Capítulo 1O desejo de um homem de trinta anos era nu e direto.Ana Rocha já não lembrava há quanto tempo aquilo durava; seu corpo parecia prestes a se desfazer, submerso em um desejo tão intenso que a sufocava.Rafael Serra conhecia cada centímetro dela. Sabia exatamente onde tocá-la, nenhum gesto era em vão — preciso e experiente.— A partir de amanhã, não marque compromissos para mim durante uma semana. Estou de férias. Reserve duas passagens para Maldivas. — Por fim, Rafael Serra se afastou da cama, vestindo-se calmamente.Ana Rocha mexeu suavemente as costas dormentes, um brilho de alegria passou por seus olhos.— Rafael Serra, você vai me levar para viajar?Rafael Serra hesitou por um instante, franzindo levemente a testa ao olhar para Ana Rocha.— Vou com Mariana Domingos.O sorriso de Ana Rocha se congelou pouco a pouco. Ela baixou a cabeça, constrangida.— Está bem, Presidente Rafael...Percebendo o abatimento no rosto de Ana Rocha, Rafael Serra voltou a falar:— Ana Rocha, você é apenas uma órfã, muito jovem. Eu nunca vou me casar com você.Ana Rocha ergueu os olhos para Rafael Serra, sorrindo com amargura.— Eu nunca esperei que você se casasse comigo... Já que a Srta. Domingos voltou do exterior divorciada, será que está na hora de encerrarmos esse nosso relacionamento escondido?O semblante de Rafael Serra ficou sombrio. Ele passou a mão com paciência nos cabelos de Ana Rocha e colocou um cartão sobre o criado-mudo, tentando acalmá-la com doçura:— Fique tranquila, compre o que quiser.— Presidente Rafael, eu não quero mais ser amante... — Ana Rocha encarou Rafael Serra com obstinação; sabia que o casamento dele com Mariana Domingos era questão de tempo.— Ainda é cedo para falar sobre isso. Quando eu realmente me casar, conversamos. Não seja teimosa, você não decide se acaba ou não. — Rafael Serra soava impaciente. Olhou Ana Rocha mais uma vez antes de sair.Só depois que a porta de casa se fechou, Ana Rocha percebeu que seus ouvidos zumbiam e não conseguia ouvir mais nada.Ana Rocha era órfã. No primeiro ano da faculdade, por ser bonita, acabou despertando o ciúme de Maia Serra, filha de uma família de empresários, e sofreu bullying: ficou surda de um ouvido, teve o dedo mindinho quebrado e quase ficou cega por uma queimadura de cigarro...Alguém gravou um vídeo e publicou online, causando um escândalo na época.A escola foi obrigada a convocar os responsáveis, e quem compareceu para defender Maia Serra foi Rafael Serra.Rafael Serra era irmão de Maia Serra.Talvez para preservar a reputação do Grupo Serra, ou talvez por compaixão, Rafael Serra estendeu a mão para Ana Rocha, que estava toda machucada. A primeira coisa que disse a ela foi:— Não tenha medo, não vou deixar mais ninguém te machucar.Ela se apegou a ele, talvez de forma humilhante.Ana Rocha se apaixonou por Rafael Serra porque, na época em que mais precisava de afeto, ele foi tudo que ela sonhava em um homem e em segurança.Ela sempre pensou que Rafael Serra era sua salvação, mas agora via... Rafael Serra não a amava, mas também não a deixava livre....Grupo Serra.Rafael Serra precisava comparecer a uma reunião para transferir tarefas. Mariana Domingos o aguardava no escritório.Logo embarcariam juntos para as Maldivas... Sete dias de uma lua de mel antecipada.Ana Rocha entregou um café para Mariana Domingos, sentindo uma dor cortante no peito.— Srta. Domingos, seu café.Mariana Domingos olhou para Ana Rocha e sorriu com gentileza.Filha de família tradicional, Mariana Domingos era amiga de infância de Rafael Serra, uma mulher culta, confiante, de presença marcante. Bastava sentar-se ali, e sua luz fazia os olhos de Ana Rocha arderem.Ana Rocha sabia que já tinha perdido — nunca teve chance de vencer.O príncipe nunca se apaixonaria de verdade pela gata borralheira; só a usaria para passar o tempo.Deixando o café sobre a mesa, Ana Rocha quase fugiu do escritório.Faltava-lhe autoconfiança: ser órfã, pobre, mutilada pelo passado, cada poro do seu corpo transpirava insegurança.— O Presidente Rafael e a Srta. Domingos vão viajar juntos? Ouvi dizer que já estão juntos oficialmente, e quando voltarem vão anunciar. As famílias já aprovaram o casamento.No café do escritório, colegas comentavam sobre o futuro casamento de Rafael Serra e Mariana Domingos.Ana Rocha, ao buscar água quente, deixou o líquido fervente queimar o dorso da mão.A xícara caiu no chão. Só então, atordoada, ela correu para esfriar a mão sob a água fria.Rafael Serra e Mariana Domingos iam se casar.Isso significava o fim dela com Rafael Serra, e também o fim do estágio de Ana Rocha no Grupo Serra.— Ana Rocha, o Presidente Rafael pediu que você leve ele e a Srta. Domingos ao aeroporto às onze.Uma colega chamou Ana Rocha para levar Rafael Serra.Ana Rocha sorriu amargamente, pensando como Rafael Serra podia ser cruel.Ela sabia que ele fazia de propósito: poderia usar o motorista, mas queria usar ela... Só para que ela entendesse seu lugar e não criasse ilusões.No fundo, Rafael Serra e Maia Serra eram iguais: ambos praticavam bullying, só mudava o método.Um feriu seu corpo, outro maltratava seu coração já ferido.Pegando o celular, Ana Rocha hesitou muito antes de discar para um número que já havia bloqueado.— Alô, Sr. Palmeira, o senhor disse que... se eu aceitasse me casar, financiaria meus estudos na Itália... ainda vale? — A voz de Ana Rocha tremia.Casar-se — talvez fosse a única forma de fugir de Cidade M, de fugir de Rafael Serra.— Pense bem. — Do outro lado, a voz masculina era grave. — Dia treze, às sete da noite, no Riviera do Rio. Vamos conversar sobre os detalhes.Dia treze à noite, faltavam oito dias.— Assistente.Assim que Ana Rocha desligou o telefone, ouviu a voz suave de Mariana Domingos chamando-a.Ana Rocha se virou, tensa, olhando para Mariana Domingos que estava parada ao lado da copa.Ela era delicada, cheia de charme, e bastava aquele sorriso tranquilo para Ana Rocha sentir-se pressionada.— Sra. Domingos... em que posso ajudar?— Acabei de lembrar que faltam alguns itens para levarmos na viagem. Você pode comprar para mim? — Mariana Domingos tirou da bolsa uma lista escrita à mão e a entregou para Ana Rocha.A caligrafia dela era tão delicada e harmoniosa quanto sua dona.Ana Rocha ficou um instante atônita ao ler a lista, seus olhos pararam nas palavras “preservativo”, e sentiu o coração ser atravessado por uma pontada aguda.— Confio que seja discreta, por favor — pediu Mariana Domingos baixinho, piscando para Ana Rocha.Ela assentiu, desconcertada, e saiu depressa da copa, quase fugindo.Da primeira vez com Rafael Serra, Ana Rocha tinha acabado de completar dezenove anos — era seu aniversário. Rafael lhe deu flores e um bolo.Órfã desde pequena, Ana Rocha nunca tinha provado bolo de aniversário. Por um bolo pequeno e um buquê, ela se entregou de corpo e alma, sem reservas.Sorrindo amargamente, Ana achou que aquilo era mesmo ridículo.No fundo, meninas deviam ser criadas com fartura. Do contrário, um bolo qualquer e algumas flores já a fariam se apaixonar ingenuamente.Em quatro anos com Rafael Serra, Ana nunca precisou comprar preservativos: Rafael não gostava, preferia que ela tomasse anticoncepcionais.Mas para Mariana Domingos, ele jamais pediria isso. Ele não permitiria que Mariana prejudicasse a própria saúde....No caminho para o aeroporto, Ana Rocha permaneceu em silêncio, calada o tempo todo.— Estamos correndo contra o tempo, dirija mais rápido — Rafael Serra notou o estado de Ana e fez questão de lembrá-la.— Sim, presidente Rafael — respondeu Ana, sinalizando à esquerda conforme o semáforo ficou verde.O carro à frente acabou de atravessar o cruzamento, quando um menino atravessou o sinal vermelho correndo. Para não atropelá-lo, Ana virou bruscamente o volante e bateu direto no canteiro central.— Mariana! — No instante do impacto, Rafael Serra protegeu Mariana Domingos, abraçando-a com força.Por sorte, a velocidade era baixa e só a parte do motorista ficou gravemente danificada.O airbag disparou, e Ana Rocha ficou presa ao banco pelo metal retorcido. Sua perna esquerda estava esmagada, a dor quase a fez perder a consciência.— Rafael Serra... — O medo tomou conta, a voz de Ana tremia. — Me ajuda...Ela tinha pavor de espaços apertados e de ficar imóvel.No primeiro ano da faculdade, Maia Serra e alguns colegas a trancaram à força dentro de uma caixa de madeira. Não adiantava chorar ou gritar — ninguém veio socorrê-la.A sensação de sufoco e de estar espremida era insuportável.Se não fosse a faxineira, que, no dia seguinte, ao notar um rastro de urina no chão do depósito, abrisse a caixa, talvez Ana tivesse morrido ali dentro...— Rafael Serra! — Vendo que ele tentava sair do carro, Ana se desesperou, esquecendo-se de Mariana Domingos. — Não me deixa aqui...— Deixe que a equipe de resgate e os agentes cuidem disso.Rafael Serra, impaciente, ajudou Mariana Domingos a sair e ligou para o socorro.— A assistente ainda está lá dentro — comentou Mariana olhando desconfiada para Rafael. Afinal, uma assistente não chamaria o chefe pelo nome assim.Rafael puxou Mariana para junto de si, lançou um olhar indiferente para Ana Rocha presa no carro e depois olhou para o relógio. — Não vai dar tempo, não foi tão grave assim. Vamos pedir um táxi para o aeroporto, o resgate vai cuidar dela.Mariana Domingos assentiu, lançando um olhar significativo para Ana Rocha, mas não disse nada e seguiu com Rafael Serra, deixando o local do acidente.Ana Rocha, em desespero, socava o vidro do carro, mas Rafael Serra não olhou para trás.Ela sabia: Rafael tinha medo que Mariana Domingos suspeitasse de algo.Assistiu impotente enquanto os dois se afastavam, até não aguentar mais e desabar em lágrimas.— Rafael Serra! Me ajuda... você prometeu que nunca ia me abandonar...— Mentiroso! Rafael Serra, você é um mentiroso! Disse que sempre me protegeria!Ana perdeu o controle. Sua depressão e ansiedade a faziam se debater sem parar naquele espaço apertado.O ferimento não era tão grave, mas ela não conseguia evitar o impulso autodestrutivo.— Me tira daqui... me tira daqui! — chorava, batendo com força no vidro.O trauma da faculdade a impedia de pensar racionalmente, até que o cheiro forte de fumaça do motor começou a invadir o interior do carro.— O carro está pegando fogo!— Não tem ninguém dentro, vi os passageiros saindo — gritava alguém na rua.Ana, presa, começou a contar baixinho.— Um, dois, três, quatro...Naquela noite em que Maia Serra a trancou na caixa, Ana contou até seis mil setecentos e oitenta e oito...Ela se perguntava: em que número estaria quando morresse?Talvez pessoas de sorte duvidosa sejam mesmo difíceis de derrubar. Ana Rocha foi salva por alguém.Quando acordou, já era manhã do dia seguinte.— Braço direito com pequenas lesões, leve concussão cerebral, diversos hematomas nos tecidos moles...O médico estava ao lado do leito, olhando para Ana Rocha, que acabava de recobrar a consciência.— Está sentindo mais algum desconforto?Ana balançou a cabeça, pegou o celular e deu uma olhada. Rafael Serra não tinha sequer ligado para ela.Porém, Rafael Serra, que nunca postava nada no Instagram, dessa vez fez uma exceção: publicou uma foto à beira-mar, com o oceano azul ao fundo, uma paisagem realmente linda...Claro, a verdadeira protagonista da foto era Mariana Domingos, vestida com um longo vestido boêmio, ainda mais bela que o próprio cenário.Ana Rocha encolheu o corpo, puxou o lençol sobre a cabeça e chorou.Depois de quatro anos ao lado de Rafael Serra, afinal, o que ela era para ele?Nada. Absolutamente nada....Após receber alta, Ana voltou para seu pequeno apartamento alugado, tomou um comprimido de dipirona e foi dormir.Realmente não se abatia fácil: dormiu o dia inteiro e só então sentiu que estava viva de novo.Colou alguns adesivos de dor no corpo e foi trabalhar.Ela precisava receber o salário do estágio.— Vocês viram o Instagram do Presidente Rafael? Meu Deus! Que mimo! Ele nunca posta nada e fez questão de abrir essa exceção só para a Srta. Domingos.— O Presidente Rafael é mesmo o exemplo de bom homem: tantos anos de integridade, esperando só pela Srta. Domingos.Mal Ana Rocha entrou no escritório, já ouviu as colegas comentando.Com um sorriso irônico, sentou-se à sua mesa. Rafael Serra amava Mariana Domingos, isso era fato.Agora, integridade? Isso, definitivamente, não.Ana achava tudo aquilo uma ironia. Talvez todos os homens fossem iguais — amor e desejo físico podiam andar separados.Ele amava Mariana Domingos com a mente, mas esteve com ela, Ana, no corpo, inúmeras vezes.— Senhorita, aqui é nosso setor de trabalho, o Presidente Rafael informou que não é permitido...Barulho vindo do elevador.Ana olhou na direção e sentiu o sangue gelar.Maia Serra estava ali.— Saia da frente! — Maia surgiu imponente, vestida com um tailleur sofisticado, saltos altos ecoando pelo piso enquanto avançava até Ana Rocha.Ana tentou se encolher o máximo possível, cabeça baixa, pescoço recolhido. O trauma do bullying no primeiro ano da faculdade ainda não tinha passado.— Ana Rocha, meu irmão volta hoje do exterior. Ele vai se casar com a Srta. Domingos — sussurrou Maia no ouvido de Ana, com a voz de quem saboreia a crueldade.Ela riu de modo sarcástico.— Lembra que há quatro anos eu te disse? O dia que meu irmão não te quisesse mais seria o fim para você...Ana ficou completamente paralisada.Quatro anos depois, Maia ainda não a deixava em paz.Sem qualquer aviso, Maia deu um tapa no rosto de Ana Rocha, diante de todos no escritório.Ana não revidou, nem ousou protestar.Ela admitia: era covarde, não podia se dar ao luxo de enfrentar Maia Serra.Mesmo que, em pensamento, já tivesse desejado inúmeras vezes acabar com Maia Serra, ela sabia: enquanto quisesse continuar viva, não podia reagir.Se um dia estivesse realmente cansada de tudo, levaria Maia Serra junto consigo.Mas, por enquanto, era miserável e queria viver...— Lembra deste tapa? Naquela época, meu irmão te defendeu, me bateu e ainda me mandou para fora do país! Ele nunca tinha posto a mão em mim, mas por sua causa, bateu! — Maia falava com raiva, pegou o café da mesa e despejou sobre a cabeça de Ana Rocha.— Ana Rocha, você achou que conquistando meu irmão, venceu? Quem você pensa que é? Só uma órfã! E meu irmão? Você realmente achou que ele ia casar com você?Maia empurrou a cabeça de Ana mais uma vez, agora mais arrogante.— Saia do Grupo Serra, ou eu vou divulgar todas as suas sujeiras no grupo da empresa!Ana continuou de cabeça baixa, em silêncio absoluto.As “sujeiras” a que Maia se referia eram as fotos que tiraram dela, nua, quando a lideraram no bullying do primeiro ano? Ou era sobre ela ter dormido com o irmão de Maia?Ninguém no escritório ousou defender Ana Rocha — afinal, Maia era a herdeira do grupo.— Ana... o que você fez para a herdeira da família Serra? — Só depois que Maia saiu, uma colega perguntou baixinho.Ana sorriu, limpou o rosto com um lenço de papel.— Fomos colegas na universidade. Tivemos alguns desentendimentos......No banheiro, Ana se escondeu num canto para arrumar a roupa.Ela não chorou.No primeiro ano ainda chorava, achando ingênua que o mundo era injusto.Ser órfã era culpa dela?Não ter família nem proteção justificava ser humilhada?Hoje ela entendia: ser órfã era sua condenação, não ter ninguém era seu pecado.Os que te machucam nunca te dão explicação.“Plim!”O celular vibrou. Rafael Serra havia feito uma transferência de cinquenta mil reais para ela pelo WhatsApp.O escândalo na empresa certamente já tinha chegado ao ouvido dele, que sabia o que Maia fizera.Um tapa, cinquenta mil reais.Até que valia a pena.— Liguei para dar uma bronca na Maia. Compre o que quiser.Rafael mandou logo em seguida uma mensagem de voz, repetindo para ela comprar o que quisesse.— Obrigada, Presidente Rafael.Ana aceitou o dinheiro. Era fruto do seu trabalho, ela não hesitou.Olhando para a conversa, Ana não sabia o que ainda esperava. Talvez que Rafael se preocupasse de verdade, que ao menos perguntasse se ela tinha se machucado no acidente. Mas Rafael não perguntou nada.Desligou o celular e foi ao RH pedir demissão. Como ainda estava no estágio, não houve muita burocracia.Amanhã seria dia treze. À noite, ela encontraria o Sr. Palmeira, na Riviera do Rio.Se agarrasse essa oportunidade, conseguiria fugir de vez de Cidade M.Fugir de Rafael Serra.Capítulo 2O desejo de um homem de trinta anos era nu e direto.Ana Rocha já não lembrava há quanto tempo aquilo durava; seu corpo parecia prestes a se desfazer, submerso em um desejo tão intenso que a sufocava.Rafael Serra conhecia cada centímetro dela. Sabia exatamente onde tocá-la, nenhum gesto era em vão — preciso e experiente.— A partir de amanhã, não marque compromissos para mim durante uma semana. Estou de férias. Reserve duas passagens para Maldivas. — Por fim, Rafael Serra se afastou da cama, vestindo-se calmamente.Ana Rocha mexeu suavemente as costas dormentes, um brilho de alegria passou por seus olhos.— Rafael Serra, você vai me levar para viajar?Rafael Serra hesitou por um instante, franzindo levemente a testa ao olhar para Ana Rocha.— Vou com Mariana Domingos.O sorriso de Ana Rocha se congelou pouco a pouco. Ela baixou a cabeça, constrangida.— Está bem, Presidente Rafael...Percebendo o abatimento no rosto de Ana Rocha, Rafael Serra voltou a falar:— Ana Rocha, você é apenas uma órfã, muito jovem. Eu nunca vou me casar com você.Ana Rocha ergueu os olhos para Rafael Serra, sorrindo com amargura.— Eu nunca esperei que você se casasse comigo... Já que a Srta. Domingos voltou do exterior divorciada, será que está na hora de encerrarmos esse nosso relacionamento escondido?O semblante de Rafael Serra ficou sombrio. Ele passou a mão com paciência nos cabelos de Ana Rocha e colocou um cartão sobre o criado-mudo, tentando acalmá-la com doçura:— Fique tranquila, compre o que quiser.— Presidente Rafael, eu não quero mais ser amante... — Ana Rocha encarou Rafael Serra com obstinação; sabia que o casamento dele com Mariana Domingos era questão de tempo.— Ainda é cedo para falar sobre isso. Quando eu realmente me casar, conversamos. Não seja teimosa, você não decide se acaba ou não. — Rafael Serra soava impaciente. Olhou Ana Rocha mais uma vez antes de sair.Só depois que a porta de casa se fechou, Ana Rocha percebeu que seus ouvidos zumbiam e não conseguia ouvir mais nada.Ana Rocha era órfã. No primeiro ano da faculdade, por ser bonita, acabou despertando o ciúme de Maia Serra, filha de uma família de empresários, e sofreu bullying: ficou surda de um ouvido, teve o dedo mindinho quebrado e quase ficou cega por uma queimadura de cigarro...Alguém gravou um vídeo e publicou online, causando um escândalo na época.A escola foi obrigada a convocar os responsáveis, e quem compareceu para defender Maia Serra foi Rafael Serra.Rafael Serra era irmão de Maia Serra.Talvez para preservar a reputação do Grupo Serra, ou talvez por compaixão, Rafael Serra estendeu a mão para Ana Rocha, que estava toda machucada. A primeira coisa que disse a ela foi:— Não tenha medo, não vou deixar mais ninguém te machucar.Ela se apegou a ele, talvez de forma humilhante.Ana Rocha se apaixonou por Rafael Serra porque, na época em que mais precisava de afeto, ele foi tudo que ela sonhava em um homem e em segurança.Ela sempre pensou que Rafael Serra era sua salvação, mas agora via... Rafael Serra não a amava, mas também não a deixava livre....Grupo Serra.Rafael Serra precisava comparecer a uma reunião para transferir tarefas. Mariana Domingos o aguardava no escritório.Logo embarcariam juntos para as Maldivas... Sete dias de uma lua de mel antecipada.Ana Rocha entregou um café para Mariana Domingos, sentindo uma dor cortante no peito.— Srta. Domingos, seu café.Mariana Domingos olhou para Ana Rocha e sorriu com gentileza.Filha de família tradicional, Mariana Domingos era amiga de infância de Rafael Serra, uma mulher culta, confiante, de presença marcante. Bastava sentar-se ali, e sua luz fazia os olhos de Ana Rocha arderem.Ana Rocha sabia que já tinha perdido — nunca teve chance de vencer.O príncipe nunca se apaixonaria de verdade pela gata borralheira; só a usaria para passar o tempo.Deixando o café sobre a mesa, Ana Rocha quase fugiu do escritório.Faltava-lhe autoconfiança: ser órfã, pobre, mutilada pelo passado, cada poro do seu corpo transpirava insegurança.— O Presidente Rafael e a Srta. Domingos vão viajar juntos? Ouvi dizer que já estão juntos oficialmente, e quando voltarem vão anunciar. As famílias já aprovaram o casamento.No café do escritório, colegas comentavam sobre o futuro casamento de Rafael Serra e Mariana Domingos.Ana Rocha, ao buscar água quente, deixou o líquido fervente queimar o dorso da mão.A xícara caiu no chão. Só então, atordoada, ela correu para esfriar a mão sob a água fria.Rafael Serra e Mariana Domingos iam se casar.Isso significava o fim dela com Rafael Serra, e também o fim do estágio de Ana Rocha no Grupo Serra.— Ana Rocha, o Presidente Rafael pediu que você leve ele e a Srta. Domingos ao aeroporto às onze.Uma colega chamou Ana Rocha para levar Rafael Serra.Ana Rocha sorriu amargamente, pensando como Rafael Serra podia ser cruel.Ela sabia que ele fazia de propósito: poderia usar o motorista, mas queria usar ela... Só para que ela entendesse seu lugar e não criasse ilusões.No fundo, Rafael Serra e Maia Serra eram iguais: ambos praticavam bullying, só mudava o método.Um feriu seu corpo, outro maltratava seu coração já ferido.Pegando o celular, Ana Rocha hesitou muito antes de discar para um número que já havia bloqueado.— Alô, Sr. Palmeira, o senhor disse que... se eu aceitasse me casar, financiaria meus estudos na Itália... ainda vale? — A voz de Ana Rocha tremia.Casar-se — talvez fosse a única forma de fugir de Cidade M, de fugir de Rafael Serra.— Pense bem. — Do outro lado, a voz masculina era grave. — Dia treze, às sete da noite, no Riviera do Rio. Vamos conversar sobre os detalhes.Dia treze à noite, faltavam oito dias.— Assistente.Assim que Ana Rocha desligou o telefone, ouviu a voz suave de Mariana Domingos chamando-a.Ana Rocha se virou, tensa, olhando para Mariana Domingos que estava parada ao lado da copa.Ela era delicada, cheia de charme, e bastava aquele sorriso tranquilo para Ana Rocha sentir-se pressionada.— Sra. Domingos... em que posso ajudar?— Acabei de lembrar que faltam alguns itens para levarmos na viagem. Você pode comprar para mim? — Mariana Domingos tirou da bolsa uma lista escrita à mão e a entregou para Ana Rocha.A caligrafia dela era tão delicada e harmoniosa quanto sua dona.Ana Rocha ficou um instante atônita ao ler a lista, seus olhos pararam nas palavras “preservativo”, e sentiu o coração ser atravessado por uma pontada aguda.— Confio que seja discreta, por favor — pediu Mariana Domingos baixinho, piscando para Ana Rocha.Ela assentiu, desconcertada, e saiu depressa da copa, quase fugindo.Da primeira vez com Rafael Serra, Ana Rocha tinha acabado de completar dezenove anos — era seu aniversário. Rafael lhe deu flores e um bolo.Órfã desde pequena, Ana Rocha nunca tinha provado bolo de aniversário. Por um bolo pequeno e um buquê, ela se entregou de corpo e alma, sem reservas.Sorrindo amargamente, Ana achou que aquilo era mesmo ridículo.No fundo, meninas deviam ser criadas com fartura. Do contrário, um bolo qualquer e algumas flores já a fariam se apaixonar ingenuamente.Em quatro anos com Rafael Serra, Ana nunca precisou comprar preservativos: Rafael não gostava, preferia que ela tomasse anticoncepcionais.Mas para Mariana Domingos, ele jamais pediria isso. Ele não permitiria que Mariana prejudicasse a própria saúde....No caminho para o aeroporto, Ana Rocha permaneceu em silêncio, calada o tempo todo.— Estamos correndo contra o tempo, dirija mais rápido — Rafael Serra notou o estado de Ana e fez questão de lembrá-la.— Sim, presidente Rafael — respondeu Ana, sinalizando à esquerda conforme o semáforo ficou verde.O carro à frente acabou de atravessar o cruzamento, quando um menino atravessou o sinal vermelho correndo. Para não atropelá-lo, Ana virou bruscamente o volante e bateu direto no canteiro central.— Mariana! — No instante do impacto, Rafael Serra protegeu Mariana Domingos, abraçando-a com força.Por sorte, a velocidade era baixa e só a parte do motorista ficou gravemente danificada.O airbag disparou, e Ana Rocha ficou presa ao banco pelo metal retorcido. Sua perna esquerda estava esmagada, a dor quase a fez perder a consciência.— Rafael Serra... — O medo tomou conta, a voz de Ana tremia. — Me ajuda...Ela tinha pavor de espaços apertados e de ficar imóvel.No primeiro ano da faculdade, Maia Serra e alguns colegas a trancaram à força dentro de uma caixa de madeira. Não adiantava chorar ou gritar — ninguém veio socorrê-la.A sensação de sufoco e de estar espremida era insuportável.Se não fosse a faxineira, que, no dia seguinte, ao notar um rastro de urina no chão do depósito, abrisse a caixa, talvez Ana tivesse morrido ali dentro...— Rafael Serra! — Vendo que ele tentava sair do carro, Ana se desesperou, esquecendo-se de Mariana Domingos. — Não me deixa aqui...— Deixe que a equipe de resgate e os agentes cuidem disso.Rafael Serra, impaciente, ajudou Mariana Domingos a sair e ligou para o socorro.— A assistente ainda está lá dentro — comentou Mariana olhando desconfiada para Rafael. Afinal, uma assistente não chamaria o chefe pelo nome assim.Rafael puxou Mariana para junto de si, lançou um olhar indiferente para Ana Rocha presa no carro e depois olhou para o relógio. — Não vai dar tempo, não foi tão grave assim. Vamos pedir um táxi para o aeroporto, o resgate vai cuidar dela.Mariana Domingos assentiu, lançando um olhar significativo para Ana Rocha, mas não disse nada e seguiu com Rafael Serra, deixando o local do acidente.Ana Rocha, em desespero, socava o vidro do carro, mas Rafael Serra não olhou para trás.Ela sabia: Rafael tinha medo que Mariana Domingos suspeitasse de algo.Assistiu impotente enquanto os dois se afastavam, até não aguentar mais e desabar em lágrimas.— Rafael Serra! Me ajuda... você prometeu que nunca ia me abandonar...— Mentiroso! Rafael Serra, você é um mentiroso! Disse que sempre me protegeria!Ana perdeu o controle. Sua depressão e ansiedade a faziam se debater sem parar naquele espaço apertado.O ferimento não era tão grave, mas ela não conseguia evitar o impulso autodestrutivo.— Me tira daqui... me tira daqui! — chorava, batendo com força no vidro.O trauma da faculdade a impedia de pensar racionalmente, até que o cheiro forte de fumaça do motor começou a invadir o interior do carro.— O carro está pegando fogo!— Não tem ninguém dentro, vi os passageiros saindo — gritava alguém na rua.Ana, presa, começou a contar baixinho.— Um, dois, três, quatro...Naquela noite em que Maia Serra a trancou na caixa, Ana contou até seis mil setecentos e oitenta e oito...Ela se perguntava: em que número estaria quando morresse?Talvez pessoas de sorte duvidosa sejam mesmo difíceis de derrubar. Ana Rocha foi salva por alguém.Quando acordou, já era manhã do dia seguinte.— Braço direito com pequenas lesões, leve concussão cerebral, diversos hematomas nos tecidos moles...O médico estava ao lado do leito, olhando para Ana Rocha, que acabava de recobrar a consciência.— Está sentindo mais algum desconforto?Ana balançou a cabeça, pegou o celular e deu uma olhada. Rafael Serra não tinha sequer ligado para ela.Porém, Rafael Serra, que nunca postava nada no Instagram, dessa vez fez uma exceção: publicou uma foto à beira-mar, com o oceano azul ao fundo, uma paisagem realmente linda...Claro, a verdadeira protagonista da foto era Mariana Domingos, vestida com um longo vestido boêmio, ainda mais bela que o próprio cenário.Ana Rocha encolheu o corpo, puxou o lençol sobre a cabeça e chorou.Depois de quatro anos ao lado de Rafael Serra, afinal, o que ela era para ele?Nada. Absolutamente nada....Após receber alta, Ana voltou para seu pequeno apartamento alugado, tomou um comprimido de dipirona e foi dormir.Realmente não se abatia fácil: dormiu o dia inteiro e só então sentiu que estava viva de novo.Colou alguns adesivos de dor no corpo e foi trabalhar.Ela precisava receber o salário do estágio.— Vocês viram o Instagram do Presidente Rafael? Meu Deus! Que mimo! Ele nunca posta nada e fez questão de abrir essa exceção só para a Srta. Domingos.— O Presidente Rafael é mesmo o exemplo de bom homem: tantos anos de integridade, esperando só pela Srta. Domingos.Mal Ana Rocha entrou no escritório, já ouviu as colegas comentando.Com um sorriso irônico, sentou-se à sua mesa. Rafael Serra amava Mariana Domingos, isso era fato.Agora, integridade? Isso, definitivamente, não.Ana achava tudo aquilo uma ironia. Talvez todos os homens fossem iguais — amor e desejo físico podiam andar separados.Ele amava Mariana Domingos com a mente, mas esteve com ela, Ana, no corpo, inúmeras vezes.— Senhorita, aqui é nosso setor de trabalho, o Presidente Rafael informou que não é permitido...Barulho vindo do elevador.Ana olhou na direção e sentiu o sangue gelar.Maia Serra estava ali.— Saia da frente! — Maia surgiu imponente, vestida com um tailleur sofisticado, saltos altos ecoando pelo piso enquanto avançava até Ana Rocha.Ana tentou se encolher o máximo possível, cabeça baixa, pescoço recolhido. O trauma do bullying no primeiro ano da faculdade ainda não tinha passado.— Ana Rocha, meu irmão volta hoje do exterior. Ele vai se casar com a Srta. Domingos — sussurrou Maia no ouvido de Ana, com a voz de quem saboreia a crueldade.Ela riu de modo sarcástico.— Lembra que há quatro anos eu te disse? O dia que meu irmão não te quisesse mais seria o fim para você...Ana ficou completamente paralisada.Quatro anos depois, Maia ainda não a deixava em paz.Sem qualquer aviso, Maia deu um tapa no rosto de Ana Rocha, diante de todos no escritório.Ana não revidou, nem ousou protestar.Ela admitia: era covarde, não podia se dar ao luxo de enfrentar Maia Serra.Mesmo que, em pensamento, já tivesse desejado inúmeras vezes acabar com Maia Serra, ela sabia: enquanto quisesse continuar viva, não podia reagir.Se um dia estivesse realmente cansada de tudo, levaria Maia Serra junto consigo.Mas, por enquanto, era miserável e queria viver...— Lembra deste tapa? Naquela época, meu irmão te defendeu, me bateu e ainda me mandou para fora do país! Ele nunca tinha posto a mão em mim, mas por sua causa, bateu! — Maia falava com raiva, pegou o café da mesa e despejou sobre a cabeça de Ana Rocha.— Ana Rocha, você achou que conquistando meu irmão, venceu? Quem você pensa que é? Só uma órfã! E meu irmão? Você realmente achou que ele ia casar com você?Maia empurrou a cabeça de Ana mais uma vez, agora mais arrogante.— Saia do Grupo Serra, ou eu vou divulgar todas as suas sujeiras no grupo da empresa!Ana continuou de cabeça baixa, em silêncio absoluto.As “sujeiras” a que Maia se referia eram as fotos que tiraram dela, nua, quando a lideraram no bullying do primeiro ano? Ou era sobre ela ter dormido com o irmão de Maia?Ninguém no escritório ousou defender Ana Rocha — afinal, Maia era a herdeira do grupo.— Ana... o que você fez para a herdeira da família Serra? — Só depois que Maia saiu, uma colega perguntou baixinho.Ana sorriu, limpou o rosto com um lenço de papel.— Fomos colegas na universidade. Tivemos alguns desentendimentos......No banheiro, Ana se escondeu num canto para arrumar a roupa.Ela não chorou.No primeiro ano ainda chorava, achando ingênua que o mundo era injusto.Ser órfã era culpa dela?Não ter família nem proteção justificava ser humilhada?Hoje ela entendia: ser órfã era sua condenação, não ter ninguém era seu pecado.Os que te machucam nunca te dão explicação.“Plim!”O celular vibrou. Rafael Serra havia feito uma transferência de cinquenta mil reais para ela pelo WhatsApp.O escândalo na empresa certamente já tinha chegado ao ouvido dele, que sabia o que Maia fizera.Um tapa, cinquenta mil reais.Até que valia a pena.— Liguei para dar uma bronca na Maia. Compre o que quiser.Rafael mandou logo em seguida uma mensagem de voz, repetindo para ela comprar o que quisesse.— Obrigada, Presidente Rafael.Ana aceitou o dinheiro. Era fruto do seu trabalho, ela não hesitou.Olhando para a conversa, Ana não sabia o que ainda esperava. Talvez que Rafael se preocupasse de verdade, que ao menos perguntasse se ela tinha se machucado no acidente. Mas Rafael não perguntou nada.Desligou o celular e foi ao RH pedir demissão. Como ainda estava no estágio, não houve muita burocracia.Amanhã seria dia treze. À noite, ela encontraria o Sr. Palmeira, na Riviera do Rio.Se agarrasse essa oportunidade, conseguiria fugir de vez de Cidade M.Fugir de Rafael Serra.Capítulo 3O desejo de um homem de trinta anos era nu e direto.Ana Rocha já não lembrava há quanto tempo aquilo durava; seu corpo parecia prestes a se desfazer, submerso em um desejo tão intenso que a sufocava.Rafael Serra conhecia cada centímetro dela. Sabia exatamente onde tocá-la, nenhum gesto era em vão — preciso e experiente.— A partir de amanhã, não marque compromissos para mim durante uma semana. Estou de férias. Reserve duas passagens para Maldivas. — Por fim, Rafael Serra se afastou da cama, vestindo-se calmamente.Ana Rocha mexeu suavemente as costas dormentes, um brilho de alegria passou por seus olhos.— Rafael Serra, você vai me levar para viajar?Rafael Serra hesitou por um instante, franzindo levemente a testa ao olhar para Ana Rocha.— Vou com Mariana Domingos.O sorriso de Ana Rocha se congelou pouco a pouco. Ela baixou a cabeça, constrangida.— Está bem, Presidente Rafael...Percebendo o abatimento no rosto de Ana Rocha, Rafael Serra voltou a falar:— Ana Rocha, você é apenas uma órfã, muito jovem. Eu nunca vou me casar com você.Ana Rocha ergueu os olhos para Rafael Serra, sorrindo com amargura.— Eu nunca esperei que você se casasse comigo... Já que a Srta. Domingos voltou do exterior divorciada, será que está na hora de encerrarmos esse nosso relacionamento escondido?O semblante de Rafael Serra ficou sombrio. Ele passou a mão com paciência nos cabelos de Ana Rocha e colocou um cartão sobre o criado-mudo, tentando acalmá-la com doçura:— Fique tranquila, compre o que quiser.— Presidente Rafael, eu não quero mais ser amante... — Ana Rocha encarou Rafael Serra com obstinação; sabia que o casamento dele com Mariana Domingos era questão de tempo.— Ainda é cedo para falar sobre isso. Quando eu realmente me casar, conversamos. Não seja teimosa, você não decide se acaba ou não. — Rafael Serra soava impaciente. Olhou Ana Rocha mais uma vez antes de sair.Só depois que a porta de casa se fechou, Ana Rocha percebeu que seus ouvidos zumbiam e não conseguia ouvir mais nada.Ana Rocha era órfã. No primeiro ano da faculdade, por ser bonita, acabou despertando o ciúme de Maia Serra, filha de uma família de empresários, e sofreu bullying: ficou surda de um ouvido, teve o dedo mindinho quebrado e quase ficou cega por uma queimadura de cigarro...Alguém gravou um vídeo e publicou online, causando um escândalo na época.A escola foi obrigada a convocar os responsáveis, e quem compareceu para defender Maia Serra foi Rafael Serra.Rafael Serra era irmão de Maia Serra.Talvez para preservar a reputação do Grupo Serra, ou talvez por compaixão, Rafael Serra estendeu a mão para Ana Rocha, que estava toda machucada. A primeira coisa que disse a ela foi:— Não tenha medo, não vou deixar mais ninguém te machucar.Ela se apegou a ele, talvez de forma humilhante.Ana Rocha se apaixonou por Rafael Serra porque, na época em que mais precisava de afeto, ele foi tudo que ela sonhava em um homem e em segurança.Ela sempre pensou que Rafael Serra era sua salvação, mas agora via... Rafael Serra não a amava, mas também não a deixava livre....Grupo Serra.Rafael Serra precisava comparecer a uma reunião para transferir tarefas. Mariana Domingos o aguardava no escritório.Logo embarcariam juntos para as Maldivas... Sete dias de uma lua de mel antecipada.Ana Rocha entregou um café para Mariana Domingos, sentindo uma dor cortante no peito.— Srta. Domingos, seu café.Mariana Domingos olhou para Ana Rocha e sorriu com gentileza.Filha de família tradicional, Mariana Domingos era amiga de infância de Rafael Serra, uma mulher culta, confiante, de presença marcante. Bastava sentar-se ali, e sua luz fazia os olhos de Ana Rocha arderem.Ana Rocha sabia que já tinha perdido — nunca teve chance de vencer.O príncipe nunca se apaixonaria de verdade pela gata borralheira; só a usaria para passar o tempo.Deixando o café sobre a mesa, Ana Rocha quase fugiu do escritório.Faltava-lhe autoconfiança: ser órfã, pobre, mutilada pelo passado, cada poro do seu corpo transpirava insegurança.— O Presidente Rafael e a Srta. Domingos vão viajar juntos? Ouvi dizer que já estão juntos oficialmente, e quando voltarem vão anunciar. As famílias já aprovaram o casamento.No café do escritório, colegas comentavam sobre o futuro casamento de Rafael Serra e Mariana Domingos.Ana Rocha, ao buscar água quente, deixou o líquido fervente queimar o dorso da mão.A xícara caiu no chão. Só então, atordoada, ela correu para esfriar a mão sob a água fria.Rafael Serra e Mariana Domingos iam se casar.Isso significava o fim dela com Rafael Serra, e também o fim do estágio de Ana Rocha no Grupo Serra.— Ana Rocha, o Presidente Rafael pediu que você leve ele e a Srta. Domingos ao aeroporto às onze.Uma colega chamou Ana Rocha para levar Rafael Serra.Ana Rocha sorriu amargamente, pensando como Rafael Serra podia ser cruel.Ela sabia que ele fazia de propósito: poderia usar o motorista, mas queria usar ela... Só para que ela entendesse seu lugar e não criasse ilusões.No fundo, Rafael Serra e Maia Serra eram iguais: ambos praticavam bullying, só mudava o método.Um feriu seu corpo, outro maltratava seu coração já ferido.Pegando o celular, Ana Rocha hesitou muito antes de discar para um número que já havia bloqueado.— Alô, Sr. Palmeira, o senhor disse que... se eu aceitasse me casar, financiaria meus estudos na Itália... ainda vale? — A voz de Ana Rocha tremia.Casar-se — talvez fosse a única forma de fugir de Cidade M, de fugir de Rafael Serra.— Pense bem. — Do outro lado, a voz masculina era grave. — Dia treze, às sete da noite, no Riviera do Rio. Vamos conversar sobre os detalhes.Dia treze à noite, faltavam oito dias.— Assistente.Assim que Ana Rocha desligou o telefone, ouviu a voz suave de Mariana Domingos chamando-a.Ana Rocha se virou, tensa, olhando para Mariana Domingos que estava parada ao lado da copa.Ela era delicada, cheia de charme, e bastava aquele sorriso tranquilo para Ana Rocha sentir-se pressionada.— Sra. Domingos... em que posso ajudar?— Acabei de lembrar que faltam alguns itens para levarmos na viagem. Você pode comprar para mim? — Mariana Domingos tirou da bolsa uma lista escrita à mão e a entregou para Ana Rocha.A caligrafia dela era tão delicada e harmoniosa quanto sua dona.Ana Rocha ficou um instante atônita ao ler a lista, seus olhos pararam nas palavras “preservativo”, e sentiu o coração ser atravessado por uma pontada aguda.— Confio que seja discreta, por favor — pediu Mariana Domingos baixinho, piscando para Ana Rocha.Ela assentiu, desconcertada, e saiu depressa da copa, quase fugindo.Da primeira vez com Rafael Serra, Ana Rocha tinha acabado de completar dezenove anos — era seu aniversário. Rafael lhe deu flores e um bolo.Órfã desde pequena, Ana Rocha nunca tinha provado bolo de aniversário. Por um bolo pequeno e um buquê, ela se entregou de corpo e alma, sem reservas.Sorrindo amargamente, Ana achou que aquilo era mesmo ridículo.No fundo, meninas deviam ser criadas com fartura. Do contrário, um bolo qualquer e algumas flores já a fariam se apaixonar ingenuamente.Em quatro anos com Rafael Serra, Ana nunca precisou comprar preservativos: Rafael não gostava, preferia que ela tomasse anticoncepcionais.Mas para Mariana Domingos, ele jamais pediria isso. Ele não permitiria que Mariana prejudicasse a própria saúde....No caminho para o aeroporto, Ana Rocha permaneceu em silêncio, calada o tempo todo.— Estamos correndo contra o tempo, dirija mais rápido — Rafael Serra notou o estado de Ana e fez questão de lembrá-la.— Sim, presidente Rafael — respondeu Ana, sinalizando à esquerda conforme o semáforo ficou verde.O carro à frente acabou de atravessar o cruzamento, quando um menino atravessou o sinal vermelho correndo. Para não atropelá-lo, Ana virou bruscamente o volante e bateu direto no canteiro central.— Mariana! — No instante do impacto, Rafael Serra protegeu Mariana Domingos, abraçando-a com força.Por sorte, a velocidade era baixa e só a parte do motorista ficou gravemente danificada.O airbag disparou, e Ana Rocha ficou presa ao banco pelo metal retorcido. Sua perna esquerda estava esmagada, a dor quase a fez perder a consciência.— Rafael Serra... — O medo tomou conta, a voz de Ana tremia. — Me ajuda...Ela tinha pavor de espaços apertados e de ficar imóvel.No primeiro ano da faculdade, Maia Serra e alguns colegas a trancaram à força dentro de uma caixa de madeira. Não adiantava chorar ou gritar — ninguém veio socorrê-la.A sensação de sufoco e de estar espremida era insuportável.Se não fosse a faxineira, que, no dia seguinte, ao notar um rastro de urina no chão do depósito, abrisse a caixa, talvez Ana tivesse morrido ali dentro...— Rafael Serra! — Vendo que ele tentava sair do carro, Ana se desesperou, esquecendo-se de Mariana Domingos. — Não me deixa aqui...— Deixe que a equipe de resgate e os agentes cuidem disso.Rafael Serra, impaciente, ajudou Mariana Domingos a sair e ligou para o socorro.— A assistente ainda está lá dentro — comentou Mariana olhando desconfiada para Rafael. Afinal, uma assistente não chamaria o chefe pelo nome assim.Rafael puxou Mariana para junto de si, lançou um olhar indiferente para Ana Rocha presa no carro e depois olhou para o relógio. — Não vai dar tempo, não foi tão grave assim. Vamos pedir um táxi para o aeroporto, o resgate vai cuidar dela.Mariana Domingos assentiu, lançando um olhar significativo para Ana Rocha, mas não disse nada e seguiu com Rafael Serra, deixando o local do acidente.Ana Rocha, em desespero, socava o vidro do carro, mas Rafael Serra não olhou para trás.Ela sabia: Rafael tinha medo que Mariana Domingos suspeitasse de algo.Assistiu impotente enquanto os dois se afastavam, até não aguentar mais e desabar em lágrimas.— Rafael Serra! Me ajuda... você prometeu que nunca ia me abandonar...— Mentiroso! Rafael Serra, você é um mentiroso! Disse que sempre me protegeria!Ana perdeu o controle. Sua depressão e ansiedade a faziam se debater sem parar naquele espaço apertado.O ferimento não era tão grave, mas ela não conseguia evitar o impulso autodestrutivo.— Me tira daqui... me tira daqui! — chorava, batendo com força no vidro.O trauma da faculdade a impedia de pensar racionalmente, até que o cheiro forte de fumaça do motor começou a invadir o interior do carro.— O carro está pegando fogo!— Não tem ninguém dentro, vi os passageiros saindo — gritava alguém na rua.Ana, presa, começou a contar baixinho.— Um, dois, três, quatro...Naquela noite em que Maia Serra a trancou na caixa, Ana contou até seis mil setecentos e oitenta e oito...Ela se perguntava: em que número estaria quando morresse?Talvez pessoas de sorte duvidosa sejam mesmo difíceis de derrubar. Ana Rocha foi salva por alguém.Quando acordou, já era manhã do dia seguinte.— Braço direito com pequenas lesões, leve concussão cerebral, diversos hematomas nos tecidos moles...O médico estava ao lado do leito, olhando para Ana Rocha, que acabava de recobrar a consciência.— Está sentindo mais algum desconforto?Ana balançou a cabeça, pegou o celular e deu uma olhada. Rafael Serra não tinha sequer ligado para ela.Porém, Rafael Serra, que nunca postava nada no Instagram, dessa vez fez uma exceção: publicou uma foto à beira-mar, com o oceano azul ao fundo, uma paisagem realmente linda...Claro, a verdadeira protagonista da foto era Mariana Domingos, vestida com um longo vestido boêmio, ainda mais bela que o próprio cenário.Ana Rocha encolheu o corpo, puxou o lençol sobre a cabeça e chorou.Depois de quatro anos ao lado de Rafael Serra, afinal, o que ela era para ele?Nada. Absolutamente nada....Após receber alta, Ana voltou para seu pequeno apartamento alugado, tomou um comprimido de dipirona e foi dormir.Realmente não se abatia fácil: dormiu o dia inteiro e só então sentiu que estava viva de novo.Colou alguns adesivos de dor no corpo e foi trabalhar.Ela precisava receber o salário do estágio.— Vocês viram o Instagram do Presidente Rafael? Meu Deus! Que mimo! Ele nunca posta nada e fez questão de abrir essa exceção só para a Srta. Domingos.— O Presidente Rafael é mesmo o exemplo de bom homem: tantos anos de integridade, esperando só pela Srta. Domingos.Mal Ana Rocha entrou no escritório, já ouviu as colegas comentando.Com um sorriso irônico, sentou-se à sua mesa. Rafael Serra amava Mariana Domingos, isso era fato.Agora, integridade? Isso, definitivamente, não.Ana achava tudo aquilo uma ironia. Talvez todos os homens fossem iguais — amor e desejo físico podiam andar separados.Ele amava Mariana Domingos com a mente, mas esteve com ela, Ana, no corpo, inúmeras vezes.— Senhorita, aqui é nosso setor de trabalho, o Presidente Rafael informou que não é permitido...Barulho vindo do elevador.Ana olhou na direção e sentiu o sangue gelar.Maia Serra estava ali.— Saia da frente! — Maia surgiu imponente, vestida com um tailleur sofisticado, saltos altos ecoando pelo piso enquanto avançava até Ana Rocha.Ana tentou se encolher o máximo possível, cabeça baixa, pescoço recolhido. O trauma do bullying no primeiro ano da faculdade ainda não tinha passado.— Ana Rocha, meu irmão volta hoje do exterior. Ele vai se casar com a Srta. Domingos — sussurrou Maia no ouvido de Ana, com a voz de quem saboreia a crueldade.Ela riu de modo sarcástico.— Lembra que há quatro anos eu te disse? O dia que meu irmão não te quisesse mais seria o fim para você...Ana ficou completamente paralisada.Quatro anos depois, Maia ainda não a deixava em paz.Sem qualquer aviso, Maia deu um tapa no rosto de Ana Rocha, diante de todos no escritório.Ana não revidou, nem ousou protestar.Ela admitia: era covarde, não podia se dar ao luxo de enfrentar Maia Serra.Mesmo que, em pensamento, já tivesse desejado inúmeras vezes acabar com Maia Serra, ela sabia: enquanto quisesse continuar viva, não podia reagir.Se um dia estivesse realmente cansada de tudo, levaria Maia Serra junto consigo.Mas, por enquanto, era miserável e queria viver...— Lembra deste tapa? Naquela época, meu irmão te defendeu, me bateu e ainda me mandou para fora do país! Ele nunca tinha posto a mão em mim, mas por sua causa, bateu! — Maia falava com raiva, pegou o café da mesa e despejou sobre a cabeça de Ana Rocha.— Ana Rocha, você achou que conquistando meu irmão, venceu? Quem você pensa que é? Só uma órfã! E meu irmão? Você realmente achou que ele ia casar com você?Maia empurrou a cabeça de Ana mais uma vez, agora mais arrogante.— Saia do Grupo Serra, ou eu vou divulgar todas as suas sujeiras no grupo da empresa!Ana continuou de cabeça baixa, em silêncio absoluto.As “sujeiras” a que Maia se referia eram as fotos que tiraram dela, nua, quando a lideraram no bullying do primeiro ano? Ou era sobre ela ter dormido com o irmão de Maia?Ninguém no escritório ousou defender Ana Rocha — afinal, Maia era a herdeira do grupo.— Ana... o que você fez para a herdeira da família Serra? — Só depois que Maia saiu, uma colega perguntou baixinho.Ana sorriu, limpou o rosto com um lenço de papel.— Fomos colegas na universidade. Tivemos alguns desentendimentos......No banheiro, Ana se escondeu num canto para arrumar a roupa.Ela não chorou.No primeiro ano ainda chorava, achando ingênua que o mundo era injusto.Ser órfã era culpa dela?Não ter família nem proteção justificava ser humilhada?Hoje ela entendia: ser órfã era sua condenação, não ter ninguém era seu pecado.Os que te machucam nunca te dão explicação.“Plim!”O celular vibrou. Rafael Serra havia feito uma transferência de cinquenta mil reais para ela pelo WhatsApp.O escândalo na empresa certamente já tinha chegado ao ouvido dele, que sabia o que Maia fizera.Um tapa, cinquenta mil reais.Até que valia a pena.— Liguei para dar uma bronca na Maia. Compre o que quiser.Rafael mandou logo em seguida uma mensagem de voz, repetindo para ela comprar o que quisesse.— Obrigada, Presidente Rafael.Ana aceitou o dinheiro. Era fruto do seu trabalho, ela não hesitou.Olhando para a conversa, Ana não sabia o que ainda esperava. Talvez que Rafael se preocupasse de verdade, que ao menos perguntasse se ela tinha se machucado no acidente. Mas Rafael não perguntou nada.Desligou o celular e foi ao RH pedir demissão. Como ainda estava no estágio, não houve muita burocracia.Amanhã seria dia treze. À noite, ela encontraria o Sr. Palmeira, na Riviera do Rio.Se agarrasse essa oportunidade, conseguiria fugir de vez de Cidade M.Fugir de Rafael Serra.