Quando a "musa imaculada" Queen Jardim voltou ao país, Gina Liberal entendeu na pele o ditado: quem é amado pode tudo. A puta enfeitada provocava, caluniava, armava cilhas - e o Fábio Marques sempre ao lado dela. Gina cuspiu no chão. "Tô fora desse rolo mais furado que queijo suíço!" Deixou os papéis do divórcio e sumiu no maior projeto secreto do governo. Nem rastro. Todo mundo - inclusive ela - achava que Fábio nunca a amara. Até o reencontro. O Diretor Marques a encurralou na parede, olhos vermelhos: "Três anos... Sabe como foi pra mim?" Gina mordeu os lábios num sorriso doce-veneno: "Quem liga pra ex? Eu curti balada, whisky e garotões... Quer vir? Te arrumo um novinho, seu Marques~"

Capítulo 1"Gina, você já pensou bem? Uma vez que entrar no projeto confidencial, não poderá mais se retirar, todos os contatos com o mundo exterior serão cortados. Tem certeza da sua decisão?"Gina Liberal olhava distraída para o bolo derretido sobre a mesa, sentindo seu coração ser perfurado por agulhas finas, uma dor densa e contínua.Ontem fora seu aniversário. Fábio Marques havia encomendado seu bolo favorito de baunilha, mas desaparecera a noite inteira e não voltara para casa.Ela permaneceu em silêncio por muito tempo.Do outro lado, ouviu um suspiro: "Brigas entre casais acontecem o tempo todo, pense com calma. Se você for, serão três anos longe. Tem certeza de que seu casamento resistirá a essa prova? Ainda falta um mês para definir a lista, pense bem antes de me dar uma resposta."Ao desligar o telefone, Gina voltou os olhos para a foto sobre a mesa.Na foto, o homem tinha um ar nobre e bonito; a moça, delicada e cheia de vida, inclinava-se sorrindo sobre o ombro dele.Ela gostava de Fábio, gostava tanto que, mesmo sabendo que o coração dele pertencia a outra, aceitou sem hesitar quando ele propôs casamento.Pensava que o coração era um frasco de vidro: se ela o enchesse de sinceridade, um dia ele transbordaria.Mas esquecera que, se o frasco não tem fundo, como poderia ser preenchido?Gina esfregou os olhos vermelhos e doloridos antes de ir ao escritório organizar materiais de pesquisa.Na noite anterior, esperara até tarde para dormir. O sono era insuficiente, e não demorou muito até adormecer sobre a mesa.Quando abriu os olhos novamente, foi por causa do toque do celular.Era o irmão de Fábio: "Cunhada, o Fábio bebeu demais, poderia vir buscá-lo, por favor?"Gina mexeu o braço dormente, pensou em pedir ao motorista para buscá-lo, mas lembrando que ele tinha o estômago sensível e temendo que outros não cuidassem bem dele, ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer: "Me envie o endereço."No reservado, estavam alguns amigos mais próximos de Fábio.Queen Jardim voltara ao país e organizara um jantar de boas-vindas para ela.Por estar alegre, Fábio havia bebido demais: não apenas aceitou todos os brindes, como também interceptou os que iam para Queen.Deitado no sofá, o rosto do homem ganhava um leve rubor que não diminuía em nada sua beleza, pelo contrário, dava-lhe um charme preguiçoso.Queen fora ao banheiro.Nesse intervalo, alguém cochichou: "O que será que o Fábio quer? Queen voltou e ele faz esse jantar todo especial, mas já está casado. Não é adequado, não?""Casar é casar, sentimento é sentimento. Você realmente acha que o Fábio casou com a Gina por amor...?"Antes que terminasse, Henrique Lima lançou um olhar cortante: "Com tanta comida, ainda conseguem falar tanto?"A interrupção veio tarde demais. Gina, que chegava à porta do reservado, ouvira tudo.Talvez pelo frio, seus dedos estavam meio rígidos.A porta não estava bem fechada. O primeiro a notá-la levantou-se apressado, chamando-a educadamente: "Cunhada!"Logo, vieram outras saudações.Fábio não a amava, mas sempre lhe dera respeito e dignidade, e seus amigos eram sempre muito corteses com ela.Talvez pelo constrangimento do assunto anterior, o ambiente ficou silencioso quando Gina entrou, ninguém disse mais nada.Ela se aproximou e bateu de leve no ombro do homem no sofá: "Fábio, vamos para casa."Fábio mexeu as pálpebras, abriu os olhos e, ao vê-la, esboçou um leve sorriso: "Você veio."O coração congelado de Gina amoleceu um pouco com aquelas três palavras. Perguntou a ele: "Consegue se levantar sozinho?"Fábio ergueu a mão, segurou a dela e se levantou com seu apoio.Ao chegarem à porta, deram de cara com Queen, que estava em sua cadeira de rodas.No encontro de olhares, Gina viu que os dois tinham feições muito parecidas, o que fez arder e apertar ainda mais sua dor.Ela desviou o olhar primeiro."Vai voltar para casa?" Queen sorriu com delicadeza e gentileza. "A culpa é minha. Se não fosse por me proteger das bebidas, Fábio não estaria assim. Desculpe te dar trabalho."Os dedos de Gina se curvaram levemente. Ela inspirou fundo e disse: "Ele é meu marido, não tem esse negócio de dar trabalho."Queen afastou-se, abrindo caminho, ainda com suavidade: "Cuidem-se no caminho."Fábio apoiava-se meio caído em Gina. Ele era alto e forte, e segurá-lo exigia esforço dela.Ao passar pela cadeira de rodas, ele ergueu a mão e bagunçou os cabelos de Queen: "Já organizei tudo na casa, o motorista vai te levar. Quando chegar, me manda uma mensagem."O sorriso de Queen ficou ainda maior: "Tá bom!"Os olhos de Gina arderam, mas ela não afastou Fábio, apenas o ajudou a entrar no carro.Durante o trajeto, Gina permaneceu em silêncio, olhando com distração a paisagem da cidade que passava rapidamente pela janela.Fábio apoiava-se em seu ombro, a respiração suave, um leve cheiro de álcool misturado ao aroma de cedro de sua pele, um perfume só dele.O motorista ajudou a levá-lo para dentro de casa.Gina tirou seu casaco, sapatos e meias. Quando se endireitou para buscar uma toalha quente, teve a mão segurada.Fábio puxou-a para a cama e a envolveu em seus braços.Ele roçou o nariz de leve em seu rosto, a voz rouca e embriagada, cheia de carinho: "Não vai embora."Ele raramente ficava bêbado, e quase nunca mostrava esse lado.Não era o homem distante de sempre, parecia um cão grande e carente.Gina se deixou envolver naquela sensação, não o afastou. Depois de um tempo, porém, sentiu-se sufocada, sufocada por vê-lo cuidar tanto de Queen, jantar de boas-vindas, casa arrumada.Ela ergueu o rosto, desenhou com o olhar o contorno das sobrancelhas e olhos dele e perguntou baixinho: "Fábio, você gosta de mim?""Gosto."Ele manteve os olhos fechados, mas acertou em cheio ao beijar seus olhos.Ele sempre dizia que o que mais amava nela eram os olhos.Gina quis perguntar: você gosta de mim ou da Queen? Mas, antes que pudesse, o celular no bolso dele começou a vibrar.Gina pegou o aparelho: era Ivo Lago ligando.Ultimamente ouvira esse nome, parecia que Fábio tinha alguma parceria com ele.Com medo de ser algo importante, Gina atendeu e colocou o telefone no ouvido de Fábio, empurrando-o levemente: "É o Ivo.""Diretor Marques."O cumprimento veio do outro lado. Fábio, porém, parecia não ouvir, apenas se irritou por terem interrompido seu conforto e apertou a cintura dela, franzindo a testa."Para com isso, Queen."Um balde de água gelada caiu de repente sobre Gina, congelando-a até os ossos, tirando-lhe o fôlego.Do outro lado da linha, perceberam que tinham ligado na hora errada e desligaram, rindo de leve.Gina o empurrou e se levantou. As lágrimas, contidas por todo um dia, finalmente rolaram em grandes gotas.Então, aquele "gosto" era para a Queen?Ele gostava de olhos porque ela e Queen tinham olhos parecidos?Seu coração parecia ser rasgado por uma lâmina, doía tanto que mal conseguia respirar, sangrando internamente."Onde você está?"Sentindo o vazio ao seu lado, Fábio abriu os olhos e viu Gina de costas para ele na beira da cama. Estendeu a mão: "Vem, dorme comigo."Dormir com você? Nunca mais!Quando a tristeza atinge certo limite, vira raiva; e ao extremo, faz perder a razão. Impulsiva, Gina agarrou a caixa de lenços e atirou com força na cabeça dele."Vai dormir com sua musa!""Eu, uma substituta, não mereço seu abraço!"Depois de jogar a caixa de lenços, Gina olhou: Fábio tinha desmaiado.Fábio acordara no dia seguinte com uma dor de cabeça tão intensa que sentia como se sua cabeça tivesse sido aberta ao meio."Gina."Ele a chamou, e não era só a cabeça que doía, sua garganta também estava irritada: "Faça um chá de mel pra mim."Ninguém respondeu.Ele massageou as têmporas e se sentou; a voz da empregada soou do lado de fora da porta: "Senhor, a senhora saiu cedo hoje. O senhor deseja alguma coisa?""Ela disse aonde foi?" Fábio olhou para o espelho da penteadeira; havia um hematoma em sua testa, ainda inchado."Não disse, nem tomou café da manhã."Fábio pediu à empregada uma bolsa de gelo, encostou-se à penteadeira e ligou para Gina. Tentou duas vezes, mas ela não atendeu.Gina deixara o telefone no silencioso, com a tela virada para baixo sobre a mesa.Ela levantou os olhos e encarou a mulher à sua frente: "Me chamar tão cedo assim, não deve ser só pra experimentar a cultura do café da manhã de Cidade Âmbar, né?"Queen foi direta: "Divorcie-se de Fábio."A mão de Gina, repousando sobre o colo, se fechou de repente: "Por quê?""Porque quem ele ama sou eu, não você."Queen sorriu de leve, mas com um tom cortante: "Você não passa de uma substituta. Eu não estando, Fábio só recorreu a você por um tempo. Uma pessoa que não é amada, por que não se retira com dignidade?"No centro da mesa, o copo de leite de soja estava morno e branco, mas o cheiro não era agradável, carregando um forte odor que incomodava.Gina empurrou o copo para longe: "Mesmo que eu deixasse o lugar de Sra. Marques, você não conseguiria ocupá-lo. Você manca, acha que a Família Marques aceitaria você?"Queen ficou visivelmente atingida: "Você…""Além do mais, eu ainda não quero abrir mão do posto de Sra. Marques."Gina fitou os olhos furiosos de Queen, palavra por palavra: "A menos que Fábio venha pessoalmente me pedir o divórcio."Gina não tocou no café da manhã, pegou a bolsa e se levantou. Ao passar por Queen, como se tivesse se lembrado de algo, levou a mão à boca e sussurrou em voz baixa:"Vou te contar um segredo: Fábio, naquela parte, não funciona. Ele é rápido e sem vigor. Provavelmente nem conseguiria acompanhar você com essas pernas. Pense bem na sua felicidade futura."O rosto de Queen escureceu na mesma hora.Ao sair do restaurante, a postura despreocupada de Gina desmoronou em um segundo.Divórcio...Ela não tinha coragem de continuar enfrentando Queen, porque sabia que Fábio não a amava.Por mais profundo que fosse um sentimento, não poderia tocar um coração que não te ama.O dia estava tão frio, parecia que ia nevar. As folhas secas estavam cobertas por uma fina camada de geada e balançavam nos galhos, prestes a cair.Gina entrou no carro e só depois de muito tempo com o aquecedor ligado voltou a sentir calor no corpo.A tela do telefone, ainda no silencioso, se acendeu. Ela olhou, mas não atendeu.As mensagens vieram em sequência.Fábio: "Que bonito, me deixou sozinho na cama, nem cobertor pra me cobrir você deixou."Com o peito apertado de raiva, Gina digitou: "Ficou com frio?"Sem esperar resposta de Fábio, ela acrescentou mais uma: "Pena que não morreu de frio."Talvez por estar irritado, Fábio não respondeu mais.Gina ligou o carro, mas o telefone voltou a acender. Mário Liberal mandou uma mensagem avisando que chegaria de trem-bala à Cidade Âmbar à tarde.Gina parou o carro no acostamento e ligou direto."Pai, por que não avisou antes que vinha? Assim eu poderia organizar sua agenda."Mário respondeu com voz gentil e educada: "Um velho amigo me convidou pra passar uns dias. Não queria incomodar você. Se tiver tempo, vamos almoçar juntos. Se não puder, não tem problema."O relacionamento de Gina com os pais adotivos era estranho.Desde que a adotaram do orfanato, depois que ela perdeu a memória, sempre a trataram bem, mas aquela atenção não era íntima; era sempre educada demais, como se ela fosse uma hóspede temporária, e não da família.Gina achava que talvez fosse porque não era filha biológica, mas, no fim das contas, seus pais adotivos a criaram, e ela sempre foi grata por isso.Gina: "Eu posso, à tarde vou buscá-lo na estação.""E o Fábio? Se ele não estiver ocupado, chame-o também."Ao desligar, Gina sentiu um leve arrependimento pelas mensagens que havia mandado antes.Não podia mais apagá-las, ficou meio constrangida.Mas, no fundo, orgulho é uma coisa que pode ser fina ou grossa, depende de como se ajusta.Gina, fingindo preocupação, mandou outra mensagem: "Não pegou resfriado, né? Tome bastante água quente pra espantar o frio."Capítulo 2"Gina, você já pensou bem? Uma vez que entrar no projeto confidencial, não poderá mais se retirar, todos os contatos com o mundo exterior serão cortados. Tem certeza da sua decisão?"Gina Liberal olhava distraída para o bolo derretido sobre a mesa, sentindo seu coração ser perfurado por agulhas finas, uma dor densa e contínua.Ontem fora seu aniversário. Fábio Marques havia encomendado seu bolo favorito de baunilha, mas desaparecera a noite inteira e não voltara para casa.Ela permaneceu em silêncio por muito tempo.Do outro lado, ouviu um suspiro: "Brigas entre casais acontecem o tempo todo, pense com calma. Se você for, serão três anos longe. Tem certeza de que seu casamento resistirá a essa prova? Ainda falta um mês para definir a lista, pense bem antes de me dar uma resposta."Ao desligar o telefone, Gina voltou os olhos para a foto sobre a mesa.Na foto, o homem tinha um ar nobre e bonito; a moça, delicada e cheia de vida, inclinava-se sorrindo sobre o ombro dele.Ela gostava de Fábio, gostava tanto que, mesmo sabendo que o coração dele pertencia a outra, aceitou sem hesitar quando ele propôs casamento.Pensava que o coração era um frasco de vidro: se ela o enchesse de sinceridade, um dia ele transbordaria.Mas esquecera que, se o frasco não tem fundo, como poderia ser preenchido?Gina esfregou os olhos vermelhos e doloridos antes de ir ao escritório organizar materiais de pesquisa.Na noite anterior, esperara até tarde para dormir. O sono era insuficiente, e não demorou muito até adormecer sobre a mesa.Quando abriu os olhos novamente, foi por causa do toque do celular.Era o irmão de Fábio: "Cunhada, o Fábio bebeu demais, poderia vir buscá-lo, por favor?"Gina mexeu o braço dormente, pensou em pedir ao motorista para buscá-lo, mas lembrando que ele tinha o estômago sensível e temendo que outros não cuidassem bem dele, ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer: "Me envie o endereço."No reservado, estavam alguns amigos mais próximos de Fábio.Queen Jardim voltara ao país e organizara um jantar de boas-vindas para ela.Por estar alegre, Fábio havia bebido demais: não apenas aceitou todos os brindes, como também interceptou os que iam para Queen.Deitado no sofá, o rosto do homem ganhava um leve rubor que não diminuía em nada sua beleza, pelo contrário, dava-lhe um charme preguiçoso.Queen fora ao banheiro.Nesse intervalo, alguém cochichou: "O que será que o Fábio quer? Queen voltou e ele faz esse jantar todo especial, mas já está casado. Não é adequado, não?""Casar é casar, sentimento é sentimento. Você realmente acha que o Fábio casou com a Gina por amor...?"Antes que terminasse, Henrique Lima lançou um olhar cortante: "Com tanta comida, ainda conseguem falar tanto?"A interrupção veio tarde demais. Gina, que chegava à porta do reservado, ouvira tudo.Talvez pelo frio, seus dedos estavam meio rígidos.A porta não estava bem fechada. O primeiro a notá-la levantou-se apressado, chamando-a educadamente: "Cunhada!"Logo, vieram outras saudações.Fábio não a amava, mas sempre lhe dera respeito e dignidade, e seus amigos eram sempre muito corteses com ela.Talvez pelo constrangimento do assunto anterior, o ambiente ficou silencioso quando Gina entrou, ninguém disse mais nada.Ela se aproximou e bateu de leve no ombro do homem no sofá: "Fábio, vamos para casa."Fábio mexeu as pálpebras, abriu os olhos e, ao vê-la, esboçou um leve sorriso: "Você veio."O coração congelado de Gina amoleceu um pouco com aquelas três palavras. Perguntou a ele: "Consegue se levantar sozinho?"Fábio ergueu a mão, segurou a dela e se levantou com seu apoio.Ao chegarem à porta, deram de cara com Queen, que estava em sua cadeira de rodas.No encontro de olhares, Gina viu que os dois tinham feições muito parecidas, o que fez arder e apertar ainda mais sua dor.Ela desviou o olhar primeiro."Vai voltar para casa?" Queen sorriu com delicadeza e gentileza. "A culpa é minha. Se não fosse por me proteger das bebidas, Fábio não estaria assim. Desculpe te dar trabalho."Os dedos de Gina se curvaram levemente. Ela inspirou fundo e disse: "Ele é meu marido, não tem esse negócio de dar trabalho."Queen afastou-se, abrindo caminho, ainda com suavidade: "Cuidem-se no caminho."Fábio apoiava-se meio caído em Gina. Ele era alto e forte, e segurá-lo exigia esforço dela.Ao passar pela cadeira de rodas, ele ergueu a mão e bagunçou os cabelos de Queen: "Já organizei tudo na casa, o motorista vai te levar. Quando chegar, me manda uma mensagem."O sorriso de Queen ficou ainda maior: "Tá bom!"Os olhos de Gina arderam, mas ela não afastou Fábio, apenas o ajudou a entrar no carro.Durante o trajeto, Gina permaneceu em silêncio, olhando com distração a paisagem da cidade que passava rapidamente pela janela.Fábio apoiava-se em seu ombro, a respiração suave, um leve cheiro de álcool misturado ao aroma de cedro de sua pele, um perfume só dele.O motorista ajudou a levá-lo para dentro de casa.Gina tirou seu casaco, sapatos e meias. Quando se endireitou para buscar uma toalha quente, teve a mão segurada.Fábio puxou-a para a cama e a envolveu em seus braços.Ele roçou o nariz de leve em seu rosto, a voz rouca e embriagada, cheia de carinho: "Não vai embora."Ele raramente ficava bêbado, e quase nunca mostrava esse lado.Não era o homem distante de sempre, parecia um cão grande e carente.Gina se deixou envolver naquela sensação, não o afastou. Depois de um tempo, porém, sentiu-se sufocada, sufocada por vê-lo cuidar tanto de Queen, jantar de boas-vindas, casa arrumada.Ela ergueu o rosto, desenhou com o olhar o contorno das sobrancelhas e olhos dele e perguntou baixinho: "Fábio, você gosta de mim?""Gosto."Ele manteve os olhos fechados, mas acertou em cheio ao beijar seus olhos.Ele sempre dizia que o que mais amava nela eram os olhos.Gina quis perguntar: você gosta de mim ou da Queen? Mas, antes que pudesse, o celular no bolso dele começou a vibrar.Gina pegou o aparelho: era Ivo Lago ligando.Ultimamente ouvira esse nome, parecia que Fábio tinha alguma parceria com ele.Com medo de ser algo importante, Gina atendeu e colocou o telefone no ouvido de Fábio, empurrando-o levemente: "É o Ivo.""Diretor Marques."O cumprimento veio do outro lado. Fábio, porém, parecia não ouvir, apenas se irritou por terem interrompido seu conforto e apertou a cintura dela, franzindo a testa."Para com isso, Queen."Um balde de água gelada caiu de repente sobre Gina, congelando-a até os ossos, tirando-lhe o fôlego.Do outro lado da linha, perceberam que tinham ligado na hora errada e desligaram, rindo de leve.Gina o empurrou e se levantou. As lágrimas, contidas por todo um dia, finalmente rolaram em grandes gotas.Então, aquele "gosto" era para a Queen?Ele gostava de olhos porque ela e Queen tinham olhos parecidos?Seu coração parecia ser rasgado por uma lâmina, doía tanto que mal conseguia respirar, sangrando internamente."Onde você está?"Sentindo o vazio ao seu lado, Fábio abriu os olhos e viu Gina de costas para ele na beira da cama. Estendeu a mão: "Vem, dorme comigo."Dormir com você? Nunca mais!Quando a tristeza atinge certo limite, vira raiva; e ao extremo, faz perder a razão. Impulsiva, Gina agarrou a caixa de lenços e atirou com força na cabeça dele."Vai dormir com sua musa!""Eu, uma substituta, não mereço seu abraço!"Depois de jogar a caixa de lenços, Gina olhou: Fábio tinha desmaiado.Fábio acordara no dia seguinte com uma dor de cabeça tão intensa que sentia como se sua cabeça tivesse sido aberta ao meio."Gina."Ele a chamou, e não era só a cabeça que doía, sua garganta também estava irritada: "Faça um chá de mel pra mim."Ninguém respondeu.Ele massageou as têmporas e se sentou; a voz da empregada soou do lado de fora da porta: "Senhor, a senhora saiu cedo hoje. O senhor deseja alguma coisa?""Ela disse aonde foi?" Fábio olhou para o espelho da penteadeira; havia um hematoma em sua testa, ainda inchado."Não disse, nem tomou café da manhã."Fábio pediu à empregada uma bolsa de gelo, encostou-se à penteadeira e ligou para Gina. Tentou duas vezes, mas ela não atendeu.Gina deixara o telefone no silencioso, com a tela virada para baixo sobre a mesa.Ela levantou os olhos e encarou a mulher à sua frente: "Me chamar tão cedo assim, não deve ser só pra experimentar a cultura do café da manhã de Cidade Âmbar, né?"Queen foi direta: "Divorcie-se de Fábio."A mão de Gina, repousando sobre o colo, se fechou de repente: "Por quê?""Porque quem ele ama sou eu, não você."Queen sorriu de leve, mas com um tom cortante: "Você não passa de uma substituta. Eu não estando, Fábio só recorreu a você por um tempo. Uma pessoa que não é amada, por que não se retira com dignidade?"No centro da mesa, o copo de leite de soja estava morno e branco, mas o cheiro não era agradável, carregando um forte odor que incomodava.Gina empurrou o copo para longe: "Mesmo que eu deixasse o lugar de Sra. Marques, você não conseguiria ocupá-lo. Você manca, acha que a Família Marques aceitaria você?"Queen ficou visivelmente atingida: "Você…""Além do mais, eu ainda não quero abrir mão do posto de Sra. Marques."Gina fitou os olhos furiosos de Queen, palavra por palavra: "A menos que Fábio venha pessoalmente me pedir o divórcio."Gina não tocou no café da manhã, pegou a bolsa e se levantou. Ao passar por Queen, como se tivesse se lembrado de algo, levou a mão à boca e sussurrou em voz baixa:"Vou te contar um segredo: Fábio, naquela parte, não funciona. Ele é rápido e sem vigor. Provavelmente nem conseguiria acompanhar você com essas pernas. Pense bem na sua felicidade futura."O rosto de Queen escureceu na mesma hora.Ao sair do restaurante, a postura despreocupada de Gina desmoronou em um segundo.Divórcio...Ela não tinha coragem de continuar enfrentando Queen, porque sabia que Fábio não a amava.Por mais profundo que fosse um sentimento, não poderia tocar um coração que não te ama.O dia estava tão frio, parecia que ia nevar. As folhas secas estavam cobertas por uma fina camada de geada e balançavam nos galhos, prestes a cair.Gina entrou no carro e só depois de muito tempo com o aquecedor ligado voltou a sentir calor no corpo.A tela do telefone, ainda no silencioso, se acendeu. Ela olhou, mas não atendeu.As mensagens vieram em sequência.Fábio: "Que bonito, me deixou sozinho na cama, nem cobertor pra me cobrir você deixou."Com o peito apertado de raiva, Gina digitou: "Ficou com frio?"Sem esperar resposta de Fábio, ela acrescentou mais uma: "Pena que não morreu de frio."Talvez por estar irritado, Fábio não respondeu mais.Gina ligou o carro, mas o telefone voltou a acender. Mário Liberal mandou uma mensagem avisando que chegaria de trem-bala à Cidade Âmbar à tarde.Gina parou o carro no acostamento e ligou direto."Pai, por que não avisou antes que vinha? Assim eu poderia organizar sua agenda."Mário respondeu com voz gentil e educada: "Um velho amigo me convidou pra passar uns dias. Não queria incomodar você. Se tiver tempo, vamos almoçar juntos. Se não puder, não tem problema."O relacionamento de Gina com os pais adotivos era estranho.Desde que a adotaram do orfanato, depois que ela perdeu a memória, sempre a trataram bem, mas aquela atenção não era íntima; era sempre educada demais, como se ela fosse uma hóspede temporária, e não da família.Gina achava que talvez fosse porque não era filha biológica, mas, no fim das contas, seus pais adotivos a criaram, e ela sempre foi grata por isso.Gina: "Eu posso, à tarde vou buscá-lo na estação.""E o Fábio? Se ele não estiver ocupado, chame-o também."Ao desligar, Gina sentiu um leve arrependimento pelas mensagens que havia mandado antes.Não podia mais apagá-las, ficou meio constrangida.Mas, no fundo, orgulho é uma coisa que pode ser fina ou grossa, depende de como se ajusta.Gina, fingindo preocupação, mandou outra mensagem: "Não pegou resfriado, né? Tome bastante água quente pra espantar o frio."Capítulo 3"Gina, você já pensou bem? Uma vez que entrar no projeto confidencial, não poderá mais se retirar, todos os contatos com o mundo exterior serão cortados. Tem certeza da sua decisão?"Gina Liberal olhava distraída para o bolo derretido sobre a mesa, sentindo seu coração ser perfurado por agulhas finas, uma dor densa e contínua.Ontem fora seu aniversário. Fábio Marques havia encomendado seu bolo favorito de baunilha, mas desaparecera a noite inteira e não voltara para casa.Ela permaneceu em silêncio por muito tempo.Do outro lado, ouviu um suspiro: "Brigas entre casais acontecem o tempo todo, pense com calma. Se você for, serão três anos longe. Tem certeza de que seu casamento resistirá a essa prova? Ainda falta um mês para definir a lista, pense bem antes de me dar uma resposta."Ao desligar o telefone, Gina voltou os olhos para a foto sobre a mesa.Na foto, o homem tinha um ar nobre e bonito; a moça, delicada e cheia de vida, inclinava-se sorrindo sobre o ombro dele.Ela gostava de Fábio, gostava tanto que, mesmo sabendo que o coração dele pertencia a outra, aceitou sem hesitar quando ele propôs casamento.Pensava que o coração era um frasco de vidro: se ela o enchesse de sinceridade, um dia ele transbordaria.Mas esquecera que, se o frasco não tem fundo, como poderia ser preenchido?Gina esfregou os olhos vermelhos e doloridos antes de ir ao escritório organizar materiais de pesquisa.Na noite anterior, esperara até tarde para dormir. O sono era insuficiente, e não demorou muito até adormecer sobre a mesa.Quando abriu os olhos novamente, foi por causa do toque do celular.Era o irmão de Fábio: "Cunhada, o Fábio bebeu demais, poderia vir buscá-lo, por favor?"Gina mexeu o braço dormente, pensou em pedir ao motorista para buscá-lo, mas lembrando que ele tinha o estômago sensível e temendo que outros não cuidassem bem dele, ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer: "Me envie o endereço."No reservado, estavam alguns amigos mais próximos de Fábio.Queen Jardim voltara ao país e organizara um jantar de boas-vindas para ela.Por estar alegre, Fábio havia bebido demais: não apenas aceitou todos os brindes, como também interceptou os que iam para Queen.Deitado no sofá, o rosto do homem ganhava um leve rubor que não diminuía em nada sua beleza, pelo contrário, dava-lhe um charme preguiçoso.Queen fora ao banheiro.Nesse intervalo, alguém cochichou: "O que será que o Fábio quer? Queen voltou e ele faz esse jantar todo especial, mas já está casado. Não é adequado, não?""Casar é casar, sentimento é sentimento. Você realmente acha que o Fábio casou com a Gina por amor...?"Antes que terminasse, Henrique Lima lançou um olhar cortante: "Com tanta comida, ainda conseguem falar tanto?"A interrupção veio tarde demais. Gina, que chegava à porta do reservado, ouvira tudo.Talvez pelo frio, seus dedos estavam meio rígidos.A porta não estava bem fechada. O primeiro a notá-la levantou-se apressado, chamando-a educadamente: "Cunhada!"Logo, vieram outras saudações.Fábio não a amava, mas sempre lhe dera respeito e dignidade, e seus amigos eram sempre muito corteses com ela.Talvez pelo constrangimento do assunto anterior, o ambiente ficou silencioso quando Gina entrou, ninguém disse mais nada.Ela se aproximou e bateu de leve no ombro do homem no sofá: "Fábio, vamos para casa."Fábio mexeu as pálpebras, abriu os olhos e, ao vê-la, esboçou um leve sorriso: "Você veio."O coração congelado de Gina amoleceu um pouco com aquelas três palavras. Perguntou a ele: "Consegue se levantar sozinho?"Fábio ergueu a mão, segurou a dela e se levantou com seu apoio.Ao chegarem à porta, deram de cara com Queen, que estava em sua cadeira de rodas.No encontro de olhares, Gina viu que os dois tinham feições muito parecidas, o que fez arder e apertar ainda mais sua dor.Ela desviou o olhar primeiro."Vai voltar para casa?" Queen sorriu com delicadeza e gentileza. "A culpa é minha. Se não fosse por me proteger das bebidas, Fábio não estaria assim. Desculpe te dar trabalho."Os dedos de Gina se curvaram levemente. Ela inspirou fundo e disse: "Ele é meu marido, não tem esse negócio de dar trabalho."Queen afastou-se, abrindo caminho, ainda com suavidade: "Cuidem-se no caminho."Fábio apoiava-se meio caído em Gina. Ele era alto e forte, e segurá-lo exigia esforço dela.Ao passar pela cadeira de rodas, ele ergueu a mão e bagunçou os cabelos de Queen: "Já organizei tudo na casa, o motorista vai te levar. Quando chegar, me manda uma mensagem."O sorriso de Queen ficou ainda maior: "Tá bom!"Os olhos de Gina arderam, mas ela não afastou Fábio, apenas o ajudou a entrar no carro.Durante o trajeto, Gina permaneceu em silêncio, olhando com distração a paisagem da cidade que passava rapidamente pela janela.Fábio apoiava-se em seu ombro, a respiração suave, um leve cheiro de álcool misturado ao aroma de cedro de sua pele, um perfume só dele.O motorista ajudou a levá-lo para dentro de casa.Gina tirou seu casaco, sapatos e meias. Quando se endireitou para buscar uma toalha quente, teve a mão segurada.Fábio puxou-a para a cama e a envolveu em seus braços.Ele roçou o nariz de leve em seu rosto, a voz rouca e embriagada, cheia de carinho: "Não vai embora."Ele raramente ficava bêbado, e quase nunca mostrava esse lado.Não era o homem distante de sempre, parecia um cão grande e carente.Gina se deixou envolver naquela sensação, não o afastou. Depois de um tempo, porém, sentiu-se sufocada, sufocada por vê-lo cuidar tanto de Queen, jantar de boas-vindas, casa arrumada.Ela ergueu o rosto, desenhou com o olhar o contorno das sobrancelhas e olhos dele e perguntou baixinho: "Fábio, você gosta de mim?""Gosto."Ele manteve os olhos fechados, mas acertou em cheio ao beijar seus olhos.Ele sempre dizia que o que mais amava nela eram os olhos.Gina quis perguntar: você gosta de mim ou da Queen? Mas, antes que pudesse, o celular no bolso dele começou a vibrar.Gina pegou o aparelho: era Ivo Lago ligando.Ultimamente ouvira esse nome, parecia que Fábio tinha alguma parceria com ele.Com medo de ser algo importante, Gina atendeu e colocou o telefone no ouvido de Fábio, empurrando-o levemente: "É o Ivo.""Diretor Marques."O cumprimento veio do outro lado. Fábio, porém, parecia não ouvir, apenas se irritou por terem interrompido seu conforto e apertou a cintura dela, franzindo a testa."Para com isso, Queen."Um balde de água gelada caiu de repente sobre Gina, congelando-a até os ossos, tirando-lhe o fôlego.Do outro lado da linha, perceberam que tinham ligado na hora errada e desligaram, rindo de leve.Gina o empurrou e se levantou. As lágrimas, contidas por todo um dia, finalmente rolaram em grandes gotas.Então, aquele "gosto" era para a Queen?Ele gostava de olhos porque ela e Queen tinham olhos parecidos?Seu coração parecia ser rasgado por uma lâmina, doía tanto que mal conseguia respirar, sangrando internamente."Onde você está?"Sentindo o vazio ao seu lado, Fábio abriu os olhos e viu Gina de costas para ele na beira da cama. Estendeu a mão: "Vem, dorme comigo."Dormir com você? Nunca mais!Quando a tristeza atinge certo limite, vira raiva; e ao extremo, faz perder a razão. Impulsiva, Gina agarrou a caixa de lenços e atirou com força na cabeça dele."Vai dormir com sua musa!""Eu, uma substituta, não mereço seu abraço!"Depois de jogar a caixa de lenços, Gina olhou: Fábio tinha desmaiado.Fábio acordara no dia seguinte com uma dor de cabeça tão intensa que sentia como se sua cabeça tivesse sido aberta ao meio."Gina."Ele a chamou, e não era só a cabeça que doía, sua garganta também estava irritada: "Faça um chá de mel pra mim."Ninguém respondeu.Ele massageou as têmporas e se sentou; a voz da empregada soou do lado de fora da porta: "Senhor, a senhora saiu cedo hoje. O senhor deseja alguma coisa?""Ela disse aonde foi?" Fábio olhou para o espelho da penteadeira; havia um hematoma em sua testa, ainda inchado."Não disse, nem tomou café da manhã."Fábio pediu à empregada uma bolsa de gelo, encostou-se à penteadeira e ligou para Gina. Tentou duas vezes, mas ela não atendeu.Gina deixara o telefone no silencioso, com a tela virada para baixo sobre a mesa.Ela levantou os olhos e encarou a mulher à sua frente: "Me chamar tão cedo assim, não deve ser só pra experimentar a cultura do café da manhã de Cidade Âmbar, né?"Queen foi direta: "Divorcie-se de Fábio."A mão de Gina, repousando sobre o colo, se fechou de repente: "Por quê?""Porque quem ele ama sou eu, não você."Queen sorriu de leve, mas com um tom cortante: "Você não passa de uma substituta. Eu não estando, Fábio só recorreu a você por um tempo. Uma pessoa que não é amada, por que não se retira com dignidade?"No centro da mesa, o copo de leite de soja estava morno e branco, mas o cheiro não era agradável, carregando um forte odor que incomodava.Gina empurrou o copo para longe: "Mesmo que eu deixasse o lugar de Sra. Marques, você não conseguiria ocupá-lo. Você manca, acha que a Família Marques aceitaria você?"Queen ficou visivelmente atingida: "Você…""Além do mais, eu ainda não quero abrir mão do posto de Sra. Marques."Gina fitou os olhos furiosos de Queen, palavra por palavra: "A menos que Fábio venha pessoalmente me pedir o divórcio."Gina não tocou no café da manhã, pegou a bolsa e se levantou. Ao passar por Queen, como se tivesse se lembrado de algo, levou a mão à boca e sussurrou em voz baixa:"Vou te contar um segredo: Fábio, naquela parte, não funciona. Ele é rápido e sem vigor. Provavelmente nem conseguiria acompanhar você com essas pernas. Pense bem na sua felicidade futura."O rosto de Queen escureceu na mesma hora.Ao sair do restaurante, a postura despreocupada de Gina desmoronou em um segundo.Divórcio...Ela não tinha coragem de continuar enfrentando Queen, porque sabia que Fábio não a amava.Por mais profundo que fosse um sentimento, não poderia tocar um coração que não te ama.O dia estava tão frio, parecia que ia nevar. As folhas secas estavam cobertas por uma fina camada de geada e balançavam nos galhos, prestes a cair.Gina entrou no carro e só depois de muito tempo com o aquecedor ligado voltou a sentir calor no corpo.A tela do telefone, ainda no silencioso, se acendeu. Ela olhou, mas não atendeu.As mensagens vieram em sequência.Fábio: "Que bonito, me deixou sozinho na cama, nem cobertor pra me cobrir você deixou."Com o peito apertado de raiva, Gina digitou: "Ficou com frio?"Sem esperar resposta de Fábio, ela acrescentou mais uma: "Pena que não morreu de frio."Talvez por estar irritado, Fábio não respondeu mais.Gina ligou o carro, mas o telefone voltou a acender. Mário Liberal mandou uma mensagem avisando que chegaria de trem-bala à Cidade Âmbar à tarde.Gina parou o carro no acostamento e ligou direto."Pai, por que não avisou antes que vinha? Assim eu poderia organizar sua agenda."Mário respondeu com voz gentil e educada: "Um velho amigo me convidou pra passar uns dias. Não queria incomodar você. Se tiver tempo, vamos almoçar juntos. Se não puder, não tem problema."O relacionamento de Gina com os pais adotivos era estranho.Desde que a adotaram do orfanato, depois que ela perdeu a memória, sempre a trataram bem, mas aquela atenção não era íntima; era sempre educada demais, como se ela fosse uma hóspede temporária, e não da família.Gina achava que talvez fosse porque não era filha biológica, mas, no fim das contas, seus pais adotivos a criaram, e ela sempre foi grata por isso.Gina: "Eu posso, à tarde vou buscá-lo na estação.""E o Fábio? Se ele não estiver ocupado, chame-o também."Ao desligar, Gina sentiu um leve arrependimento pelas mensagens que havia mandado antes.Não podia mais apagá-las, ficou meio constrangida.Mas, no fundo, orgulho é uma coisa que pode ser fina ou grossa, depende de como se ajusta.Gina, fingindo preocupação, mandou outra mensagem: "Não pegou resfriado, né? Tome bastante água quente pra espantar o frio."

Continue lendo