Capítulo 1— Lucas Pereira, você tem que se responsabilizar pela minha irmã!No entardecer do início do verão, o céu estava pintado de laranja e vermelho, com nuvens que pareciam pinceladas intensas de tinta, entrelaçando-se livremente no horizonte.Lucas estava ao lado de seu Maybach, o olhar frio e austero passando por Márcio Nóbrega e, por fim, repousando sobre a moça que segurava um guarda-sol atrás dele.A moça usava um simples rabo de cavalo e um vestido longo branco. Seus olhos amendoados, vivos e brilhantes como ônix polido, davam-lhe um ar encantador e radiante.Ela acenou alegremente com a mão.Lucas, que nunca foi de se impressionar por aparências, mesmo confuso, manteve a habitual elegância e discrição. Sua voz, clara e serena, carregava uma estranha tranquilidade:— Eu sequer toquei em um fio de cabelo dela. De que devo me responsabilizar?— Eu quebrei! Nossa família quebrou! E foi tudo por sua causa! Faça as contas de quantos projetos você tirou de mim!Márcio esfregou os cabelos com força, fazendo os fios curtos ficarem arrepiados.— Você sabe, nossos pais já se foram. Só restou eu para cuidar de tudo. Eu fracassei, perdi a empresa, tentei empreender e também fracassei. Agora não temos para onde ir. Eu até posso morar no porão, mas minha irmã foi criada com todo o mimo. Ela não aguenta isso. Deixe ela ficar com você! Assim que eu me reerguer, venho buscá-la!Lucas arqueou levemente as sobrancelhas, respondendo com calma:— Faliram?— Não se faça de desentendido! Saiu até no jornal! A casa da família foi confiscada! Você conhece o porão em Capital, não conhece? Para ir ao banheiro, tem que andar mais de cem metros até o sanitário público, e nem tem onde tomar banho! Como uma moça pode viver nessas condições?— Lucas, por favor, estou te implorando!— Quando eu tiver dinheiro, te pago tudo que gastar com ela, até com juros, pode ser?Márcio, com uma expressão desesperada, agarrou o braço de Lucas e começou a chorar:— Irmão! Chamo você de irmão, mas se acolher minha irmã, eu te chamo até de pai!— Não é necessário tanto. — Lucas puxou o braço e se afastou um pouco.Márcio não desistiu e imediatamente agarrou a perna de Lucas.— Eu me ajoelho para você!— Eu fui um tolo, me deixei enganar, mas minha irmã não tem culpa!— Você tem coragem de vê-la na rua? Ela é tão doce, pode acontecer algo ruim… Se algo acontecer com ela, eu não aguento!Lucas começou a cerrar os punhos, as pernas presas pelos braços de Márcio.Respirou fundo.— Solte.— Não solto, só se você prometer receber minha irmã.Lucas franziu o cenho.— Depois de tantos anos, só hoje percebi que você é um verdadeiro folgado.Márcio estava decidido a fazer Lucas cuidar da irmã e não largou sua perna.Sabia ser humilde quando precisava.Se ainda tivesse algum dinheiro ou lugar para ficar, jamais pediria esse favor a Lucas.Mas agora não tinha saída.Estava mais liso que pau de sebo!O pilantra que o enganou sumiu com o dinheiro e nunca mais foi visto.Seus funcionários já tinham sido presos, mas não adiantava nada!Márcio confiava em deixar a irmã com Lucas porque o conhecia há muitos anos e sabia que ele não era de se envolver com mulheres.Sempre se apresentava como alguém reservado, íntegro, de princípios.Márcio até desconfiava que Lucas gostasse de homens.Mas nunca teve provas.Além disso, a Família Pereira era conhecida por sua disciplina rígida, e Lucas jamais faria mal à irmã.— Irmão, então vamos embora. Eu fico com você no porão, não tem problema.Carolina Nóbrega falou com voz suave, aproximando-se com o guarda-sol e puxando Márcio. Suas sobrancelhas delicadas estavam franzidas.— Irmão, levante-se.— Mana, eu não vou embora, eu tenho que arrumar um lugar pra você ficar. O verão em São Paulo é muito quente, os porões são sujos, bagunçados, fedidos, sem ar-condicionado, cheios de insetos e ratos. Como você consegue aguentar isso?!Isso era chantagem moral?Só é amarrado pela moral quem tem moral, e o Lucas tinha.— Chega. — Lucas tentou mexer o pé esquerdo, mas não conseguiu tirar, o olhar ficou mais sombrio. — Me solta, eu deixo ela ficar.Márcio enxugou as lágrimas, levantou-se com um ar envergonhado.— Lucas, você é uma pessoa maravilhosa! Vai ficar rico, cada vez mais próspero!Márcio, apressado, desceu as malas, tateou o bolso, tirou as últimas notas de real e entregou para Carolina.— Mana, aguenta firme. Quando o mano der a volta por cima, vem te buscar!Antes de sair, Márcio deu um tapinha no capô do Corolla velho.— Da próxima vez, não saia com esse carro não, filho. Entra água, vai que minha irmã se molha!Lucas deu um leve sorriso de canto de boca. As exigências dele eram até altas.— Mana! O irmão vai dar um jeito de ganhar dinheiro!— Adeus!— Buá, buá...Márcio saiu chorando, entrando na Kombi velha que ele comprou por cinco mil reais, barulhenta em tudo, menos na buzina.Carolina amassou o dinheiro na mão e jogou pela janela emperrada.O irmão precisava mais do dinheiro do que ela.Carolina fechou a sombrinha, revelando o rosto pálido e bonito, com um sorriso doce.— Irmão Pereira, obrigada por me acolher.O irmão dissera que, se fosse morar na casa dos outros, deveria ser sempre gentil.Lucas parecia frio, mas, na verdade, era um verdadeiro cavalheiro.Desde que ela se comportasse, não seria expulsa.Assim, não precisaria acabar morando com o irmão naquele porão úmido, sem banheiro.Lucas já tinha visto Carolina algumas vezes antes, sempre ao lado de Márcio, parecia um coelhinho: pura, bondosa, obediente e delicada.Mas ele nunca imaginou que um dia Carolina apareceria para morar ali.O coração de Márcio era grande demais, deixando uma irmã tão fofa na casa de um homem.O rosto austero de Lucas permaneceu inalterado, respondeu friamente:— Não precisa agradecer.— Ayrton Alencar, Guilherme Alencar, levem as malas da Srta. Nóbrega para o quarto mais ao sul do segundo andar.— Sim, senhor!Um par de gêmeos desceu do carro.Eles estavam ali o tempo todo???Os dois viram toda a cena constrangedora do irmão???— Srta. Nóbrega, seja bem-vinda!— A mansão do chefe sempre foi fria demais. Agora, com uma moça tão fofa, vai ficar bem mais animado!Guilherme, carregando uma mala em cada mão, trocou um olhar cúmplice com o irmão travesso.Quem sabe não ganhariam uma cunhada?A menina doce e delicada versus o chefão de cara fechada.Que casal!Perfeito!O casal mais fofo acabou de se formar!— Fiquem quietos.Lucas, com apenas duas palavras frias, assustou até Carolina.Tomara que o quarto de Lucas não seja no segundo andar.Ela não queria ficar no mesmo andar que ele.Assim, teria menos chance de encontrá-lo por acaso.Ela tinha medo dele, parecia tão sério.Só queria ser invisível, ficar na casa dos Pereira com comida e abrigo, esperando o irmão dar a volta por cima.Papai, mamãe, se ainda estiverem vivos, deem uma surra no irmão.Ele vacilou demais!Como conseguiu falir a empresa da família?Ainda a fez passar de senhorita a pobre coitada sem lar.O único avô vivo ficou tão chateado que voltou para o sítio no interior.Ela até duvidava que o avô tivesse saúde para cuidar do sítio.Carolina subiu para o quarto no segundo andar. As empregadas ainda estavam arrumando o ambiente, trocando o frio e impessoal conjunto branco por um jogo de cama rosa com babados e detalhes entalhados.Sua mala já tinha sido aberta e as roupas que trouxera estavam sendo penduradas no guarda-roupa pelas funcionárias.Acostumada, desde pequena, a ser servida em casa, a Senhorita hesitou por um segundo, mas decidiu deixar que profissionais cuidassem do que sabiam fazer.Ela ficou atrás da porta, espiando discretamente para fora.Viu apenas a silhueta esguia e imponente de Lucas entrando no quarto no outro extremo do corredor.No mesmo andar!!!Tudo bem, ainda havia o corredor separando-os.Estar hospedada ali já era uma grande vantagem.Mesmo o porão daquela mansão era melhor do que o que havia lá fora.Agora, o mais importante era ganhar dinheiro, apoiar o irmão para reerguer-se.— Srta. Nóbrega, por enquanto fique neste quarto. Os outros móveis precisam ser feitos sob medida. Quando chegarem, trocaremos para a senhorita.— Obrigada, Marília.Srta. Nóbrega é tão fofa!Quando sorria, dois pequenos covinhas apareciam em seu rosto.Marília olhava para Carolina como para sua própria filha, o rosto cheio de ternura e bondade.— O Senhor pediu para avisar: se precisar de qualquer coisa, é só falar comigo, Marília.Carolina pegou o celular.— Preciso da senha do Wi-Fi.— Exceto no escritório, a senha da casa toda é o nome do Senhor, data de nascimento, X maiúsculo, yh minúsculo e 0829%.Vinte e nove de agosto!Lucas é virginiano!— Obrigada.Quando as empregadas saíram, Carolina fechou a porta e conectou-se ao Wi-Fi.Finalmente podia acessar a internet.Sem dinheiro, nem ousava usar o pacote de dados.Sentou-se no sofá e, ao abrir vários grupos, percebeu que tinha sido expulsa deles.Tão realista!Antes a chamavam de princesinha, agora nem merecia estar no mesmo grupo.Em alguns grupos em que ainda estava, Carolina viu que falavam sobre a falência da Família Nóbrega, zombando do irmão, dizendo que sem os pais, Márcio não era nada.Era doloroso de ver.Antes de a família falir, o irmão sempre cuidou muito bem dela.Ele queria ganhar mais dinheiro para garantir que nada lhe faltasse no futuro.Ele apenas cometera um erro.Quem nunca comete erros?Carolina pensou nisso e seus olhos se encheram de lágrimas.Apertou o coelhinho branco de pelúcia no sofá, chorou baixinho, as lágrimas caíram em grandes gotas, molhando o rosto claro, deixando os olhos vermelhos; as orelhas do coelho ficaram amassadas em suas mãos, solitário e frágil.O entardecer alaranjado se despediu, dando lugar à noite.Lucas sentou-se à mesa de jantar preta. Havia um prato a mais naquela noite, dois pratos extras foram servidos, mas Carolina não apareceu.Marília ficou de pé ao lado.— Senhor, quer que eu suba para ver como ela está?O olhar frio de Lucas não demonstrou qualquer emoção.— Não seria apropriado eu ir.Marília saiu.Alguns minutos depois, Carolina entrou devagar na sala de jantar, os cabelos bagunçados, olhos inchados e vermelhos.Sua voz soou abafada, ainda marcada pelo choro, ao cumprimentar:— irmão Pereira~Ela tinha chorado no quarto?Que droga.Lucas não sabia consolar ninguém. Mil pensamentos passaram por sua cabeça, até que disse:— Quer comer um doce?— Hã?Carolina levantou os olhos úmidos e confusos, o olhar perdido, as extremidades dos olhos tingidas de um tom rosado, o nariz levemente avermelhado, parecendo um coelhinho frágil e indefeso.O coração de Lucas vacilou por um instante. Aquele olhar doce e inseguro quase perfurou seu peito.Ele explicou:— Dizem que comer doce ajuda a melhorar o humor.— Não quero, não estou com apetite.Carolina encarou a comida na mesa.— Não sei o que meu irmão está jantando hoje. Irmão Pereira, o senhor poderia acolher meu irmão também?— Ele não virá.Se Márcio quisesse ficar, não teria saído esta tarde.— Ah.Ela tentou.Carolina comeu algumas colheradas de arroz misturado com lágrimas, mas logo desistiu.— Estou satisfeita.Capítulo 2— Lucas Pereira, você tem que se responsabilizar pela minha irmã!No entardecer do início do verão, o céu estava pintado de laranja e vermelho, com nuvens que pareciam pinceladas intensas de tinta, entrelaçando-se livremente no horizonte.Lucas estava ao lado de seu Maybach, o olhar frio e austero passando por Márcio Nóbrega e, por fim, repousando sobre a moça que segurava um guarda-sol atrás dele.A moça usava um simples rabo de cavalo e um vestido longo branco. Seus olhos amendoados, vivos e brilhantes como ônix polido, davam-lhe um ar encantador e radiante.Ela acenou alegremente com a mão.Lucas, que nunca foi de se impressionar por aparências, mesmo confuso, manteve a habitual elegância e discrição. Sua voz, clara e serena, carregava uma estranha tranquilidade:— Eu sequer toquei em um fio de cabelo dela. De que devo me responsabilizar?— Eu quebrei! Nossa família quebrou! E foi tudo por sua causa! Faça as contas de quantos projetos você tirou de mim!Márcio esfregou os cabelos com força, fazendo os fios curtos ficarem arrepiados.— Você sabe, nossos pais já se foram. Só restou eu para cuidar de tudo. Eu fracassei, perdi a empresa, tentei empreender e também fracassei. Agora não temos para onde ir. Eu até posso morar no porão, mas minha irmã foi criada com todo o mimo. Ela não aguenta isso. Deixe ela ficar com você! Assim que eu me reerguer, venho buscá-la!Lucas arqueou levemente as sobrancelhas, respondendo com calma:— Faliram?— Não se faça de desentendido! Saiu até no jornal! A casa da família foi confiscada! Você conhece o porão em Capital, não conhece? Para ir ao banheiro, tem que andar mais de cem metros até o sanitário público, e nem tem onde tomar banho! Como uma moça pode viver nessas condições?— Lucas, por favor, estou te implorando!— Quando eu tiver dinheiro, te pago tudo que gastar com ela, até com juros, pode ser?Márcio, com uma expressão desesperada, agarrou o braço de Lucas e começou a chorar:— Irmão! Chamo você de irmão, mas se acolher minha irmã, eu te chamo até de pai!— Não é necessário tanto. — Lucas puxou o braço e se afastou um pouco.Márcio não desistiu e imediatamente agarrou a perna de Lucas.— Eu me ajoelho para você!— Eu fui um tolo, me deixei enganar, mas minha irmã não tem culpa!— Você tem coragem de vê-la na rua? Ela é tão doce, pode acontecer algo ruim… Se algo acontecer com ela, eu não aguento!Lucas começou a cerrar os punhos, as pernas presas pelos braços de Márcio.Respirou fundo.— Solte.— Não solto, só se você prometer receber minha irmã.Lucas franziu o cenho.— Depois de tantos anos, só hoje percebi que você é um verdadeiro folgado.Márcio estava decidido a fazer Lucas cuidar da irmã e não largou sua perna.Sabia ser humilde quando precisava.Se ainda tivesse algum dinheiro ou lugar para ficar, jamais pediria esse favor a Lucas.Mas agora não tinha saída.Estava mais liso que pau de sebo!O pilantra que o enganou sumiu com o dinheiro e nunca mais foi visto.Seus funcionários já tinham sido presos, mas não adiantava nada!Márcio confiava em deixar a irmã com Lucas porque o conhecia há muitos anos e sabia que ele não era de se envolver com mulheres.Sempre se apresentava como alguém reservado, íntegro, de princípios.Márcio até desconfiava que Lucas gostasse de homens.Mas nunca teve provas.Além disso, a Família Pereira era conhecida por sua disciplina rígida, e Lucas jamais faria mal à irmã.— Irmão, então vamos embora. Eu fico com você no porão, não tem problema.Carolina Nóbrega falou com voz suave, aproximando-se com o guarda-sol e puxando Márcio. Suas sobrancelhas delicadas estavam franzidas.— Irmão, levante-se.— Mana, eu não vou embora, eu tenho que arrumar um lugar pra você ficar. O verão em São Paulo é muito quente, os porões são sujos, bagunçados, fedidos, sem ar-condicionado, cheios de insetos e ratos. Como você consegue aguentar isso?!Isso era chantagem moral?Só é amarrado pela moral quem tem moral, e o Lucas tinha.— Chega. — Lucas tentou mexer o pé esquerdo, mas não conseguiu tirar, o olhar ficou mais sombrio. — Me solta, eu deixo ela ficar.Márcio enxugou as lágrimas, levantou-se com um ar envergonhado.— Lucas, você é uma pessoa maravilhosa! Vai ficar rico, cada vez mais próspero!Márcio, apressado, desceu as malas, tateou o bolso, tirou as últimas notas de real e entregou para Carolina.— Mana, aguenta firme. Quando o mano der a volta por cima, vem te buscar!Antes de sair, Márcio deu um tapinha no capô do Corolla velho.— Da próxima vez, não saia com esse carro não, filho. Entra água, vai que minha irmã se molha!Lucas deu um leve sorriso de canto de boca. As exigências dele eram até altas.— Mana! O irmão vai dar um jeito de ganhar dinheiro!— Adeus!— Buá, buá...Márcio saiu chorando, entrando na Kombi velha que ele comprou por cinco mil reais, barulhenta em tudo, menos na buzina.Carolina amassou o dinheiro na mão e jogou pela janela emperrada.O irmão precisava mais do dinheiro do que ela.Carolina fechou a sombrinha, revelando o rosto pálido e bonito, com um sorriso doce.— Irmão Pereira, obrigada por me acolher.O irmão dissera que, se fosse morar na casa dos outros, deveria ser sempre gentil.Lucas parecia frio, mas, na verdade, era um verdadeiro cavalheiro.Desde que ela se comportasse, não seria expulsa.Assim, não precisaria acabar morando com o irmão naquele porão úmido, sem banheiro.Lucas já tinha visto Carolina algumas vezes antes, sempre ao lado de Márcio, parecia um coelhinho: pura, bondosa, obediente e delicada.Mas ele nunca imaginou que um dia Carolina apareceria para morar ali.O coração de Márcio era grande demais, deixando uma irmã tão fofa na casa de um homem.O rosto austero de Lucas permaneceu inalterado, respondeu friamente:— Não precisa agradecer.— Ayrton Alencar, Guilherme Alencar, levem as malas da Srta. Nóbrega para o quarto mais ao sul do segundo andar.— Sim, senhor!Um par de gêmeos desceu do carro.Eles estavam ali o tempo todo???Os dois viram toda a cena constrangedora do irmão???— Srta. Nóbrega, seja bem-vinda!— A mansão do chefe sempre foi fria demais. Agora, com uma moça tão fofa, vai ficar bem mais animado!Guilherme, carregando uma mala em cada mão, trocou um olhar cúmplice com o irmão travesso.Quem sabe não ganhariam uma cunhada?A menina doce e delicada versus o chefão de cara fechada.Que casal!Perfeito!O casal mais fofo acabou de se formar!— Fiquem quietos.Lucas, com apenas duas palavras frias, assustou até Carolina.Tomara que o quarto de Lucas não seja no segundo andar.Ela não queria ficar no mesmo andar que ele.Assim, teria menos chance de encontrá-lo por acaso.Ela tinha medo dele, parecia tão sério.Só queria ser invisível, ficar na casa dos Pereira com comida e abrigo, esperando o irmão dar a volta por cima.Papai, mamãe, se ainda estiverem vivos, deem uma surra no irmão.Ele vacilou demais!Como conseguiu falir a empresa da família?Ainda a fez passar de senhorita a pobre coitada sem lar.O único avô vivo ficou tão chateado que voltou para o sítio no interior.Ela até duvidava que o avô tivesse saúde para cuidar do sítio.Carolina subiu para o quarto no segundo andar. As empregadas ainda estavam arrumando o ambiente, trocando o frio e impessoal conjunto branco por um jogo de cama rosa com babados e detalhes entalhados.Sua mala já tinha sido aberta e as roupas que trouxera estavam sendo penduradas no guarda-roupa pelas funcionárias.Acostumada, desde pequena, a ser servida em casa, a Senhorita hesitou por um segundo, mas decidiu deixar que profissionais cuidassem do que sabiam fazer.Ela ficou atrás da porta, espiando discretamente para fora.Viu apenas a silhueta esguia e imponente de Lucas entrando no quarto no outro extremo do corredor.No mesmo andar!!!Tudo bem, ainda havia o corredor separando-os.Estar hospedada ali já era uma grande vantagem.Mesmo o porão daquela mansão era melhor do que o que havia lá fora.Agora, o mais importante era ganhar dinheiro, apoiar o irmão para reerguer-se.— Srta. Nóbrega, por enquanto fique neste quarto. Os outros móveis precisam ser feitos sob medida. Quando chegarem, trocaremos para a senhorita.— Obrigada, Marília.Srta. Nóbrega é tão fofa!Quando sorria, dois pequenos covinhas apareciam em seu rosto.Marília olhava para Carolina como para sua própria filha, o rosto cheio de ternura e bondade.— O Senhor pediu para avisar: se precisar de qualquer coisa, é só falar comigo, Marília.Carolina pegou o celular.— Preciso da senha do Wi-Fi.— Exceto no escritório, a senha da casa toda é o nome do Senhor, data de nascimento, X maiúsculo, yh minúsculo e 0829%.Vinte e nove de agosto!Lucas é virginiano!— Obrigada.Quando as empregadas saíram, Carolina fechou a porta e conectou-se ao Wi-Fi.Finalmente podia acessar a internet.Sem dinheiro, nem ousava usar o pacote de dados.Sentou-se no sofá e, ao abrir vários grupos, percebeu que tinha sido expulsa deles.Tão realista!Antes a chamavam de princesinha, agora nem merecia estar no mesmo grupo.Em alguns grupos em que ainda estava, Carolina viu que falavam sobre a falência da Família Nóbrega, zombando do irmão, dizendo que sem os pais, Márcio não era nada.Era doloroso de ver.Antes de a família falir, o irmão sempre cuidou muito bem dela.Ele queria ganhar mais dinheiro para garantir que nada lhe faltasse no futuro.Ele apenas cometera um erro.Quem nunca comete erros?Carolina pensou nisso e seus olhos se encheram de lágrimas.Apertou o coelhinho branco de pelúcia no sofá, chorou baixinho, as lágrimas caíram em grandes gotas, molhando o rosto claro, deixando os olhos vermelhos; as orelhas do coelho ficaram amassadas em suas mãos, solitário e frágil.O entardecer alaranjado se despediu, dando lugar à noite.Lucas sentou-se à mesa de jantar preta. Havia um prato a mais naquela noite, dois pratos extras foram servidos, mas Carolina não apareceu.Marília ficou de pé ao lado.— Senhor, quer que eu suba para ver como ela está?O olhar frio de Lucas não demonstrou qualquer emoção.— Não seria apropriado eu ir.Marília saiu.Alguns minutos depois, Carolina entrou devagar na sala de jantar, os cabelos bagunçados, olhos inchados e vermelhos.Sua voz soou abafada, ainda marcada pelo choro, ao cumprimentar:— irmão Pereira~Ela tinha chorado no quarto?Que droga.Lucas não sabia consolar ninguém. Mil pensamentos passaram por sua cabeça, até que disse:— Quer comer um doce?— Hã?Carolina levantou os olhos úmidos e confusos, o olhar perdido, as extremidades dos olhos tingidas de um tom rosado, o nariz levemente avermelhado, parecendo um coelhinho frágil e indefeso.O coração de Lucas vacilou por um instante. Aquele olhar doce e inseguro quase perfurou seu peito.Ele explicou:— Dizem que comer doce ajuda a melhorar o humor.— Não quero, não estou com apetite.Carolina encarou a comida na mesa.— Não sei o que meu irmão está jantando hoje. Irmão Pereira, o senhor poderia acolher meu irmão também?— Ele não virá.Se Márcio quisesse ficar, não teria saído esta tarde.— Ah.Ela tentou.Carolina comeu algumas colheradas de arroz misturado com lágrimas, mas logo desistiu.— Estou satisfeita.Capítulo 3— Lucas Pereira, você tem que se responsabilizar pela minha irmã!No entardecer do início do verão, o céu estava pintado de laranja e vermelho, com nuvens que pareciam pinceladas intensas de tinta, entrelaçando-se livremente no horizonte.Lucas estava ao lado de seu Maybach, o olhar frio e austero passando por Márcio Nóbrega e, por fim, repousando sobre a moça que segurava um guarda-sol atrás dele.A moça usava um simples rabo de cavalo e um vestido longo branco. Seus olhos amendoados, vivos e brilhantes como ônix polido, davam-lhe um ar encantador e radiante.Ela acenou alegremente com a mão.Lucas, que nunca foi de se impressionar por aparências, mesmo confuso, manteve a habitual elegância e discrição. Sua voz, clara e serena, carregava uma estranha tranquilidade:— Eu sequer toquei em um fio de cabelo dela. De que devo me responsabilizar?— Eu quebrei! Nossa família quebrou! E foi tudo por sua causa! Faça as contas de quantos projetos você tirou de mim!Márcio esfregou os cabelos com força, fazendo os fios curtos ficarem arrepiados.— Você sabe, nossos pais já se foram. Só restou eu para cuidar de tudo. Eu fracassei, perdi a empresa, tentei empreender e também fracassei. Agora não temos para onde ir. Eu até posso morar no porão, mas minha irmã foi criada com todo o mimo. Ela não aguenta isso. Deixe ela ficar com você! Assim que eu me reerguer, venho buscá-la!Lucas arqueou levemente as sobrancelhas, respondendo com calma:— Faliram?— Não se faça de desentendido! Saiu até no jornal! A casa da família foi confiscada! Você conhece o porão em Capital, não conhece? Para ir ao banheiro, tem que andar mais de cem metros até o sanitário público, e nem tem onde tomar banho! Como uma moça pode viver nessas condições?— Lucas, por favor, estou te implorando!— Quando eu tiver dinheiro, te pago tudo que gastar com ela, até com juros, pode ser?Márcio, com uma expressão desesperada, agarrou o braço de Lucas e começou a chorar:— Irmão! Chamo você de irmão, mas se acolher minha irmã, eu te chamo até de pai!— Não é necessário tanto. — Lucas puxou o braço e se afastou um pouco.Márcio não desistiu e imediatamente agarrou a perna de Lucas.— Eu me ajoelho para você!— Eu fui um tolo, me deixei enganar, mas minha irmã não tem culpa!— Você tem coragem de vê-la na rua? Ela é tão doce, pode acontecer algo ruim… Se algo acontecer com ela, eu não aguento!Lucas começou a cerrar os punhos, as pernas presas pelos braços de Márcio.Respirou fundo.— Solte.— Não solto, só se você prometer receber minha irmã.Lucas franziu o cenho.— Depois de tantos anos, só hoje percebi que você é um verdadeiro folgado.Márcio estava decidido a fazer Lucas cuidar da irmã e não largou sua perna.Sabia ser humilde quando precisava.Se ainda tivesse algum dinheiro ou lugar para ficar, jamais pediria esse favor a Lucas.Mas agora não tinha saída.Estava mais liso que pau de sebo!O pilantra que o enganou sumiu com o dinheiro e nunca mais foi visto.Seus funcionários já tinham sido presos, mas não adiantava nada!Márcio confiava em deixar a irmã com Lucas porque o conhecia há muitos anos e sabia que ele não era de se envolver com mulheres.Sempre se apresentava como alguém reservado, íntegro, de princípios.Márcio até desconfiava que Lucas gostasse de homens.Mas nunca teve provas.Além disso, a Família Pereira era conhecida por sua disciplina rígida, e Lucas jamais faria mal à irmã.— Irmão, então vamos embora. Eu fico com você no porão, não tem problema.Carolina Nóbrega falou com voz suave, aproximando-se com o guarda-sol e puxando Márcio. Suas sobrancelhas delicadas estavam franzidas.— Irmão, levante-se.— Mana, eu não vou embora, eu tenho que arrumar um lugar pra você ficar. O verão em São Paulo é muito quente, os porões são sujos, bagunçados, fedidos, sem ar-condicionado, cheios de insetos e ratos. Como você consegue aguentar isso?!Isso era chantagem moral?Só é amarrado pela moral quem tem moral, e o Lucas tinha.— Chega. — Lucas tentou mexer o pé esquerdo, mas não conseguiu tirar, o olhar ficou mais sombrio. — Me solta, eu deixo ela ficar.Márcio enxugou as lágrimas, levantou-se com um ar envergonhado.— Lucas, você é uma pessoa maravilhosa! Vai ficar rico, cada vez mais próspero!Márcio, apressado, desceu as malas, tateou o bolso, tirou as últimas notas de real e entregou para Carolina.— Mana, aguenta firme. Quando o mano der a volta por cima, vem te buscar!Antes de sair, Márcio deu um tapinha no capô do Corolla velho.— Da próxima vez, não saia com esse carro não, filho. Entra água, vai que minha irmã se molha!Lucas deu um leve sorriso de canto de boca. As exigências dele eram até altas.— Mana! O irmão vai dar um jeito de ganhar dinheiro!— Adeus!— Buá, buá...Márcio saiu chorando, entrando na Kombi velha que ele comprou por cinco mil reais, barulhenta em tudo, menos na buzina.Carolina amassou o dinheiro na mão e jogou pela janela emperrada.O irmão precisava mais do dinheiro do que ela.Carolina fechou a sombrinha, revelando o rosto pálido e bonito, com um sorriso doce.— Irmão Pereira, obrigada por me acolher.O irmão dissera que, se fosse morar na casa dos outros, deveria ser sempre gentil.Lucas parecia frio, mas, na verdade, era um verdadeiro cavalheiro.Desde que ela se comportasse, não seria expulsa.Assim, não precisaria acabar morando com o irmão naquele porão úmido, sem banheiro.Lucas já tinha visto Carolina algumas vezes antes, sempre ao lado de Márcio, parecia um coelhinho: pura, bondosa, obediente e delicada.Mas ele nunca imaginou que um dia Carolina apareceria para morar ali.O coração de Márcio era grande demais, deixando uma irmã tão fofa na casa de um homem.O rosto austero de Lucas permaneceu inalterado, respondeu friamente:— Não precisa agradecer.— Ayrton Alencar, Guilherme Alencar, levem as malas da Srta. Nóbrega para o quarto mais ao sul do segundo andar.— Sim, senhor!Um par de gêmeos desceu do carro.Eles estavam ali o tempo todo???Os dois viram toda a cena constrangedora do irmão???— Srta. Nóbrega, seja bem-vinda!— A mansão do chefe sempre foi fria demais. Agora, com uma moça tão fofa, vai ficar bem mais animado!Guilherme, carregando uma mala em cada mão, trocou um olhar cúmplice com o irmão travesso.Quem sabe não ganhariam uma cunhada?A menina doce e delicada versus o chefão de cara fechada.Que casal!Perfeito!O casal mais fofo acabou de se formar!— Fiquem quietos.Lucas, com apenas duas palavras frias, assustou até Carolina.Tomara que o quarto de Lucas não seja no segundo andar.Ela não queria ficar no mesmo andar que ele.Assim, teria menos chance de encontrá-lo por acaso.Ela tinha medo dele, parecia tão sério.Só queria ser invisível, ficar na casa dos Pereira com comida e abrigo, esperando o irmão dar a volta por cima.Papai, mamãe, se ainda estiverem vivos, deem uma surra no irmão.Ele vacilou demais!Como conseguiu falir a empresa da família?Ainda a fez passar de senhorita a pobre coitada sem lar.O único avô vivo ficou tão chateado que voltou para o sítio no interior.Ela até duvidava que o avô tivesse saúde para cuidar do sítio.Carolina subiu para o quarto no segundo andar. As empregadas ainda estavam arrumando o ambiente, trocando o frio e impessoal conjunto branco por um jogo de cama rosa com babados e detalhes entalhados.Sua mala já tinha sido aberta e as roupas que trouxera estavam sendo penduradas no guarda-roupa pelas funcionárias.Acostumada, desde pequena, a ser servida em casa, a Senhorita hesitou por um segundo, mas decidiu deixar que profissionais cuidassem do que sabiam fazer.Ela ficou atrás da porta, espiando discretamente para fora.Viu apenas a silhueta esguia e imponente de Lucas entrando no quarto no outro extremo do corredor.No mesmo andar!!!Tudo bem, ainda havia o corredor separando-os.Estar hospedada ali já era uma grande vantagem.Mesmo o porão daquela mansão era melhor do que o que havia lá fora.Agora, o mais importante era ganhar dinheiro, apoiar o irmão para reerguer-se.— Srta. Nóbrega, por enquanto fique neste quarto. Os outros móveis precisam ser feitos sob medida. Quando chegarem, trocaremos para a senhorita.— Obrigada, Marília.Srta. Nóbrega é tão fofa!Quando sorria, dois pequenos covinhas apareciam em seu rosto.Marília olhava para Carolina como para sua própria filha, o rosto cheio de ternura e bondade.— O Senhor pediu para avisar: se precisar de qualquer coisa, é só falar comigo, Marília.Carolina pegou o celular.— Preciso da senha do Wi-Fi.— Exceto no escritório, a senha da casa toda é o nome do Senhor, data de nascimento, X maiúsculo, yh minúsculo e 0829%.Vinte e nove de agosto!Lucas é virginiano!— Obrigada.Quando as empregadas saíram, Carolina fechou a porta e conectou-se ao Wi-Fi.Finalmente podia acessar a internet.Sem dinheiro, nem ousava usar o pacote de dados.Sentou-se no sofá e, ao abrir vários grupos, percebeu que tinha sido expulsa deles.Tão realista!Antes a chamavam de princesinha, agora nem merecia estar no mesmo grupo.Em alguns grupos em que ainda estava, Carolina viu que falavam sobre a falência da Família Nóbrega, zombando do irmão, dizendo que sem os pais, Márcio não era nada.Era doloroso de ver.Antes de a família falir, o irmão sempre cuidou muito bem dela.Ele queria ganhar mais dinheiro para garantir que nada lhe faltasse no futuro.Ele apenas cometera um erro.Quem nunca comete erros?Carolina pensou nisso e seus olhos se encheram de lágrimas.Apertou o coelhinho branco de pelúcia no sofá, chorou baixinho, as lágrimas caíram em grandes gotas, molhando o rosto claro, deixando os olhos vermelhos; as orelhas do coelho ficaram amassadas em suas mãos, solitário e frágil.O entardecer alaranjado se despediu, dando lugar à noite.Lucas sentou-se à mesa de jantar preta. Havia um prato a mais naquela noite, dois pratos extras foram servidos, mas Carolina não apareceu.Marília ficou de pé ao lado.— Senhor, quer que eu suba para ver como ela está?O olhar frio de Lucas não demonstrou qualquer emoção.— Não seria apropriado eu ir.Marília saiu.Alguns minutos depois, Carolina entrou devagar na sala de jantar, os cabelos bagunçados, olhos inchados e vermelhos.Sua voz soou abafada, ainda marcada pelo choro, ao cumprimentar:— irmão Pereira~Ela tinha chorado no quarto?Que droga.Lucas não sabia consolar ninguém. Mil pensamentos passaram por sua cabeça, até que disse:— Quer comer um doce?— Hã?Carolina levantou os olhos úmidos e confusos, o olhar perdido, as extremidades dos olhos tingidas de um tom rosado, o nariz levemente avermelhado, parecendo um coelhinho frágil e indefeso.O coração de Lucas vacilou por um instante. Aquele olhar doce e inseguro quase perfurou seu peito.Ele explicou:— Dizem que comer doce ajuda a melhorar o humor.— Não quero, não estou com apetite.Carolina encarou a comida na mesa.— Não sei o que meu irmão está jantando hoje. Irmão Pereira, o senhor poderia acolher meu irmão também?— Ele não virá.Se Márcio quisesse ficar, não teria saído esta tarde.— Ah.Ela tentou.Carolina comeu algumas colheradas de arroz misturado com lágrimas, mas logo desistiu.— Estou satisfeita.