preciso descansar um pouco.""Tem certeza?"Lúcia assentiu.Ela se levantou, serviu-se de um copo d’água e foi para o quarto. De sua bolsa tirou o remédio prescrito pelo médico para o tratamento conservador e, seguindo as instruções, tomou alguns comprimidos.Depois de colocar o copo sobre a mesa, levantou o olhar para a foto de casamento pendurada na parede.Era uma foto ampliada do registro civil.Ela queria tirar fotos de casamento para colocar no novo lar, mas Virgílio dissera não gostar de tirar fotos. Se ela quisesse uma, bastava ampliar a do registro.Durante os sete anos de casamento com Virgílio, aquela era a única foto dos dois juntos.Hoje, porém, ele tirara tantas fotos com Leonor.Não é que ele não gostasse de tirar fotos; talvez ele só não quisesse tirar com ela.Por sete anos, ela se enganara com essa mentira cheia de falhas.Hoje à noite, ela despedaçaria essa farsa e diria a Virgílio que queria o divórcio.Já passava das dez da noite quando o som do motor de um carro veio do lado de fora.Pouco depois, Bruna anunciou: "Senhora, o senhor e o menino chegaram."Os cílios de Lúcia tremeram levemente. Ela saiu do quarto, pronta para pedir o divórcio.Quanto ao câncer de fígado, não pretendia contar.Mesmo que dissesse, ele provavelmente não se importaria; não queria se humilhar mais.Virgílio entrou com duas malas, passos elegantes e firmes.O terno sob medida, impecavelmente ajustado ao corpo esguio, destacava ainda mais sua elegância e beleza, e o tecido cinza-prateado reluzia sobriamente.Virgílio ergueu levemente o queixo, o olhar profundo percorreu Lúcia devagar.Ela estava linda aquela noite; a camisa de tom dourado-claro valorizava sua pele alva. Durante as viagens a trabalho, ele frequentemente sentia falta dessa suavidade dela.A expressão sempre austera de Virgílio suavizou-se, e o olhar intenso, escuro como a noite, repousou sobre Lúcia. Sua voz soou elegante e serena: "Temos visita em casa. Por favor, prepare o quarto de hóspedes."Atrás dele, Leonor entrou lentamente.O pequeno Júlio, com a cabecinha encostada no pescoço de Leonor, dormia profundamente.Virgílio trouxe Leonor para casa sem nenhum constrangimento.Lúcia ficou paralisada.Sem que Lúcia se movesse, Bruna também não ousou tomar a iniciativa de arrumar nada.Leonor puxou suavemente a manga de Virgílio."Virgílio, você é casado, sua esposa está em casa. Não convém eu ficar aqui novamente. Só vim trazer o Júlio de volta, reservei um quarto no hotel."A testa de Lúcia se franziu; pelo visto, Leonor já morara ali antes.Falando isso, Leonor passou Júlio para Lúcia."Lúcia, venha pegar o Júlio."Lúcia ficou surpresa ao perceber que Leonor Lima sabia seu nome. Ela estendeu as mãos para segurar o menino.Júlio abriu os olhos sonolento, abraçando Leonor com carinho."irmã Leonor, você prometeu me contar uma história antes de dormir hoje.""Júlio, você já está em casa. Sua mãe pode contar a história para você. Eu preciso ir agora."A voz de Leonor era suave.Júlio a abraçou ainda mais forte."irmã Leonor, não vá, por favor? Minha mãe sempre coloca histórias no celular para eu ouvir. Quando falo com ela, parece que estou falando sozinho, não tem graça. Nem conto para meus colegas que ela é..."As palavras "muda" quase escaparam dos lábios de Júlio, mas ele se conteve. Sentia-se desconfortável em dizer que sua mãe era muda.Na escola, haveria momentos em que os pais seriam chamados para participar de atividades. Por isso, Júlio tentava se aproximar de Leonor: "Ainda bem que hoje você foi com meu pai na atividade de pais e filhos na escola. Meus colegas acham que você é minha mãe e ficaram com inveja."Quando era menor, Júlio não tinha noção dessas coisas e dependia muito de Lúcia. Com o tempo, começou a reclamar do fato de ela não falar.Só hoje Lúcia percebeu o quanto Júlio se importava com sua condição.É, o menino estava crescendo e começando a se preocupar com a própria imagem.Constrangida, Lúcia recolheu as mãos, que ficaram suspensas no ar.Em Libras, ela sinalizou com firmeza: "Quem é ela?"Lúcia achou engraçado ser questionada daquela forma, mas, estando à beira da morte, não queria mais fingir ignorância ou manter ambiguidades.Ao que parecia, Leonor interpretou a atitude de Lúcia como um acesso de ciúmes.Ela era afilhada reconhecida pela avó de Virgílio, e, ao longo dos anos, a Velha Senhora a tratara como se fosse sua própria filha.Leonor, por sua vez, já se considerava uma verdadeira integrante da Família Lima.Com um gesto contido, Leonor recolheu o sorriso dos lábios, olhou fixamente para Virgílio e disse em voz baixa: "Virgílio, você não contou para a Lúcia que eu sou sua tia?"Lúcia ficou surpresa.Afinal, aquele Virgílio sempre tão gentil e refinado, com educação impecável, também sabia se divertir às escondidas.Além disso, Leonor ainda demonstrava entender a linguagem de sinais.Virgílio respondeu a Leonor em tom baixo e preguiçoso: "Contar ou não tanto faz. Não se preocupe, fique esta noite aqui."O coração de Lúcia afundou repentinamente.Após dizer isso, Virgílio pediu para Bruna preparar um quarto.O ambiente ficou tenso.Leonor repreendeu Virgílio suavemente: "Virgílio, Lúcia é sua esposa, como pode falar com ela desse jeito?"A aura sombria de Virgílio diminuiu consideravelmente.De fato, ele acatou as palavras de Leonor.Júlio também mostrou desagrado: "Mamãe, a irmã Leonor é tia do papai, eu deveria chamá-la de tia-avó, mas ela é tão jovem que fico sem jeito de chamá-la assim, por isso a chamo de irmã. Ela veio nos visitar, pedir para você preparar um quarto para ela é algo tão difícil assim?"O coração de Lúcia quase se despedaçou.Aquele era o filho que ela carregara por nove meses e criou com todo cuidado.Naquela tarde, ao retornar para casa, Lúcia refletiu sobre o que aconteceria com Júlio caso ela morresse.Ela se dedicara completamente a planejar o futuro do filho.No entanto, bastou Júlio encontrar Leonor uma vez para passar a defendê-la em tudo.Talvez tudo o que fizera tivesse sido em vão.Pai e filho já não precisavam mais dela.Percebendo o clima pesado, Leonor entregou Júlio nos braços de Virgílio e, com voz gentil, disse: "Virgílio, é melhor eu ir para um hotel. Amanhã volto para ver o Júlio."Leonor pegou sua mala e saiu sem olhar para trás.Júlio imediatamente começou a chorar: "Irmã Leonor, não vá embora, por favor!"Virgílio lançou um olhar de lado para Lúcia, o olhar escuro e complexo: "Lúcia, hoje você foi muito inconveniente."Ao dizer isso, ele colocou Júlio nos braços de Lúcia, que, por reflexo, segurou o filho.Virgílio saiu logo em seguida.Em sete anos de casamento, Lúcia nunca o vira tão inquieto.Ainda atordoada, Lúcia ouviu Júlio se debater: "Me solta! Me solta!"Ela não teve escolha a não ser soltá-lo.Júlio, porém, a empurrou: "Mamãe é má! Mamãe fez a irmã Leonor ir embora!"Dito isso, Júlio correu zangado para seu quarto.O coração de Lúcia se sentiu dilacerado.Bruna testemunhou a cena e quis consolar Lúcia, mas não encontrou palavras.Sem expressão, Lúcia foi para o quarto principal.Sem chance de se explicar? Se era o destino, ela partiria em silêncio.Guardou o remédio que o médico receitara naquele dia em sua bolsa e, ao abri-la, viu o cartão bancário guardado no compartimento das cartas.Desde que se casara com Virgílio, sempre que havia visitas em casa ou eventos públicos, ele pedia que ela se retirasse e transferia dois milhões para que ela fosse fazer compras.Ao todo, aquele cartão já havia recebido sessenta e seis milhões.Porém, mais da metade já havia sido gasta.Lúcia nunca entendeu por que Virgílio, que insistira em casar com ela, depois a desprezava por ser muda.Muitas vezes quis perguntar, mas nunca teve coragem.Não conseguia se desapegar dele, nem do filho.Todos os dias cuidava pessoalmente de Júlio e mantinha a casa impecável.Durante sete anos, girou em torno de pai e filho.Raramente pensava em si mesma.Agora, estava com câncer.Restavam-lhe apenas seis meses de vida.Todo o esforço passado fora em vão.O toque repentino do celular a trouxe de volta à realidade.Era uma ligação do Velho Sr. Naia.Ela não falava, e o Velho Sr. Naia raramente a procurava. Durante os sete anos de casamento, ele sempre fora mais cordial com ela do que os demais membros da Família Naia.Ela atendeu à ligação."Virgílio está aí?"Logo após perguntar, o Velho Sr. Naia se lembrou de que Lúcia não podia responder e disse: "Se ele estiver aí, bata no celular."Lúcia não bateu.Então, o Velho Sr. Naia falou em tom grave: "Você está casada com Virgílio há sete anos, deu a ele um filho, Júlio, mas nem assim conseguiu prender o coração dele?"Os dedos de Lúcia ficaram dormentes.Todos sabiam que o título de Sra. Naia era apenas uma fachada.Sem resposta, restou apenas o silêncio do outro lado da linha."Mesmo sem falar, você conseguiu que Virgílio quisesse se casar com você e lhe desse um filho, então alguma qualidade você deve ter..."O Velho Sr. Naia fez uma pausa e continuou: "Se Virgílio mudar de ideia, com sua condição, certamente perderá Júlio. Eu não me importaria em encontrar uma mãe que fale para Júlio, mas madrasta nunca será igual à mãe de sangue. Pense bem."Após isso, o Velho Sr. Naia desligou.O pouco de cordialidade que ele lhe reservava vinha da esperança de que ela mantivesse Virgílio ao seu lado.A mensagem era clara: se ela não conseguisse, o Velho Senhor logo trocaria a Sra. Naia por Leonor.Famílias tradicionais como os Naia não toleravam escândalos imorais.No fim, era o Velho Sr. Naia quem mais se preocupava.Somente ela não sabia do envolvimento entre Virgílio e Leonor.Tudo isso lhe deu uma resposta: Virgílio nunca a amaria.Provavelmente, mesmo que não pedisse o divórcio, Virgílio logo o faria.Estava na hora de partir.Devolver aquele lugar que nunca lhe pertenceu.Lúcia colocou a bolsa no ombro, pegou o envelope de papel pardo cheio dos exames médicos e saiu do quarto com o olhar vazio.Sem perceber, deixou cair o diagnóstico que sentenciava o fim de sua vida, ficando abandonado junto à cama.