Capítulo 1Grupo Horizonte.Poliana Tavares terminou seu trabalho apenas às oito da noite.Ela suportou o cansaço, arrumou-se de maneira simples e correu apressadamente para fora do escritório.Assim que chegou ao térreo do prédio da empresa, recebeu uma ligação do representante de sua turma da universidade. "Alô, Poliana, onde você está? Só falta você para completar a turma.""Desculpe, estou chegando em breve."Naquela noite, celebrava-se o terceiro aniversário de formatura de sua turma, e o local escolhido foi o clube de entretenimento mais sofisticado de Rio Dourado.Ela se atrasou sem querer, mas, felizmente, o clube ficava bem próximo da empresa, sendo apenas alguns minutos de corrida de aplicativo.Após desligar o telefone, Poliana imediatamente entrou no veículo que já havia solicitado, repetindo ao motorista o endereço.Depois de um dia inteiro de trabalho, ela estava exausta e queria esvaziar a mente por um instante, mas, ao fechar os olhos, seu celular imediatamente emitiu um alerta.Poliana pegou o aparelho e viu que era uma mensagem da tia materna.[Desta vez o pretendente que estou te apresentando tem ótimas condições. A família dele tem vários imóveis em Rio Dourado. Para ser sincera, ele já tem trinta e sete anos, foi casado uma vez e tem um filho, mas, mesmo assim, há muita gente querendo apresentá-lo a outras mulheres. Ele escolheu você. Amanhã é sábado, você pode conhecê-lo?]Logo em seguida, a mulher enviou um contato do WhatsApp.Poliana nem chegou a abrir o contato, respondeu prontamente: [Tia, já tenho alguém de quem gosto.]A outra parte achou que ela estava apenas enrolando e imediatamente mandou um áudio.Poliana diminuiu o volume do celular ao mínimo e apertou o play, mas ainda assim pôde perceber a irritação na voz da tia."No ano em que você se formou, eu já queria te apresentar alguém e você disse a mesma coisa. Já se passaram anos, você nunca trouxe ninguém para conhecer a família, nem sequer nos contou o nome dele. Quem guarda segredo tão bem quanto você? Se seus pais não tivessem partido tão cedo, você acha que eu ficaria me preocupando desse jeito? Pois bem, toda vez você rejeita minhas boas intenções, inventando desculpas para me enganar."Poliana baixou o olhar, pensando que nunca mentiu para ela.De fato, ela gostava de alguém.Desde os dezessete até os vinte e cinco anos.Num instante de distração, mais áudios começaram a chegar em sequência."Seja honesta, nesses dez anos desde que seus pais se foram, eu e seu tio cuidamos bem de você ou não? Você comeu em nossa casa, morou conosco, ainda pagamos seus estudos. Aquele cursinho no terceiro ano do ensino médio custava duzentos ou trezentos reais por hora. Ao longo desses anos, seu tio sempre teve medo que você fosse prejudicada. Tudo o que minha filha tinha, você também teve. Reflita sobre isso, está bem?""Agora seu tio está com dificuldades nos negócios. O pretendente que estou te apresentando é um conhecido do seu tio nos negócios. Ele já viu suas fotos e gostou de você. Se você se casar com ele, poderá ajudar nos negócios da família.""Um homem com tantas qualidades, por que você é tão teimosa?""…"Havia ainda mais áudios, mas Poliana não os ouviu.Ela retornou a ligação para a mulher, respondendo de forma concisa: "Tia, o homem de quem gosto também é uma ótima pessoa. Nós… já estamos namorando."Um mês antes, ela havia começado um relacionamento com o homem por quem foi apaixonada durante oito anos.Poliana esforçou-se para conter a emoção no coração.A mulher, desconfiada e insatisfeita, perguntou: "Desde quando isso? Quais são as condições dele?"Quais as condições dele?Ele não lhe faltava nada: era rico, influente e ainda possuía uma aparência encantadora.Ele era como um veneno coberto de mel, do qual se sabia do perigo, mas que, ainda assim, era impossível resistir.Ela e Benício Pacheco eram pessoas totalmente distintas.Ela era tão calma e reservada que passava despercebida.Ainda assim, há um mês, os dois começaram a namorar."Diga logo! Quem é ele, afinal?"Poliana respondeu: "Ele foi meu colega no ensino médio. Depois, passamos na mesma universidade, no mesmo curso, e ficamos na mesma turma.""Tudo isso aconteceu por acaso?"Poliana sorriu, ironicamente.Na verdade, não foi por acaso."Ele é muito rico."Essa era a informação que sua tia realmente queria ouvir.Como era esperado, a voz da tia tornou-se mais animada: "Então ele também está na sua reunião de formandos hoje à noite? Amanhã é sábado, traga ele em casa para conhecê-lo. Precisa passar pela minha aprovação antes."Poliana achou que um mês de namoro era cedo para apresentar à família.Mas, depois de tantos anos mantendo esse amor em segredo, finalmente havia uma chance de mostrá-lo ao mundo; como dizer que era cedo demais?Ela cedeu: "Vou perguntar a opinião dele depois."A tia, então, encerrou a ligação, não muito satisfeita.Após sair do carro, Poliana correu em direção ao camarote reservado.A reunião estava em seu ápice.No momento em que Poliana abriu a porta, todos os olhares se voltaram para ela, acompanhados de brincadeiras."Uau, a estrela da noite chegou!""Que linda!""Claro, né? Se não fosse bonita, estaria ao lado do nosso Benício?""…"Aquela estudante que gostava de se esconder nos cantos agora estava no centro das atenções, graças ao título de "namorada do Benício".Poliana ainda não se sentia totalmente à vontade, suas mãos ao lado do corpo se fecharam involuntariamente.Quando cruzou o olhar com Benício, ela desviou instintivamente.O homem vestia roupas casuais; nem mesmo o suéter cinza-claro conseguia esconder seus ombros largos e cintura fina. Sentado de forma relaxada no sofá, seu ar distante e despreocupado era chamativo demais.Ele olhou para a mulher tímida, apagou o cigarro, curvou levemente os lábios e, batendo com a mão na própria perna direita, disse: "Venha, sente-se aqui."O coração de Poliana disparou sem motivo, e ela caminhou de forma um pouco hesitante.Seu jeito reservado não a permitia sentar-se no colo dele diante de todos, mas acabou sentando-se ao lado.Benício pegou um pedaço de fruta e levou à boca dela. Sua voz soou como uma brisa suave em seu ouvido: "Se esse trabalho te cansa tanto, melhor largar tudo. Daqui para frente, eu cuido de você."Os outros, ao ouvirem aquelas palavras, demonstraram um olhar de inveja.Benício era assim.Com uma simples frase, um gesto ou até mesmo um olhar, conseguia atrair as pessoas para si, fazendo com que se lançassem atrás dele sem hesitar.No entanto, Poliana era de temperamento reservado e, diante das insinuações dele, mantinha-se correta e um tanto insossa."Não precisa, eu... eu estou bem com o meu trabalho", respondeu ela.Poliana pensou que muitas pessoas dariam tudo para conseguir entrar em uma empresa de ponta como o Grupo Horizonte.Benício sorriu levemente: "Então, o que este namorado pode fazer por você? Não posso ser apenas um enfeite, não é?"A relação deles não era íntima.Depois de um mês juntos, nem sequer haviam trocado um beijo.Benício jamais tivera um relacionamento tão casto.Poliana sentia-se um pouco perdida, mas naquele instante, Benício levantou-se.Ele afagou a cabeça dela e disse: "Vou lá fora atender um telefonema."Poliana assentiu obedientemente.Assim que Benício saiu do camarote, uma voz feminina, carregada de sarcasmo, soou ao lado dela."Poliana, você não vai me dizer que acredita mesmo que o Benício gosta de você, né? Ele só está se divertindo, logo vai te largar!"Quem falava era Melissa Barreiros, colega de faculdade de Poliana.Ela tinha bebido demais naquela noite.O cheiro de álcool era forte e o rosto dela estava completamente vermelho.Poliana levantou o olhar, sem demonstrar emoção, e encarou calmamente a mulher à sua frente.Durante a faculdade, Poliana e Melissa já haviam tido alguns desentendimentos e, após a formatura, nunca mais se falaram.Melissa gostava de Benício.Na época da faculdade, já haviam circulado muitos boatos envolvendo os dois.Ao lembrar-se do olhar carinhoso e protetor de Benício para Poliana, Melissa sentiu-se tomada por um ciúme quase enlouquecedor.Num impulso, pegou o celular e reproduziu uma gravação."Escuta só o quanto você não vale nada para o Benício!"Sem qualquer aviso, Poliana sentiu como se tivesse levado uma pancada forte na cabeça.A gravação começava com a voz de um dos amigos próximos de Benício."Benício, já terminou com a última tão rápido assim?"O coração de Poliana afundou. Antes que ela pudesse reagir, ouviu a voz impaciente de Benício."Cansei, terminei.""Se cansou, troca por outro tipo, ué. Já pensou em tentar uma certinha? Você nunca ficou com uma dessas!"Benício respondeu: "Não tenho interesse.""Tá com medo de não dar conta de uma certinha?""Que absurdo, não existe mulher que Benício não conquiste. Vamos apostar: você escolhe um alvo para o Benício. Se em três dias ele não conseguir, eu me ajoelho e te chamo de mestre!""......"Melissa, sem se importar com nada, causava tumulto, e o camarote que antes estava animado, subitamente ficou em silêncio total.Todos passaram a prestar atenção na gravação, logo compreendendo o que estava acontecendo. Os olhares que antes eram de admiração para Poliana, agora carregavam compaixão e até desprezo.Diversos ruídos e comentários invadiram a mente de Poliana, mas ela parecia uma máquina capaz de filtrar tudo, ouvindo apenas o tom debochado e desleixado dele."Aquela Poliana?""Três dias e está feito.""Se eu não conseguir, nunca mais corro de carro.""......"Benício fora o piloto de F1 mais jovem do país. As corridas eram sua maior paixão, seu propósito de vida.Poliana pensou que ele realmente era ousado nas apostas.Para ele, aquilo realmente não era desafio algum.Na verdade, nem precisara de três dias.Em poucas horas, ele já a havia conquistado.Como Melissa dissera, ela realmente era desprezível.Somente naquele momento, Poliana compreendeu que aquele amor, que ela pensava ser iluminado por um raio de esperança, não passava de uma aposta feita por puro capricho dele.Poliana apertou com força o copo de vidro nas mãos, os dedos ficaram esbranquiçados.A gravação continuava."Poliana... Tenho alguma lembrança dela, certinha, mas bem fria também.""Benício, se você conseguir, grava um vídeo. Quero ver se uma mulher tão sem graça consegue reagir com você!""Benício..."Quando as palavras começaram a se tornar ainda mais ofensivas, uma mão tomou o celular de Melissa de repente.A gravação cessou imediatamente.O silêncio no camarote era absoluto, dava para ouvir um alfinete cair.Poliana achava que, naquele momento, ao olhar para o rosto de Benício, o mundo desabaria.No entanto, surpreendentemente, ela não conseguiu derramar uma única lágrima.Ela esboçou um sorriso autodepreciativo, levantou-se lentamente, ergueu o rosto e, palavra por palavra, encarou o homem que, mesmo exposto, mantinha-se sereno."Parabéns, você venceu."Venceu completamente.Após dizer isso, Poliana não se despediu de ninguém e saiu do camarote caminhando com passos firmes.Aquela silhueta magra, parecendo fugir desesperadamente, transmitia uma imagem de pura tristeza.No meio da multidão, alguém comentou casualmente: "Benício, não vai se explicar?"Benício permaneceu imóvel, olhando na direção por onde a mulher havia saído, e riu de leve, com ironia.Ora, isso é que era uma certinha?Parecia comportada, mas era bem teimosa.Sentou-se novamente no sofá, tomou um gole de bebida e, em questão de segundos, já havia recuperado o habitual ar confiante: "Explicar o quê? Era só uma aposta mesmo."Alguém por dentro da história logo aproveitou para comentar: "Acho que alguns aqui ainda não sabem, né? A Poliana gosta do Benício há oito anos. Se o Benício estalar os dedos, ela volta correndo. Duvidam? Esperem pra ver!""Então, vamos apostar de novo! Benício, ainda tem coragem?"Benício permaneceu quieto.Embora sempre fosse o centro das atenções, naquela noite parecia deslocado daquela cena.Ninguém sabia quanto tempo se passara, até que, quando todos já pensavam que o silêncio dele significava o fim daquela história, ele largou o copo, desenhou um leve sorriso nos lábios, despreocupado.E respondeu apenas uma palavra:"Aposto."Noite profunda de inverno, a luz dos postes exalava um brilho amarelado, refletindo a neve fina que caía intensamente do céu.Poliana mantinha as mãos nos bolsos do sobretudo, claramente tremendo de frio, mas continuava parada na calçada sem se mover. Vários táxis, ao passarem por ela, até pararam de propósito, mas ela apenas balançava a cabeça sem rumo.De repente, o celular em seu bolso vibrou.Poliana retirou o aparelho um pouco atrasada e olhou rapidamente...Era uma mensagem do gerente de projeto pelo WhatsApp.“O projeto do Distrito Nova Esperança apresentou problemas na integração. Refaça o orçamento e a proposta de parceria. Antes do fim do expediente amanhã... não, envie pra mim amanhã de manhã. Esse projeto é em parceria com a prefeitura de Rio Dourado, o chefe está dando muita importância.”Poliana finalmente voltou a si e respondeu, sem expressão no rosto: “Entendido.”Após enviar a mensagem, ela chamou um táxi: “Para o Grupo Horizonte.”No curto trajeto, o celular não parou de vibrar. Poliana sentia a cabeça prestes a explodir; enquanto respondia ao gerente pelo WhatsApp, ainda precisava lidar com as insinuações da tia.“E então? Amanhã você vai levar seu namorado pra casa, não vai?”Namorado.Ao ouvir essas três sílabas, uma sensação amarga, ácida, tomou conta dela, vindo à tona só depois de algum tempo.Poliana apertou o telefone, sentindo como se um espinho estivesse preso na garganta, sem saber o que responder de imediato.Do outro lado, a mulher logo percebeu: “Você não conseguiu resolver com ele, não é? Nesse caso, faça o que eu digo: amanhã vá conhecer o rapaz que estou te indicando. Ontem mesmo seu tio e eu jantamos com ele, ele é ótimo, até me presenteou com uma bolsa da Hermès!”O coração de Poliana gelou pela metade.“Você aceitou o presente dele?”A mulher parecia achar estranha a indignação dela: “E daí se aceitei? Logo seremos uma família, por que tanto estranhamento?”Além disso, não foi só uma bolsa da Hermès que recebeu.Se ela não se casasse, a situação ficaria difícil de resolver.“Querendo ou não, você vai ter que casar. Seu tio e eu te criamos tantos anos, já está na hora de você retribuir. Sem contar que escolhemos essa pessoa a dedo pra você. Casar com ele é uma sorte pra você. Entendeu?”Poliana inspirou fundo e permaneceu em silêncio.Depois de ouvir as reclamações durante todo o caminho, sem perceber, já havia chegado à empresa.Ela desceu do carro cabisbaixa, caminhou até o hall dos elevadores e apertou o botão sem pensar.Um homem alto a seguiu calmamente e entrou no elevador, mas Poliana nem olhou para ele, ficando de costas, encostada no canto perto dos botões.A mente de Poliana parecia apertada por um feitiço, doendo tanto que nem percebeu que apertou o botão do andar errado.O homem atrás dela semicerrava os olhos, observando cada movimento.“No fim das contas, mulher tem que dar prioridade ao casamento, à família. Pare de se dedicar tanto a esse trabalho inútil. Você já tem vinte e cinco anos, já está ficando velha. Daqui a alguns anos, quem vai querer você? Homem bom e bem de vida só gosta de mulher jovem e bonita.”“Me escute, peça demissão ainda este mês. Assim você terá tempo pra se dedicar a conhecer alguém direito.”Poliana sempre demonstrou pouco as emoções, preferindo guardar tudo no coração.Mas as emoções acumuladas ao longo dos anos, assim como a neve fina sobre os galhos, de início leves, de repente a esmagaram até não aguentar mais.Ela finalmente não pôde mais suportar.“Eu não vou pedir demissão.”“Seu chefe salvou a sua vida na outra encarnação, é? Pra você trabalhar tanto pra ele agora? Essa semana você já fez hora extra até de madrugada duas, três vezes! Sempre que eu preciso de você, você usa o trabalho como desculpa.”Poliana respondeu de propósito: “É voluntário, eu amo trabalhar. Quero passar minha vida toda nisso, me sacrificando por ele.”Ao ouvir isso, o homem atrás dela soltou um leve riso.Poliana, porém, continuava alheia.“Por que você é tão difícil?” A voz da mulher se elevou, e no espaço pequeno e fechado, mesmo sem viva-voz, qualquer um ao lado podia ouvir claramente: “O que é mais importante, seu marido ou seu chefe? Você quer passar a vida com seu marido ou com seu chefe?”Capítulo 2Grupo Horizonte.Poliana Tavares terminou seu trabalho apenas às oito da noite.Ela suportou o cansaço, arrumou-se de maneira simples e correu apressadamente para fora do escritório.Assim que chegou ao térreo do prédio da empresa, recebeu uma ligação do representante de sua turma da universidade. "Alô, Poliana, onde você está? Só falta você para completar a turma.""Desculpe, estou chegando em breve."Naquela noite, celebrava-se o terceiro aniversário de formatura de sua turma, e o local escolhido foi o clube de entretenimento mais sofisticado de Rio Dourado.Ela se atrasou sem querer, mas, felizmente, o clube ficava bem próximo da empresa, sendo apenas alguns minutos de corrida de aplicativo.Após desligar o telefone, Poliana imediatamente entrou no veículo que já havia solicitado, repetindo ao motorista o endereço.Depois de um dia inteiro de trabalho, ela estava exausta e queria esvaziar a mente por um instante, mas, ao fechar os olhos, seu celular imediatamente emitiu um alerta.Poliana pegou o aparelho e viu que era uma mensagem da tia materna.[Desta vez o pretendente que estou te apresentando tem ótimas condições. A família dele tem vários imóveis em Rio Dourado. Para ser sincera, ele já tem trinta e sete anos, foi casado uma vez e tem um filho, mas, mesmo assim, há muita gente querendo apresentá-lo a outras mulheres. Ele escolheu você. Amanhã é sábado, você pode conhecê-lo?]Logo em seguida, a mulher enviou um contato do WhatsApp.Poliana nem chegou a abrir o contato, respondeu prontamente: [Tia, já tenho alguém de quem gosto.]A outra parte achou que ela estava apenas enrolando e imediatamente mandou um áudio.Poliana diminuiu o volume do celular ao mínimo e apertou o play, mas ainda assim pôde perceber a irritação na voz da tia."No ano em que você se formou, eu já queria te apresentar alguém e você disse a mesma coisa. Já se passaram anos, você nunca trouxe ninguém para conhecer a família, nem sequer nos contou o nome dele. Quem guarda segredo tão bem quanto você? Se seus pais não tivessem partido tão cedo, você acha que eu ficaria me preocupando desse jeito? Pois bem, toda vez você rejeita minhas boas intenções, inventando desculpas para me enganar."Poliana baixou o olhar, pensando que nunca mentiu para ela.De fato, ela gostava de alguém.Desde os dezessete até os vinte e cinco anos.Num instante de distração, mais áudios começaram a chegar em sequência."Seja honesta, nesses dez anos desde que seus pais se foram, eu e seu tio cuidamos bem de você ou não? Você comeu em nossa casa, morou conosco, ainda pagamos seus estudos. Aquele cursinho no terceiro ano do ensino médio custava duzentos ou trezentos reais por hora. Ao longo desses anos, seu tio sempre teve medo que você fosse prejudicada. Tudo o que minha filha tinha, você também teve. Reflita sobre isso, está bem?""Agora seu tio está com dificuldades nos negócios. O pretendente que estou te apresentando é um conhecido do seu tio nos negócios. Ele já viu suas fotos e gostou de você. Se você se casar com ele, poderá ajudar nos negócios da família.""Um homem com tantas qualidades, por que você é tão teimosa?""…"Havia ainda mais áudios, mas Poliana não os ouviu.Ela retornou a ligação para a mulher, respondendo de forma concisa: "Tia, o homem de quem gosto também é uma ótima pessoa. Nós… já estamos namorando."Um mês antes, ela havia começado um relacionamento com o homem por quem foi apaixonada durante oito anos.Poliana esforçou-se para conter a emoção no coração.A mulher, desconfiada e insatisfeita, perguntou: "Desde quando isso? Quais são as condições dele?"Quais as condições dele?Ele não lhe faltava nada: era rico, influente e ainda possuía uma aparência encantadora.Ele era como um veneno coberto de mel, do qual se sabia do perigo, mas que, ainda assim, era impossível resistir.Ela e Benício Pacheco eram pessoas totalmente distintas.Ela era tão calma e reservada que passava despercebida.Ainda assim, há um mês, os dois começaram a namorar."Diga logo! Quem é ele, afinal?"Poliana respondeu: "Ele foi meu colega no ensino médio. Depois, passamos na mesma universidade, no mesmo curso, e ficamos na mesma turma.""Tudo isso aconteceu por acaso?"Poliana sorriu, ironicamente.Na verdade, não foi por acaso."Ele é muito rico."Essa era a informação que sua tia realmente queria ouvir.Como era esperado, a voz da tia tornou-se mais animada: "Então ele também está na sua reunião de formandos hoje à noite? Amanhã é sábado, traga ele em casa para conhecê-lo. Precisa passar pela minha aprovação antes."Poliana achou que um mês de namoro era cedo para apresentar à família.Mas, depois de tantos anos mantendo esse amor em segredo, finalmente havia uma chance de mostrá-lo ao mundo; como dizer que era cedo demais?Ela cedeu: "Vou perguntar a opinião dele depois."A tia, então, encerrou a ligação, não muito satisfeita.Após sair do carro, Poliana correu em direção ao camarote reservado.A reunião estava em seu ápice.No momento em que Poliana abriu a porta, todos os olhares se voltaram para ela, acompanhados de brincadeiras."Uau, a estrela da noite chegou!""Que linda!""Claro, né? Se não fosse bonita, estaria ao lado do nosso Benício?""…"Aquela estudante que gostava de se esconder nos cantos agora estava no centro das atenções, graças ao título de "namorada do Benício".Poliana ainda não se sentia totalmente à vontade, suas mãos ao lado do corpo se fecharam involuntariamente.Quando cruzou o olhar com Benício, ela desviou instintivamente.O homem vestia roupas casuais; nem mesmo o suéter cinza-claro conseguia esconder seus ombros largos e cintura fina. Sentado de forma relaxada no sofá, seu ar distante e despreocupado era chamativo demais.Ele olhou para a mulher tímida, apagou o cigarro, curvou levemente os lábios e, batendo com a mão na própria perna direita, disse: "Venha, sente-se aqui."O coração de Poliana disparou sem motivo, e ela caminhou de forma um pouco hesitante.Seu jeito reservado não a permitia sentar-se no colo dele diante de todos, mas acabou sentando-se ao lado.Benício pegou um pedaço de fruta e levou à boca dela. Sua voz soou como uma brisa suave em seu ouvido: "Se esse trabalho te cansa tanto, melhor largar tudo. Daqui para frente, eu cuido de você."Os outros, ao ouvirem aquelas palavras, demonstraram um olhar de inveja.Benício era assim.Com uma simples frase, um gesto ou até mesmo um olhar, conseguia atrair as pessoas para si, fazendo com que se lançassem atrás dele sem hesitar.No entanto, Poliana era de temperamento reservado e, diante das insinuações dele, mantinha-se correta e um tanto insossa."Não precisa, eu... eu estou bem com o meu trabalho", respondeu ela.Poliana pensou que muitas pessoas dariam tudo para conseguir entrar em uma empresa de ponta como o Grupo Horizonte.Benício sorriu levemente: "Então, o que este namorado pode fazer por você? Não posso ser apenas um enfeite, não é?"A relação deles não era íntima.Depois de um mês juntos, nem sequer haviam trocado um beijo.Benício jamais tivera um relacionamento tão casto.Poliana sentia-se um pouco perdida, mas naquele instante, Benício levantou-se.Ele afagou a cabeça dela e disse: "Vou lá fora atender um telefonema."Poliana assentiu obedientemente.Assim que Benício saiu do camarote, uma voz feminina, carregada de sarcasmo, soou ao lado dela."Poliana, você não vai me dizer que acredita mesmo que o Benício gosta de você, né? Ele só está se divertindo, logo vai te largar!"Quem falava era Melissa Barreiros, colega de faculdade de Poliana.Ela tinha bebido demais naquela noite.O cheiro de álcool era forte e o rosto dela estava completamente vermelho.Poliana levantou o olhar, sem demonstrar emoção, e encarou calmamente a mulher à sua frente.Durante a faculdade, Poliana e Melissa já haviam tido alguns desentendimentos e, após a formatura, nunca mais se falaram.Melissa gostava de Benício.Na época da faculdade, já haviam circulado muitos boatos envolvendo os dois.Ao lembrar-se do olhar carinhoso e protetor de Benício para Poliana, Melissa sentiu-se tomada por um ciúme quase enlouquecedor.Num impulso, pegou o celular e reproduziu uma gravação."Escuta só o quanto você não vale nada para o Benício!"Sem qualquer aviso, Poliana sentiu como se tivesse levado uma pancada forte na cabeça.A gravação começava com a voz de um dos amigos próximos de Benício."Benício, já terminou com a última tão rápido assim?"O coração de Poliana afundou. Antes que ela pudesse reagir, ouviu a voz impaciente de Benício."Cansei, terminei.""Se cansou, troca por outro tipo, ué. Já pensou em tentar uma certinha? Você nunca ficou com uma dessas!"Benício respondeu: "Não tenho interesse.""Tá com medo de não dar conta de uma certinha?""Que absurdo, não existe mulher que Benício não conquiste. Vamos apostar: você escolhe um alvo para o Benício. Se em três dias ele não conseguir, eu me ajoelho e te chamo de mestre!""......"Melissa, sem se importar com nada, causava tumulto, e o camarote que antes estava animado, subitamente ficou em silêncio total.Todos passaram a prestar atenção na gravação, logo compreendendo o que estava acontecendo. Os olhares que antes eram de admiração para Poliana, agora carregavam compaixão e até desprezo.Diversos ruídos e comentários invadiram a mente de Poliana, mas ela parecia uma máquina capaz de filtrar tudo, ouvindo apenas o tom debochado e desleixado dele."Aquela Poliana?""Três dias e está feito.""Se eu não conseguir, nunca mais corro de carro.""......"Benício fora o piloto de F1 mais jovem do país. As corridas eram sua maior paixão, seu propósito de vida.Poliana pensou que ele realmente era ousado nas apostas.Para ele, aquilo realmente não era desafio algum.Na verdade, nem precisara de três dias.Em poucas horas, ele já a havia conquistado.Como Melissa dissera, ela realmente era desprezível.Somente naquele momento, Poliana compreendeu que aquele amor, que ela pensava ser iluminado por um raio de esperança, não passava de uma aposta feita por puro capricho dele.Poliana apertou com força o copo de vidro nas mãos, os dedos ficaram esbranquiçados.A gravação continuava."Poliana... Tenho alguma lembrança dela, certinha, mas bem fria também.""Benício, se você conseguir, grava um vídeo. Quero ver se uma mulher tão sem graça consegue reagir com você!""Benício..."Quando as palavras começaram a se tornar ainda mais ofensivas, uma mão tomou o celular de Melissa de repente.A gravação cessou imediatamente.O silêncio no camarote era absoluto, dava para ouvir um alfinete cair.Poliana achava que, naquele momento, ao olhar para o rosto de Benício, o mundo desabaria.No entanto, surpreendentemente, ela não conseguiu derramar uma única lágrima.Ela esboçou um sorriso autodepreciativo, levantou-se lentamente, ergueu o rosto e, palavra por palavra, encarou o homem que, mesmo exposto, mantinha-se sereno."Parabéns, você venceu."Venceu completamente.Após dizer isso, Poliana não se despediu de ninguém e saiu do camarote caminhando com passos firmes.Aquela silhueta magra, parecendo fugir desesperadamente, transmitia uma imagem de pura tristeza.No meio da multidão, alguém comentou casualmente: "Benício, não vai se explicar?"Benício permaneceu imóvel, olhando na direção por onde a mulher havia saído, e riu de leve, com ironia.Ora, isso é que era uma certinha?Parecia comportada, mas era bem teimosa.Sentou-se novamente no sofá, tomou um gole de bebida e, em questão de segundos, já havia recuperado o habitual ar confiante: "Explicar o quê? Era só uma aposta mesmo."Alguém por dentro da história logo aproveitou para comentar: "Acho que alguns aqui ainda não sabem, né? A Poliana gosta do Benício há oito anos. Se o Benício estalar os dedos, ela volta correndo. Duvidam? Esperem pra ver!""Então, vamos apostar de novo! Benício, ainda tem coragem?"Benício permaneceu quieto.Embora sempre fosse o centro das atenções, naquela noite parecia deslocado daquela cena.Ninguém sabia quanto tempo se passara, até que, quando todos já pensavam que o silêncio dele significava o fim daquela história, ele largou o copo, desenhou um leve sorriso nos lábios, despreocupado.E respondeu apenas uma palavra:"Aposto."Noite profunda de inverno, a luz dos postes exalava um brilho amarelado, refletindo a neve fina que caía intensamente do céu.Poliana mantinha as mãos nos bolsos do sobretudo, claramente tremendo de frio, mas continuava parada na calçada sem se mover. Vários táxis, ao passarem por ela, até pararam de propósito, mas ela apenas balançava a cabeça sem rumo.De repente, o celular em seu bolso vibrou.Poliana retirou o aparelho um pouco atrasada e olhou rapidamente...Era uma mensagem do gerente de projeto pelo WhatsApp.“O projeto do Distrito Nova Esperança apresentou problemas na integração. Refaça o orçamento e a proposta de parceria. Antes do fim do expediente amanhã... não, envie pra mim amanhã de manhã. Esse projeto é em parceria com a prefeitura de Rio Dourado, o chefe está dando muita importância.”Poliana finalmente voltou a si e respondeu, sem expressão no rosto: “Entendido.”Após enviar a mensagem, ela chamou um táxi: “Para o Grupo Horizonte.”No curto trajeto, o celular não parou de vibrar. Poliana sentia a cabeça prestes a explodir; enquanto respondia ao gerente pelo WhatsApp, ainda precisava lidar com as insinuações da tia.“E então? Amanhã você vai levar seu namorado pra casa, não vai?”Namorado.Ao ouvir essas três sílabas, uma sensação amarga, ácida, tomou conta dela, vindo à tona só depois de algum tempo.Poliana apertou o telefone, sentindo como se um espinho estivesse preso na garganta, sem saber o que responder de imediato.Do outro lado, a mulher logo percebeu: “Você não conseguiu resolver com ele, não é? Nesse caso, faça o que eu digo: amanhã vá conhecer o rapaz que estou te indicando. Ontem mesmo seu tio e eu jantamos com ele, ele é ótimo, até me presenteou com uma bolsa da Hermès!”O coração de Poliana gelou pela metade.“Você aceitou o presente dele?”A mulher parecia achar estranha a indignação dela: “E daí se aceitei? Logo seremos uma família, por que tanto estranhamento?”Além disso, não foi só uma bolsa da Hermès que recebeu.Se ela não se casasse, a situação ficaria difícil de resolver.“Querendo ou não, você vai ter que casar. Seu tio e eu te criamos tantos anos, já está na hora de você retribuir. Sem contar que escolhemos essa pessoa a dedo pra você. Casar com ele é uma sorte pra você. Entendeu?”Poliana inspirou fundo e permaneceu em silêncio.Depois de ouvir as reclamações durante todo o caminho, sem perceber, já havia chegado à empresa.Ela desceu do carro cabisbaixa, caminhou até o hall dos elevadores e apertou o botão sem pensar.Um homem alto a seguiu calmamente e entrou no elevador, mas Poliana nem olhou para ele, ficando de costas, encostada no canto perto dos botões.A mente de Poliana parecia apertada por um feitiço, doendo tanto que nem percebeu que apertou o botão do andar errado.O homem atrás dela semicerrava os olhos, observando cada movimento.“No fim das contas, mulher tem que dar prioridade ao casamento, à família. Pare de se dedicar tanto a esse trabalho inútil. Você já tem vinte e cinco anos, já está ficando velha. Daqui a alguns anos, quem vai querer você? Homem bom e bem de vida só gosta de mulher jovem e bonita.”“Me escute, peça demissão ainda este mês. Assim você terá tempo pra se dedicar a conhecer alguém direito.”Poliana sempre demonstrou pouco as emoções, preferindo guardar tudo no coração.Mas as emoções acumuladas ao longo dos anos, assim como a neve fina sobre os galhos, de início leves, de repente a esmagaram até não aguentar mais.Ela finalmente não pôde mais suportar.“Eu não vou pedir demissão.”“Seu chefe salvou a sua vida na outra encarnação, é? Pra você trabalhar tanto pra ele agora? Essa semana você já fez hora extra até de madrugada duas, três vezes! Sempre que eu preciso de você, você usa o trabalho como desculpa.”Poliana respondeu de propósito: “É voluntário, eu amo trabalhar. Quero passar minha vida toda nisso, me sacrificando por ele.”Ao ouvir isso, o homem atrás dela soltou um leve riso.Poliana, porém, continuava alheia.“Por que você é tão difícil?” A voz da mulher se elevou, e no espaço pequeno e fechado, mesmo sem viva-voz, qualquer um ao lado podia ouvir claramente: “O que é mais importante, seu marido ou seu chefe? Você quer passar a vida com seu marido ou com seu chefe?”Capítulo 3Grupo Horizonte.Poliana Tavares terminou seu trabalho apenas às oito da noite.Ela suportou o cansaço, arrumou-se de maneira simples e correu apressadamente para fora do escritório.Assim que chegou ao térreo do prédio da empresa, recebeu uma ligação do representante de sua turma da universidade. "Alô, Poliana, onde você está? Só falta você para completar a turma.""Desculpe, estou chegando em breve."Naquela noite, celebrava-se o terceiro aniversário de formatura de sua turma, e o local escolhido foi o clube de entretenimento mais sofisticado de Rio Dourado.Ela se atrasou sem querer, mas, felizmente, o clube ficava bem próximo da empresa, sendo apenas alguns minutos de corrida de aplicativo.Após desligar o telefone, Poliana imediatamente entrou no veículo que já havia solicitado, repetindo ao motorista o endereço.Depois de um dia inteiro de trabalho, ela estava exausta e queria esvaziar a mente por um instante, mas, ao fechar os olhos, seu celular imediatamente emitiu um alerta.Poliana pegou o aparelho e viu que era uma mensagem da tia materna.[Desta vez o pretendente que estou te apresentando tem ótimas condições. A família dele tem vários imóveis em Rio Dourado. Para ser sincera, ele já tem trinta e sete anos, foi casado uma vez e tem um filho, mas, mesmo assim, há muita gente querendo apresentá-lo a outras mulheres. Ele escolheu você. Amanhã é sábado, você pode conhecê-lo?]Logo em seguida, a mulher enviou um contato do WhatsApp.Poliana nem chegou a abrir o contato, respondeu prontamente: [Tia, já tenho alguém de quem gosto.]A outra parte achou que ela estava apenas enrolando e imediatamente mandou um áudio.Poliana diminuiu o volume do celular ao mínimo e apertou o play, mas ainda assim pôde perceber a irritação na voz da tia."No ano em que você se formou, eu já queria te apresentar alguém e você disse a mesma coisa. Já se passaram anos, você nunca trouxe ninguém para conhecer a família, nem sequer nos contou o nome dele. Quem guarda segredo tão bem quanto você? Se seus pais não tivessem partido tão cedo, você acha que eu ficaria me preocupando desse jeito? Pois bem, toda vez você rejeita minhas boas intenções, inventando desculpas para me enganar."Poliana baixou o olhar, pensando que nunca mentiu para ela.De fato, ela gostava de alguém.Desde os dezessete até os vinte e cinco anos.Num instante de distração, mais áudios começaram a chegar em sequência."Seja honesta, nesses dez anos desde que seus pais se foram, eu e seu tio cuidamos bem de você ou não? Você comeu em nossa casa, morou conosco, ainda pagamos seus estudos. Aquele cursinho no terceiro ano do ensino médio custava duzentos ou trezentos reais por hora. Ao longo desses anos, seu tio sempre teve medo que você fosse prejudicada. Tudo o que minha filha tinha, você também teve. Reflita sobre isso, está bem?""Agora seu tio está com dificuldades nos negócios. O pretendente que estou te apresentando é um conhecido do seu tio nos negócios. Ele já viu suas fotos e gostou de você. Se você se casar com ele, poderá ajudar nos negócios da família.""Um homem com tantas qualidades, por que você é tão teimosa?""…"Havia ainda mais áudios, mas Poliana não os ouviu.Ela retornou a ligação para a mulher, respondendo de forma concisa: "Tia, o homem de quem gosto também é uma ótima pessoa. Nós… já estamos namorando."Um mês antes, ela havia começado um relacionamento com o homem por quem foi apaixonada durante oito anos.Poliana esforçou-se para conter a emoção no coração.A mulher, desconfiada e insatisfeita, perguntou: "Desde quando isso? Quais são as condições dele?"Quais as condições dele?Ele não lhe faltava nada: era rico, influente e ainda possuía uma aparência encantadora.Ele era como um veneno coberto de mel, do qual se sabia do perigo, mas que, ainda assim, era impossível resistir.Ela e Benício Pacheco eram pessoas totalmente distintas.Ela era tão calma e reservada que passava despercebida.Ainda assim, há um mês, os dois começaram a namorar."Diga logo! Quem é ele, afinal?"Poliana respondeu: "Ele foi meu colega no ensino médio. Depois, passamos na mesma universidade, no mesmo curso, e ficamos na mesma turma.""Tudo isso aconteceu por acaso?"Poliana sorriu, ironicamente.Na verdade, não foi por acaso."Ele é muito rico."Essa era a informação que sua tia realmente queria ouvir.Como era esperado, a voz da tia tornou-se mais animada: "Então ele também está na sua reunião de formandos hoje à noite? Amanhã é sábado, traga ele em casa para conhecê-lo. Precisa passar pela minha aprovação antes."Poliana achou que um mês de namoro era cedo para apresentar à família.Mas, depois de tantos anos mantendo esse amor em segredo, finalmente havia uma chance de mostrá-lo ao mundo; como dizer que era cedo demais?Ela cedeu: "Vou perguntar a opinião dele depois."A tia, então, encerrou a ligação, não muito satisfeita.Após sair do carro, Poliana correu em direção ao camarote reservado.A reunião estava em seu ápice.No momento em que Poliana abriu a porta, todos os olhares se voltaram para ela, acompanhados de brincadeiras."Uau, a estrela da noite chegou!""Que linda!""Claro, né? Se não fosse bonita, estaria ao lado do nosso Benício?""…"Aquela estudante que gostava de se esconder nos cantos agora estava no centro das atenções, graças ao título de "namorada do Benício".Poliana ainda não se sentia totalmente à vontade, suas mãos ao lado do corpo se fecharam involuntariamente.Quando cruzou o olhar com Benício, ela desviou instintivamente.O homem vestia roupas casuais; nem mesmo o suéter cinza-claro conseguia esconder seus ombros largos e cintura fina. Sentado de forma relaxada no sofá, seu ar distante e despreocupado era chamativo demais.Ele olhou para a mulher tímida, apagou o cigarro, curvou levemente os lábios e, batendo com a mão na própria perna direita, disse: "Venha, sente-se aqui."O coração de Poliana disparou sem motivo, e ela caminhou de forma um pouco hesitante.Seu jeito reservado não a permitia sentar-se no colo dele diante de todos, mas acabou sentando-se ao lado.Benício pegou um pedaço de fruta e levou à boca dela. Sua voz soou como uma brisa suave em seu ouvido: "Se esse trabalho te cansa tanto, melhor largar tudo. Daqui para frente, eu cuido de você."Os outros, ao ouvirem aquelas palavras, demonstraram um olhar de inveja.Benício era assim.Com uma simples frase, um gesto ou até mesmo um olhar, conseguia atrair as pessoas para si, fazendo com que se lançassem atrás dele sem hesitar.No entanto, Poliana era de temperamento reservado e, diante das insinuações dele, mantinha-se correta e um tanto insossa."Não precisa, eu... eu estou bem com o meu trabalho", respondeu ela.Poliana pensou que muitas pessoas dariam tudo para conseguir entrar em uma empresa de ponta como o Grupo Horizonte.Benício sorriu levemente: "Então, o que este namorado pode fazer por você? Não posso ser apenas um enfeite, não é?"A relação deles não era íntima.Depois de um mês juntos, nem sequer haviam trocado um beijo.Benício jamais tivera um relacionamento tão casto.Poliana sentia-se um pouco perdida, mas naquele instante, Benício levantou-se.Ele afagou a cabeça dela e disse: "Vou lá fora atender um telefonema."Poliana assentiu obedientemente.Assim que Benício saiu do camarote, uma voz feminina, carregada de sarcasmo, soou ao lado dela."Poliana, você não vai me dizer que acredita mesmo que o Benício gosta de você, né? Ele só está se divertindo, logo vai te largar!"Quem falava era Melissa Barreiros, colega de faculdade de Poliana.Ela tinha bebido demais naquela noite.O cheiro de álcool era forte e o rosto dela estava completamente vermelho.Poliana levantou o olhar, sem demonstrar emoção, e encarou calmamente a mulher à sua frente.Durante a faculdade, Poliana e Melissa já haviam tido alguns desentendimentos e, após a formatura, nunca mais se falaram.Melissa gostava de Benício.Na época da faculdade, já haviam circulado muitos boatos envolvendo os dois.Ao lembrar-se do olhar carinhoso e protetor de Benício para Poliana, Melissa sentiu-se tomada por um ciúme quase enlouquecedor.Num impulso, pegou o celular e reproduziu uma gravação."Escuta só o quanto você não vale nada para o Benício!"Sem qualquer aviso, Poliana sentiu como se tivesse levado uma pancada forte na cabeça.A gravação começava com a voz de um dos amigos próximos de Benício."Benício, já terminou com a última tão rápido assim?"O coração de Poliana afundou. Antes que ela pudesse reagir, ouviu a voz impaciente de Benício."Cansei, terminei.""Se cansou, troca por outro tipo, ué. Já pensou em tentar uma certinha? Você nunca ficou com uma dessas!"Benício respondeu: "Não tenho interesse.""Tá com medo de não dar conta de uma certinha?""Que absurdo, não existe mulher que Benício não conquiste. Vamos apostar: você escolhe um alvo para o Benício. Se em três dias ele não conseguir, eu me ajoelho e te chamo de mestre!""......"Melissa, sem se importar com nada, causava tumulto, e o camarote que antes estava animado, subitamente ficou em silêncio total.Todos passaram a prestar atenção na gravação, logo compreendendo o que estava acontecendo. Os olhares que antes eram de admiração para Poliana, agora carregavam compaixão e até desprezo.Diversos ruídos e comentários invadiram a mente de Poliana, mas ela parecia uma máquina capaz de filtrar tudo, ouvindo apenas o tom debochado e desleixado dele."Aquela Poliana?""Três dias e está feito.""Se eu não conseguir, nunca mais corro de carro.""......"Benício fora o piloto de F1 mais jovem do país. As corridas eram sua maior paixão, seu propósito de vida.Poliana pensou que ele realmente era ousado nas apostas.Para ele, aquilo realmente não era desafio algum.Na verdade, nem precisara de três dias.Em poucas horas, ele já a havia conquistado.Como Melissa dissera, ela realmente era desprezível.Somente naquele momento, Poliana compreendeu que aquele amor, que ela pensava ser iluminado por um raio de esperança, não passava de uma aposta feita por puro capricho dele.Poliana apertou com força o copo de vidro nas mãos, os dedos ficaram esbranquiçados.A gravação continuava."Poliana... Tenho alguma lembrança dela, certinha, mas bem fria também.""Benício, se você conseguir, grava um vídeo. Quero ver se uma mulher tão sem graça consegue reagir com você!""Benício..."Quando as palavras começaram a se tornar ainda mais ofensivas, uma mão tomou o celular de Melissa de repente.A gravação cessou imediatamente.O silêncio no camarote era absoluto, dava para ouvir um alfinete cair.Poliana achava que, naquele momento, ao olhar para o rosto de Benício, o mundo desabaria.No entanto, surpreendentemente, ela não conseguiu derramar uma única lágrima.Ela esboçou um sorriso autodepreciativo, levantou-se lentamente, ergueu o rosto e, palavra por palavra, encarou o homem que, mesmo exposto, mantinha-se sereno."Parabéns, você venceu."Venceu completamente.Após dizer isso, Poliana não se despediu de ninguém e saiu do camarote caminhando com passos firmes.Aquela silhueta magra, parecendo fugir desesperadamente, transmitia uma imagem de pura tristeza.No meio da multidão, alguém comentou casualmente: "Benício, não vai se explicar?"Benício permaneceu imóvel, olhando na direção por onde a mulher havia saído, e riu de leve, com ironia.Ora, isso é que era uma certinha?Parecia comportada, mas era bem teimosa.Sentou-se novamente no sofá, tomou um gole de bebida e, em questão de segundos, já havia recuperado o habitual ar confiante: "Explicar o quê? Era só uma aposta mesmo."Alguém por dentro da história logo aproveitou para comentar: "Acho que alguns aqui ainda não sabem, né? A Poliana gosta do Benício há oito anos. Se o Benício estalar os dedos, ela volta correndo. Duvidam? Esperem pra ver!""Então, vamos apostar de novo! Benício, ainda tem coragem?"Benício permaneceu quieto.Embora sempre fosse o centro das atenções, naquela noite parecia deslocado daquela cena.Ninguém sabia quanto tempo se passara, até que, quando todos já pensavam que o silêncio dele significava o fim daquela história, ele largou o copo, desenhou um leve sorriso nos lábios, despreocupado.E respondeu apenas uma palavra:"Aposto."Noite profunda de inverno, a luz dos postes exalava um brilho amarelado, refletindo a neve fina que caía intensamente do céu.Poliana mantinha as mãos nos bolsos do sobretudo, claramente tremendo de frio, mas continuava parada na calçada sem se mover. Vários táxis, ao passarem por ela, até pararam de propósito, mas ela apenas balançava a cabeça sem rumo.De repente, o celular em seu bolso vibrou.Poliana retirou o aparelho um pouco atrasada e olhou rapidamente...Era uma mensagem do gerente de projeto pelo WhatsApp.“O projeto do Distrito Nova Esperança apresentou problemas na integração. Refaça o orçamento e a proposta de parceria. Antes do fim do expediente amanhã... não, envie pra mim amanhã de manhã. Esse projeto é em parceria com a prefeitura de Rio Dourado, o chefe está dando muita importância.”Poliana finalmente voltou a si e respondeu, sem expressão no rosto: “Entendido.”Após enviar a mensagem, ela chamou um táxi: “Para o Grupo Horizonte.”No curto trajeto, o celular não parou de vibrar. Poliana sentia a cabeça prestes a explodir; enquanto respondia ao gerente pelo WhatsApp, ainda precisava lidar com as insinuações da tia.“E então? Amanhã você vai levar seu namorado pra casa, não vai?”Namorado.Ao ouvir essas três sílabas, uma sensação amarga, ácida, tomou conta dela, vindo à tona só depois de algum tempo.Poliana apertou o telefone, sentindo como se um espinho estivesse preso na garganta, sem saber o que responder de imediato.Do outro lado, a mulher logo percebeu: “Você não conseguiu resolver com ele, não é? Nesse caso, faça o que eu digo: amanhã vá conhecer o rapaz que estou te indicando. Ontem mesmo seu tio e eu jantamos com ele, ele é ótimo, até me presenteou com uma bolsa da Hermès!”O coração de Poliana gelou pela metade.“Você aceitou o presente dele?”A mulher parecia achar estranha a indignação dela: “E daí se aceitei? Logo seremos uma família, por que tanto estranhamento?”Além disso, não foi só uma bolsa da Hermès que recebeu.Se ela não se casasse, a situação ficaria difícil de resolver.“Querendo ou não, você vai ter que casar. Seu tio e eu te criamos tantos anos, já está na hora de você retribuir. Sem contar que escolhemos essa pessoa a dedo pra você. Casar com ele é uma sorte pra você. Entendeu?”Poliana inspirou fundo e permaneceu em silêncio.Depois de ouvir as reclamações durante todo o caminho, sem perceber, já havia chegado à empresa.Ela desceu do carro cabisbaixa, caminhou até o hall dos elevadores e apertou o botão sem pensar.Um homem alto a seguiu calmamente e entrou no elevador, mas Poliana nem olhou para ele, ficando de costas, encostada no canto perto dos botões.A mente de Poliana parecia apertada por um feitiço, doendo tanto que nem percebeu que apertou o botão do andar errado.O homem atrás dela semicerrava os olhos, observando cada movimento.“No fim das contas, mulher tem que dar prioridade ao casamento, à família. Pare de se dedicar tanto a esse trabalho inútil. Você já tem vinte e cinco anos, já está ficando velha. Daqui a alguns anos, quem vai querer você? Homem bom e bem de vida só gosta de mulher jovem e bonita.”“Me escute, peça demissão ainda este mês. Assim você terá tempo pra se dedicar a conhecer alguém direito.”Poliana sempre demonstrou pouco as emoções, preferindo guardar tudo no coração.Mas as emoções acumuladas ao longo dos anos, assim como a neve fina sobre os galhos, de início leves, de repente a esmagaram até não aguentar mais.Ela finalmente não pôde mais suportar.“Eu não vou pedir demissão.”“Seu chefe salvou a sua vida na outra encarnação, é? Pra você trabalhar tanto pra ele agora? Essa semana você já fez hora extra até de madrugada duas, três vezes! Sempre que eu preciso de você, você usa o trabalho como desculpa.”Poliana respondeu de propósito: “É voluntário, eu amo trabalhar. Quero passar minha vida toda nisso, me sacrificando por ele.”Ao ouvir isso, o homem atrás dela soltou um leve riso.Poliana, porém, continuava alheia.“Por que você é tão difícil?” A voz da mulher se elevou, e no espaço pequeno e fechado, mesmo sem viva-voz, qualquer um ao lado podia ouvir claramente: “O que é mais importante, seu marido ou seu chefe? Você quer passar a vida com seu marido ou com seu chefe?”