Durante cinco anos, Vitória Vieira entregou seu coração sem reservas a César Gomes, acreditando firmemente que estavam destinados a construir um futuro juntos. Mas tudo desmorona na noite do que seria seu casamento: ela descobre que César já havia se casado em segredo com sua antiga paixão, e que o casamento com ela não passava de uma farsa cruel. Consumida pela dor, Vitória sofre um acidente misterioso que arruína para sempre sua carreira de bailarina. Forçada a uma vida que nunca desejou — incluindo carregar o filho de outra mulher em nome da honra familiar —, ela decide cortar todos os laços com o passado. Mas o destino lhe reserva uma segunda chance ao lado de Leon Chen, o herdeiro mais reservado e poderoso da elite de Brasília. Sob sua proteção silenciosa, Vitória renasce, mais forte e decidida. Anos depois, o reencontro entre César e uma Vitória transformada é inevitável. Diante do homem calado que agora a protege com unhas e dentes, César se dá conta tarde demais de tudo que perdeu. De joelhos, ele implora perdão, mas é recebido com frieza e desprezo. Em uma trama repleta de dor, amores partidos e vingança, Vitória mostrará que nem todo coração partido está disposto a se remendar… Prepare-se para mergulhar em um romance intenso, onde o perdão é um luxo e o verdadeiro amor pode ser tão afiado quanto uma lâmina.

Capítulo 1— Srta. Vieira, após a verificação, constatamos que sua certidão de casamento é falsa. Falsificar esse documento é crime. Por favor, colabore com nossa investigação.— Hoje em dia, até certidão de casamento falsa existe?— Ela deve ter sido enganada, né? Que pena...Sob os olhares curiosos dos funcionários e de alguns casais, Vitória Vieira saiu atordoada do cartório.O sol brilhava com força, mas ela sentia um frio profundo percorrer o corpo inteiro.Na noite anterior, Cesar Gomes havia concordado subitamente em registrar o casamento, encerrando assim cinco anos de namoro.O quarto, à meia-noite, estava carregado de um desejo intenso.No auge da paixão, o toque de um telefone interrompeu tudo.Cesar Gomes, de modo incomum, parou e atendeu.— Não faz isso. Minha certidão com ela é falsa. Afinal, há dois anos já me casei com você oficialmente.Ele falava em uma língua pouco comum, mas Vitória Vieira entendeu.Os amigos de Cesar Gomes também dominavam esse idioma. Para se sentir incluída, Vitória fazia aulas desse idioma em segredo.— Mesmo assim, eu sinto ciúmes. Seria tão melhor se ela não existisse.— Não seja imatura. Vivi é inocente. Você ainda não se conformou com o acidente de carro? Ela quase perdeu a perna, nunca mais vai dançar, ninguém mais vai disputar com você o título de melhor dançarina. Se acontecer mais alguma coisa, não sei se conseguirei proteger você de novo.— E... o bebê?— Quando ela engravidar e der à luz, vou dar um jeito de registrar a criança como nossa.— Pronto, se comporte. Ela não chega nem aos seus pés, nunca poderia me apaixonar por ela.Entre o choque, um restinho de lucidez fez Vitória Vieira despertar.Então, aquele acidente de dois anos atrás... foi provocado?Na época, um caminhão desgovernado quase a atropelou, quase ficou paraplégica.Depois de semanas no hospital, conseguiu salvar uma perna, mas nunca mais poderia dançar.Ela herdara o talento da mãe para a dança, tinha um futuro brilhante pela frente.Cesar Gomes sempre lhe dissera que fora apenas um acidente.Ele garantiu que não se importava com sua limitação, e ela se sentiu ainda mais grata e apaixonada por ele.Mas tudo não passava de um plano cruel. Cesar Gomes a enganou, casou-se com a verdadeira culpada, e ainda queria que ela tivesse um filho para eles.Sem dormir a noite inteira, Vitória foi ao cartório assim que amanheceu para confirmar a verdade.A realidade, cruel, a atingiu como um tapa no rosto.Forçou um sorriso, disse que era brincadeira, e, por sorte, os funcionários não insistiram, apenas lhe deram uma bronca antes de deixá-la ir.O celular tocava há tempos quando Vitória Vieira finalmente voltou a si e atendeu.— Já está indo para a empresa? — a voz masculina soou grave, ainda rouca de sono, envolvente.Vitória fez um esforço para soar normal:— Não, tive um imprevisto.— Onde está? Vou buscar você.Na hora, seus olhos se encheram de lágrimas.Lembrou dele dizendo que, não importava onde estivesse, ele sempre iria buscá-la para voltarem juntos para casa.Mas agora, será que ainda tinham uma casa?Dois anos antes, ele já era marido de outra, traindo-a em corpo e alma.— Vivi?— Não precisa. — lágrimas escorriam, mas sua voz permaneceu firme — Tenho coisas para resolver, vou sozinha.Ela insistiu e Cesar Gomes não teve escolha senão aceitar.Após desligar, Vitória Vieira tentou organizar o turbilhão de pensamentos.Namoraram por cinco anos, e Cesar Gomes sempre foi íntegro.Na faculdade, era o presidente do grêmio estudantil, charmoso e respeitado. Depois de formado, tornou-se o Diretor Cesar, bonito e bem-sucedido, cobiçado por muitas mulheres. Mas, para todas, exceto ela, ele era sempre frio e distante.Quem era, afinal, a mulher com quem ele havia se casado no cartório dois anos atrás?E aquele acidente de carro...Perto do meio-dia, Vitória Vieira chegou à empresa.— Bom dia, secretária Vitória.As pessoas do departamento executivo cumprimentaram-na uma a uma. Vitória Vieira respondeu com um aceno de cabeça, séria e contida.A mesa dela já estava coberta por uma pilha de documentos. Ela os analisou um a um, separou alguns e os levou para Cesar Gomes assinar.O homem bonito, de traços nobres, estava sentado atrás da mesa. Sua presença era tão marcante que impunha respeito sem dizer uma palavra, mesmo estando apenas sentado.Assim que ela entrou, a expressão dele suavizou consideravelmente.Ele assinou cada um dos papéis que ela lhe entregou, depois levantou os olhos para ela, demonstrando preocupação.— Você está com uma aparência cansada.— Só estou um pouco exausta, nada demais.— Esse projeto realmente tem exigido muito de você ultimamente. — Cesar Gomes ergueu a mão e apertou levemente o rosto dela, então, como num passe de mágica, tirou de trás de si uma caixa comprida.— Uma surpresa.Vitória Vieira pegou a caixa em silêncio e a abriu.Dentro, havia um colar de diamantes belíssimo.Ela reconheceu imediatamente: era o mais novo modelo limitado da Solara.Cesar Gomes se levantou e a envolveu com os braços, inclinando-se para beijar-lhe a testa. Vitória Vieira, no entanto, virou o rosto, desviando-se do beijo.Ela o achava sujo.— Vivi? — O olhar de Cesar Gomes escureceu levemente.Durante todos esses anos, ele lhe dera muitos presentes, dos mais diversos. Sempre que ela recebia algo, mostrava-se surpresa e feliz. Por que, dessa vez...— Obrigada, eu gostei muito. — respondeu Vitória Vieira, abaixando os olhos e fechando a caixa. — Aqui é o escritório, melhor mantermos a discrição.Cesar Gomes sorriu e bagunçou de leve o cabelo dela.— Vivi, você sempre tão sensata.Ao voltar para sua mesa, Vitória Vieira largou a caixa com o colar de lado, sem dar muita importância.Era inegável: Cesar Gomes sempre acertava em cheio nos presentes.Se não soubesse da traição dele, teria ficado tão feliz com aquele colar quanto ficava antes.Na hora do almoço, Vitória Vieira vasculhou todas as redes sociais de Cesar Gomes, mas não encontrou qualquer pista suspeita.As postagens dele, além das relacionadas à empresa, eram todas sobre ela.Ele vivia compartilhando fotos e declarações públicas de carinho, deixando os amigos sempre reclamando de tanto romantismo.Revisando aqueles momentos felizes do passado, Vitória Vieira sentiu apenas um vazio entorpecido.Foi então que, em uma dessas postagens antigas, um perfil que havia curtido o post chamou sua atenção.A imagem do perfil era uma mão delicada e pálida, usando uma pulseira idêntica àquela que Cesar Gomes já havia presenteado a ela.Sentindo um pressentimento, Vitória Vieira acessou o perfil daquela pessoa.A postagem mais recente era de um dia atrás: “Alguém atravessou o país para me enviar este colar. Amei ~”A foto mostrava o colar — exatamente igual ao que Cesar Gomes acabara de lhe dar.A edição especial da Solara, limitada a apenas duas peças.Vitória Vieira riu, sem emoção.Uma peça para ela, outra para aquela mulher. Cesar Gomes era mesmo habilidoso em “dividir igualmente”.Fechando o aplicativo, Vitória Vieira reservou uma passagem aérea para dali a um mês.O projeto atual, conduzido por ela e sua equipe, ainda teria duração de um mês. Aquele trabalho era fruto do esforço coletivo — não poderia simplesmente abandoná-lo.Daqui a um mês, ela partiria. Sairia dali de vez, longe de Cesar Gomes.Após confirmar a passagem, ela abriu outra conversa.“Pai, já decidi. Quero voltar para casa e ajudar nos negócios da família.Quanto ao casamento arranjado, eu concordo.”Ao cair da noite, na hora de sair do trabalho, Cesar Gomes deixou o escritório, com o paletó pendurado no braço.Vitória Vieira tinha acabado de se levantar quando ouviu a voz dele:— Hoje à noite tenho um jantar de negócios, pode ir pra casa antes.Jantar de negócios? Ela nunca tinha ouvido falar disso.Ela levantou o olhar para ele; Cesar Gomes a fitava com aquele olhar intenso e sedutor de sempre.No passado, não importava o que ele dissesse, ela nunca duvidava.— Entendi. — Vitória respondeu, mantendo a calma. — Tente não beber muito.Cesar Gomes afagou seus cabelos, sorrindo:— Vou seguir seu conselho.Vitória chamou um carro e ficou discretamente seguindo o de Cesar Gomes.Foram até o aeroporto.Mesmo com o movimento intenso, ela avistou Cesar Gomes de imediato.Ele estava impecável num terno preto feito sob medida, ainda mais elegante e distinto, impossível não se destacar na multidão.Ela então viu claramente uma mulher de cabelos longos correndo para os braços dele, e Cesar Gomes não a afastou, retribuindo o abraço com força.Os dois pareciam um casal perfeito, dignos de capa de revista.Depois do abraço, a mulher ainda se colocou na ponta dos pés para beijá-lo. Cesar tentou evitar, disse algo, mas ela insistiu até finalmente beijar seus lábios.Aquela cena de beijo apaixonado deixou Vitória enjoada.Mas o choque foi ainda maior.A mulher era ninguém menos que Cecília Gomes, irmã adotiva de Cesar Gomes.Cecília ficara órfã aos três anos, e como sua família era amiga íntima dos Gomes, acabou sendo acolhida por eles.Ela e Cesar cresceram juntos como irmãos. Inclusive, quando Vitória começou a namorar Cesar, ele fez questão de apresentá-las, e Cecília à época a chamava carinhosamente de “cunhada”.Três anos atrás, Cecília foi morar no exterior.Nunca imaginou que, por trás da fachada de irmãos, havia uma relação proibida — e que eles até haviam se casado oficialmente!Então, aquele acidente de carro… a verdadeira culpada era Cecília Gomes?...Mas o que Vitória não esperava era ver Cesar Gomes trazendo Cecília para casa.Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ele disse:— Vivi, minha irmã voltou ao Brasil. Ela vai ficar aqui com a gente por um tempo.Vitória cerrou os punhos, cravando as unhas na palma da mão.Ela ainda se lembrava de quando Cesar a trouxe pela primeira vez para aquele apartamento, acolhendo-a nos braços e dizendo:— Vivi, daqui pra frente, essa será a nossa casa. Só nossa.Ela acreditou que ali seria o lar eterno dos dois. Dedicou-se de corpo e alma a cada detalhe: cada reforma, cada móvel escolhido a dedo, tudo impregnado de suas esperanças.E agora, Cesar abria a porta para outra mulher.— Srta. Vieira, muito prazer. — Cecília sorriu para ela, mas nos olhos havia uma ponta de deboche e provocação quase imperceptíveis.Cinco anos atrás, ela chamava Vitória de “cunhada”. Agora, era apenas “Srta. Vieira”.Cesar olhou para Cecília com um misto de advertência e indulgência, mas não conseguiu esconder o carinho.Vitória pensou que Cesar realmente sabia como pisotear sua dignidade.Se ela não soubesse da verdade, talvez ainda estivesse ali, fazendo sala para Cecília como uma tola, achando tudo normal. Que piada seria para eles!— Mano, será que a Srta. Vieira não me quer aqui? — Cecília olhou para Cesar, com olhos marejados de inocência. — Sei que estou atrapalhando, posso ir pra um hotel, não tem problema...Cesar logo franziu a testa para Vitória, prestes a falar, mas foi interrompido por ela:— Não tem problema.As palavras de Cesar morreram na garganta.Vitória manteve-se serena:— Srta. Gomes, fique o tempo que quiser.Em seguida, virou-se e foi para o próprio quarto.Cecília continuava a vê-la como inimiga.Mal sabia ela que Vitória já não se importava — nem com aquela casa, nem com Cesar Gomes.Mesmo que fossem rivais, que fosse apenas por causa daquele acidente. Mas Vitória não demonstrou nada.Cecília ficou incomodada. Achou que Vitória faria um escândalo, mas ela permanecia fria e imperturbável.“Veremos...” Cecília pensou. “Quando ela descobrir que é só uma impostora, quero ver se consegue manter essa calma!”Cesar também se sentiu estranho. Resolveu ir atrás de Vitória no quarto:— Vivi, você realmente não ficou chateada?Ele sabia que Vitória nunca fazia escândalo, mas achava que, pelo menos, ela ficaria um pouco incomodada. Afinal, ele tinha prometido nunca trazer ninguém pra casa sem sua permissão.— Não fiquei. — Vitória respondeu de costas, sem emoção.— Sabia que você era a mais compreensiva... — Cesar a abraçou por trás. O calor de seu corpo deixou Vitória rígida, mas ele não percebeu. — Vivi, a Cecília é minha irmã, então é sua irmã também. Além disso, estou pensando em fazer negócios com a família Vieira da Cidade Capital, e Cecília tem muitos contatos lá...— O que você disse? — Vitória o interrompeu. — Cecília Gomes, com a família Vieira?— Sim, ela fez amizade com o pessoal da família Vieira enquanto estava fora, e a vovó Maria gosta muito dela.Vitória não conseguiu conter uma risada.Cesar olhou sem entender, mas continuou a explicação:— Você sabe que a família Vieira é uma das mais poderosas da Cidade Capital. Com a Cecília por perto, tudo ficará mais fácil pra mim.— Ótimo. — Vitória sorriu. — Então, parabéns antecipados, Diretor Cesar. Que realize todos os seus desejos.Capítulo 2— Srta. Vieira, após a verificação, constatamos que sua certidão de casamento é falsa. Falsificar esse documento é crime. Por favor, colabore com nossa investigação.— Hoje em dia, até certidão de casamento falsa existe?— Ela deve ter sido enganada, né? Que pena...Sob os olhares curiosos dos funcionários e de alguns casais, Vitória Vieira saiu atordoada do cartório.O sol brilhava com força, mas ela sentia um frio profundo percorrer o corpo inteiro.Na noite anterior, Cesar Gomes havia concordado subitamente em registrar o casamento, encerrando assim cinco anos de namoro.O quarto, à meia-noite, estava carregado de um desejo intenso.No auge da paixão, o toque de um telefone interrompeu tudo.Cesar Gomes, de modo incomum, parou e atendeu.— Não faz isso. Minha certidão com ela é falsa. Afinal, há dois anos já me casei com você oficialmente.Ele falava em uma língua pouco comum, mas Vitória Vieira entendeu.Os amigos de Cesar Gomes também dominavam esse idioma. Para se sentir incluída, Vitória fazia aulas desse idioma em segredo.— Mesmo assim, eu sinto ciúmes. Seria tão melhor se ela não existisse.— Não seja imatura. Vivi é inocente. Você ainda não se conformou com o acidente de carro? Ela quase perdeu a perna, nunca mais vai dançar, ninguém mais vai disputar com você o título de melhor dançarina. Se acontecer mais alguma coisa, não sei se conseguirei proteger você de novo.— E... o bebê?— Quando ela engravidar e der à luz, vou dar um jeito de registrar a criança como nossa.— Pronto, se comporte. Ela não chega nem aos seus pés, nunca poderia me apaixonar por ela.Entre o choque, um restinho de lucidez fez Vitória Vieira despertar.Então, aquele acidente de dois anos atrás... foi provocado?Na época, um caminhão desgovernado quase a atropelou, quase ficou paraplégica.Depois de semanas no hospital, conseguiu salvar uma perna, mas nunca mais poderia dançar.Ela herdara o talento da mãe para a dança, tinha um futuro brilhante pela frente.Cesar Gomes sempre lhe dissera que fora apenas um acidente.Ele garantiu que não se importava com sua limitação, e ela se sentiu ainda mais grata e apaixonada por ele.Mas tudo não passava de um plano cruel. Cesar Gomes a enganou, casou-se com a verdadeira culpada, e ainda queria que ela tivesse um filho para eles.Sem dormir a noite inteira, Vitória foi ao cartório assim que amanheceu para confirmar a verdade.A realidade, cruel, a atingiu como um tapa no rosto.Forçou um sorriso, disse que era brincadeira, e, por sorte, os funcionários não insistiram, apenas lhe deram uma bronca antes de deixá-la ir.O celular tocava há tempos quando Vitória Vieira finalmente voltou a si e atendeu.— Já está indo para a empresa? — a voz masculina soou grave, ainda rouca de sono, envolvente.Vitória fez um esforço para soar normal:— Não, tive um imprevisto.— Onde está? Vou buscar você.Na hora, seus olhos se encheram de lágrimas.Lembrou dele dizendo que, não importava onde estivesse, ele sempre iria buscá-la para voltarem juntos para casa.Mas agora, será que ainda tinham uma casa?Dois anos antes, ele já era marido de outra, traindo-a em corpo e alma.— Vivi?— Não precisa. — lágrimas escorriam, mas sua voz permaneceu firme — Tenho coisas para resolver, vou sozinha.Ela insistiu e Cesar Gomes não teve escolha senão aceitar.Após desligar, Vitória Vieira tentou organizar o turbilhão de pensamentos.Namoraram por cinco anos, e Cesar Gomes sempre foi íntegro.Na faculdade, era o presidente do grêmio estudantil, charmoso e respeitado. Depois de formado, tornou-se o Diretor Cesar, bonito e bem-sucedido, cobiçado por muitas mulheres. Mas, para todas, exceto ela, ele era sempre frio e distante.Quem era, afinal, a mulher com quem ele havia se casado no cartório dois anos atrás?E aquele acidente de carro...Perto do meio-dia, Vitória Vieira chegou à empresa.— Bom dia, secretária Vitória.As pessoas do departamento executivo cumprimentaram-na uma a uma. Vitória Vieira respondeu com um aceno de cabeça, séria e contida.A mesa dela já estava coberta por uma pilha de documentos. Ela os analisou um a um, separou alguns e os levou para Cesar Gomes assinar.O homem bonito, de traços nobres, estava sentado atrás da mesa. Sua presença era tão marcante que impunha respeito sem dizer uma palavra, mesmo estando apenas sentado.Assim que ela entrou, a expressão dele suavizou consideravelmente.Ele assinou cada um dos papéis que ela lhe entregou, depois levantou os olhos para ela, demonstrando preocupação.— Você está com uma aparência cansada.— Só estou um pouco exausta, nada demais.— Esse projeto realmente tem exigido muito de você ultimamente. — Cesar Gomes ergueu a mão e apertou levemente o rosto dela, então, como num passe de mágica, tirou de trás de si uma caixa comprida.— Uma surpresa.Vitória Vieira pegou a caixa em silêncio e a abriu.Dentro, havia um colar de diamantes belíssimo.Ela reconheceu imediatamente: era o mais novo modelo limitado da Solara.Cesar Gomes se levantou e a envolveu com os braços, inclinando-se para beijar-lhe a testa. Vitória Vieira, no entanto, virou o rosto, desviando-se do beijo.Ela o achava sujo.— Vivi? — O olhar de Cesar Gomes escureceu levemente.Durante todos esses anos, ele lhe dera muitos presentes, dos mais diversos. Sempre que ela recebia algo, mostrava-se surpresa e feliz. Por que, dessa vez...— Obrigada, eu gostei muito. — respondeu Vitória Vieira, abaixando os olhos e fechando a caixa. — Aqui é o escritório, melhor mantermos a discrição.Cesar Gomes sorriu e bagunçou de leve o cabelo dela.— Vivi, você sempre tão sensata.Ao voltar para sua mesa, Vitória Vieira largou a caixa com o colar de lado, sem dar muita importância.Era inegável: Cesar Gomes sempre acertava em cheio nos presentes.Se não soubesse da traição dele, teria ficado tão feliz com aquele colar quanto ficava antes.Na hora do almoço, Vitória Vieira vasculhou todas as redes sociais de Cesar Gomes, mas não encontrou qualquer pista suspeita.As postagens dele, além das relacionadas à empresa, eram todas sobre ela.Ele vivia compartilhando fotos e declarações públicas de carinho, deixando os amigos sempre reclamando de tanto romantismo.Revisando aqueles momentos felizes do passado, Vitória Vieira sentiu apenas um vazio entorpecido.Foi então que, em uma dessas postagens antigas, um perfil que havia curtido o post chamou sua atenção.A imagem do perfil era uma mão delicada e pálida, usando uma pulseira idêntica àquela que Cesar Gomes já havia presenteado a ela.Sentindo um pressentimento, Vitória Vieira acessou o perfil daquela pessoa.A postagem mais recente era de um dia atrás: “Alguém atravessou o país para me enviar este colar. Amei ~”A foto mostrava o colar — exatamente igual ao que Cesar Gomes acabara de lhe dar.A edição especial da Solara, limitada a apenas duas peças.Vitória Vieira riu, sem emoção.Uma peça para ela, outra para aquela mulher. Cesar Gomes era mesmo habilidoso em “dividir igualmente”.Fechando o aplicativo, Vitória Vieira reservou uma passagem aérea para dali a um mês.O projeto atual, conduzido por ela e sua equipe, ainda teria duração de um mês. Aquele trabalho era fruto do esforço coletivo — não poderia simplesmente abandoná-lo.Daqui a um mês, ela partiria. Sairia dali de vez, longe de Cesar Gomes.Após confirmar a passagem, ela abriu outra conversa.“Pai, já decidi. Quero voltar para casa e ajudar nos negócios da família.Quanto ao casamento arranjado, eu concordo.”Ao cair da noite, na hora de sair do trabalho, Cesar Gomes deixou o escritório, com o paletó pendurado no braço.Vitória Vieira tinha acabado de se levantar quando ouviu a voz dele:— Hoje à noite tenho um jantar de negócios, pode ir pra casa antes.Jantar de negócios? Ela nunca tinha ouvido falar disso.Ela levantou o olhar para ele; Cesar Gomes a fitava com aquele olhar intenso e sedutor de sempre.No passado, não importava o que ele dissesse, ela nunca duvidava.— Entendi. — Vitória respondeu, mantendo a calma. — Tente não beber muito.Cesar Gomes afagou seus cabelos, sorrindo:— Vou seguir seu conselho.Vitória chamou um carro e ficou discretamente seguindo o de Cesar Gomes.Foram até o aeroporto.Mesmo com o movimento intenso, ela avistou Cesar Gomes de imediato.Ele estava impecável num terno preto feito sob medida, ainda mais elegante e distinto, impossível não se destacar na multidão.Ela então viu claramente uma mulher de cabelos longos correndo para os braços dele, e Cesar Gomes não a afastou, retribuindo o abraço com força.Os dois pareciam um casal perfeito, dignos de capa de revista.Depois do abraço, a mulher ainda se colocou na ponta dos pés para beijá-lo. Cesar tentou evitar, disse algo, mas ela insistiu até finalmente beijar seus lábios.Aquela cena de beijo apaixonado deixou Vitória enjoada.Mas o choque foi ainda maior.A mulher era ninguém menos que Cecília Gomes, irmã adotiva de Cesar Gomes.Cecília ficara órfã aos três anos, e como sua família era amiga íntima dos Gomes, acabou sendo acolhida por eles.Ela e Cesar cresceram juntos como irmãos. Inclusive, quando Vitória começou a namorar Cesar, ele fez questão de apresentá-las, e Cecília à época a chamava carinhosamente de “cunhada”.Três anos atrás, Cecília foi morar no exterior.Nunca imaginou que, por trás da fachada de irmãos, havia uma relação proibida — e que eles até haviam se casado oficialmente!Então, aquele acidente de carro… a verdadeira culpada era Cecília Gomes?...Mas o que Vitória não esperava era ver Cesar Gomes trazendo Cecília para casa.Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ele disse:— Vivi, minha irmã voltou ao Brasil. Ela vai ficar aqui com a gente por um tempo.Vitória cerrou os punhos, cravando as unhas na palma da mão.Ela ainda se lembrava de quando Cesar a trouxe pela primeira vez para aquele apartamento, acolhendo-a nos braços e dizendo:— Vivi, daqui pra frente, essa será a nossa casa. Só nossa.Ela acreditou que ali seria o lar eterno dos dois. Dedicou-se de corpo e alma a cada detalhe: cada reforma, cada móvel escolhido a dedo, tudo impregnado de suas esperanças.E agora, Cesar abria a porta para outra mulher.— Srta. Vieira, muito prazer. — Cecília sorriu para ela, mas nos olhos havia uma ponta de deboche e provocação quase imperceptíveis.Cinco anos atrás, ela chamava Vitória de “cunhada”. Agora, era apenas “Srta. Vieira”.Cesar olhou para Cecília com um misto de advertência e indulgência, mas não conseguiu esconder o carinho.Vitória pensou que Cesar realmente sabia como pisotear sua dignidade.Se ela não soubesse da verdade, talvez ainda estivesse ali, fazendo sala para Cecília como uma tola, achando tudo normal. Que piada seria para eles!— Mano, será que a Srta. Vieira não me quer aqui? — Cecília olhou para Cesar, com olhos marejados de inocência. — Sei que estou atrapalhando, posso ir pra um hotel, não tem problema...Cesar logo franziu a testa para Vitória, prestes a falar, mas foi interrompido por ela:— Não tem problema.As palavras de Cesar morreram na garganta.Vitória manteve-se serena:— Srta. Gomes, fique o tempo que quiser.Em seguida, virou-se e foi para o próprio quarto.Cecília continuava a vê-la como inimiga.Mal sabia ela que Vitória já não se importava — nem com aquela casa, nem com Cesar Gomes.Mesmo que fossem rivais, que fosse apenas por causa daquele acidente. Mas Vitória não demonstrou nada.Cecília ficou incomodada. Achou que Vitória faria um escândalo, mas ela permanecia fria e imperturbável.“Veremos...” Cecília pensou. “Quando ela descobrir que é só uma impostora, quero ver se consegue manter essa calma!”Cesar também se sentiu estranho. Resolveu ir atrás de Vitória no quarto:— Vivi, você realmente não ficou chateada?Ele sabia que Vitória nunca fazia escândalo, mas achava que, pelo menos, ela ficaria um pouco incomodada. Afinal, ele tinha prometido nunca trazer ninguém pra casa sem sua permissão.— Não fiquei. — Vitória respondeu de costas, sem emoção.— Sabia que você era a mais compreensiva... — Cesar a abraçou por trás. O calor de seu corpo deixou Vitória rígida, mas ele não percebeu. — Vivi, a Cecília é minha irmã, então é sua irmã também. Além disso, estou pensando em fazer negócios com a família Vieira da Cidade Capital, e Cecília tem muitos contatos lá...— O que você disse? — Vitória o interrompeu. — Cecília Gomes, com a família Vieira?— Sim, ela fez amizade com o pessoal da família Vieira enquanto estava fora, e a vovó Maria gosta muito dela.Vitória não conseguiu conter uma risada.Cesar olhou sem entender, mas continuou a explicação:— Você sabe que a família Vieira é uma das mais poderosas da Cidade Capital. Com a Cecília por perto, tudo ficará mais fácil pra mim.— Ótimo. — Vitória sorriu. — Então, parabéns antecipados, Diretor Cesar. Que realize todos os seus desejos.Capítulo 3— Srta. Vieira, após a verificação, constatamos que sua certidão de casamento é falsa. Falsificar esse documento é crime. Por favor, colabore com nossa investigação.— Hoje em dia, até certidão de casamento falsa existe?— Ela deve ter sido enganada, né? Que pena...Sob os olhares curiosos dos funcionários e de alguns casais, Vitória Vieira saiu atordoada do cartório.O sol brilhava com força, mas ela sentia um frio profundo percorrer o corpo inteiro.Na noite anterior, Cesar Gomes havia concordado subitamente em registrar o casamento, encerrando assim cinco anos de namoro.O quarto, à meia-noite, estava carregado de um desejo intenso.No auge da paixão, o toque de um telefone interrompeu tudo.Cesar Gomes, de modo incomum, parou e atendeu.— Não faz isso. Minha certidão com ela é falsa. Afinal, há dois anos já me casei com você oficialmente.Ele falava em uma língua pouco comum, mas Vitória Vieira entendeu.Os amigos de Cesar Gomes também dominavam esse idioma. Para se sentir incluída, Vitória fazia aulas desse idioma em segredo.— Mesmo assim, eu sinto ciúmes. Seria tão melhor se ela não existisse.— Não seja imatura. Vivi é inocente. Você ainda não se conformou com o acidente de carro? Ela quase perdeu a perna, nunca mais vai dançar, ninguém mais vai disputar com você o título de melhor dançarina. Se acontecer mais alguma coisa, não sei se conseguirei proteger você de novo.— E... o bebê?— Quando ela engravidar e der à luz, vou dar um jeito de registrar a criança como nossa.— Pronto, se comporte. Ela não chega nem aos seus pés, nunca poderia me apaixonar por ela.Entre o choque, um restinho de lucidez fez Vitória Vieira despertar.Então, aquele acidente de dois anos atrás... foi provocado?Na época, um caminhão desgovernado quase a atropelou, quase ficou paraplégica.Depois de semanas no hospital, conseguiu salvar uma perna, mas nunca mais poderia dançar.Ela herdara o talento da mãe para a dança, tinha um futuro brilhante pela frente.Cesar Gomes sempre lhe dissera que fora apenas um acidente.Ele garantiu que não se importava com sua limitação, e ela se sentiu ainda mais grata e apaixonada por ele.Mas tudo não passava de um plano cruel. Cesar Gomes a enganou, casou-se com a verdadeira culpada, e ainda queria que ela tivesse um filho para eles.Sem dormir a noite inteira, Vitória foi ao cartório assim que amanheceu para confirmar a verdade.A realidade, cruel, a atingiu como um tapa no rosto.Forçou um sorriso, disse que era brincadeira, e, por sorte, os funcionários não insistiram, apenas lhe deram uma bronca antes de deixá-la ir.O celular tocava há tempos quando Vitória Vieira finalmente voltou a si e atendeu.— Já está indo para a empresa? — a voz masculina soou grave, ainda rouca de sono, envolvente.Vitória fez um esforço para soar normal:— Não, tive um imprevisto.— Onde está? Vou buscar você.Na hora, seus olhos se encheram de lágrimas.Lembrou dele dizendo que, não importava onde estivesse, ele sempre iria buscá-la para voltarem juntos para casa.Mas agora, será que ainda tinham uma casa?Dois anos antes, ele já era marido de outra, traindo-a em corpo e alma.— Vivi?— Não precisa. — lágrimas escorriam, mas sua voz permaneceu firme — Tenho coisas para resolver, vou sozinha.Ela insistiu e Cesar Gomes não teve escolha senão aceitar.Após desligar, Vitória Vieira tentou organizar o turbilhão de pensamentos.Namoraram por cinco anos, e Cesar Gomes sempre foi íntegro.Na faculdade, era o presidente do grêmio estudantil, charmoso e respeitado. Depois de formado, tornou-se o Diretor Cesar, bonito e bem-sucedido, cobiçado por muitas mulheres. Mas, para todas, exceto ela, ele era sempre frio e distante.Quem era, afinal, a mulher com quem ele havia se casado no cartório dois anos atrás?E aquele acidente de carro...Perto do meio-dia, Vitória Vieira chegou à empresa.— Bom dia, secretária Vitória.As pessoas do departamento executivo cumprimentaram-na uma a uma. Vitória Vieira respondeu com um aceno de cabeça, séria e contida.A mesa dela já estava coberta por uma pilha de documentos. Ela os analisou um a um, separou alguns e os levou para Cesar Gomes assinar.O homem bonito, de traços nobres, estava sentado atrás da mesa. Sua presença era tão marcante que impunha respeito sem dizer uma palavra, mesmo estando apenas sentado.Assim que ela entrou, a expressão dele suavizou consideravelmente.Ele assinou cada um dos papéis que ela lhe entregou, depois levantou os olhos para ela, demonstrando preocupação.— Você está com uma aparência cansada.— Só estou um pouco exausta, nada demais.— Esse projeto realmente tem exigido muito de você ultimamente. — Cesar Gomes ergueu a mão e apertou levemente o rosto dela, então, como num passe de mágica, tirou de trás de si uma caixa comprida.— Uma surpresa.Vitória Vieira pegou a caixa em silêncio e a abriu.Dentro, havia um colar de diamantes belíssimo.Ela reconheceu imediatamente: era o mais novo modelo limitado da Solara.Cesar Gomes se levantou e a envolveu com os braços, inclinando-se para beijar-lhe a testa. Vitória Vieira, no entanto, virou o rosto, desviando-se do beijo.Ela o achava sujo.— Vivi? — O olhar de Cesar Gomes escureceu levemente.Durante todos esses anos, ele lhe dera muitos presentes, dos mais diversos. Sempre que ela recebia algo, mostrava-se surpresa e feliz. Por que, dessa vez...— Obrigada, eu gostei muito. — respondeu Vitória Vieira, abaixando os olhos e fechando a caixa. — Aqui é o escritório, melhor mantermos a discrição.Cesar Gomes sorriu e bagunçou de leve o cabelo dela.— Vivi, você sempre tão sensata.Ao voltar para sua mesa, Vitória Vieira largou a caixa com o colar de lado, sem dar muita importância.Era inegável: Cesar Gomes sempre acertava em cheio nos presentes.Se não soubesse da traição dele, teria ficado tão feliz com aquele colar quanto ficava antes.Na hora do almoço, Vitória Vieira vasculhou todas as redes sociais de Cesar Gomes, mas não encontrou qualquer pista suspeita.As postagens dele, além das relacionadas à empresa, eram todas sobre ela.Ele vivia compartilhando fotos e declarações públicas de carinho, deixando os amigos sempre reclamando de tanto romantismo.Revisando aqueles momentos felizes do passado, Vitória Vieira sentiu apenas um vazio entorpecido.Foi então que, em uma dessas postagens antigas, um perfil que havia curtido o post chamou sua atenção.A imagem do perfil era uma mão delicada e pálida, usando uma pulseira idêntica àquela que Cesar Gomes já havia presenteado a ela.Sentindo um pressentimento, Vitória Vieira acessou o perfil daquela pessoa.A postagem mais recente era de um dia atrás: “Alguém atravessou o país para me enviar este colar. Amei ~”A foto mostrava o colar — exatamente igual ao que Cesar Gomes acabara de lhe dar.A edição especial da Solara, limitada a apenas duas peças.Vitória Vieira riu, sem emoção.Uma peça para ela, outra para aquela mulher. Cesar Gomes era mesmo habilidoso em “dividir igualmente”.Fechando o aplicativo, Vitória Vieira reservou uma passagem aérea para dali a um mês.O projeto atual, conduzido por ela e sua equipe, ainda teria duração de um mês. Aquele trabalho era fruto do esforço coletivo — não poderia simplesmente abandoná-lo.Daqui a um mês, ela partiria. Sairia dali de vez, longe de Cesar Gomes.Após confirmar a passagem, ela abriu outra conversa.“Pai, já decidi. Quero voltar para casa e ajudar nos negócios da família.Quanto ao casamento arranjado, eu concordo.”Ao cair da noite, na hora de sair do trabalho, Cesar Gomes deixou o escritório, com o paletó pendurado no braço.Vitória Vieira tinha acabado de se levantar quando ouviu a voz dele:— Hoje à noite tenho um jantar de negócios, pode ir pra casa antes.Jantar de negócios? Ela nunca tinha ouvido falar disso.Ela levantou o olhar para ele; Cesar Gomes a fitava com aquele olhar intenso e sedutor de sempre.No passado, não importava o que ele dissesse, ela nunca duvidava.— Entendi. — Vitória respondeu, mantendo a calma. — Tente não beber muito.Cesar Gomes afagou seus cabelos, sorrindo:— Vou seguir seu conselho.Vitória chamou um carro e ficou discretamente seguindo o de Cesar Gomes.Foram até o aeroporto.Mesmo com o movimento intenso, ela avistou Cesar Gomes de imediato.Ele estava impecável num terno preto feito sob medida, ainda mais elegante e distinto, impossível não se destacar na multidão.Ela então viu claramente uma mulher de cabelos longos correndo para os braços dele, e Cesar Gomes não a afastou, retribuindo o abraço com força.Os dois pareciam um casal perfeito, dignos de capa de revista.Depois do abraço, a mulher ainda se colocou na ponta dos pés para beijá-lo. Cesar tentou evitar, disse algo, mas ela insistiu até finalmente beijar seus lábios.Aquela cena de beijo apaixonado deixou Vitória enjoada.Mas o choque foi ainda maior.A mulher era ninguém menos que Cecília Gomes, irmã adotiva de Cesar Gomes.Cecília ficara órfã aos três anos, e como sua família era amiga íntima dos Gomes, acabou sendo acolhida por eles.Ela e Cesar cresceram juntos como irmãos. Inclusive, quando Vitória começou a namorar Cesar, ele fez questão de apresentá-las, e Cecília à época a chamava carinhosamente de “cunhada”.Três anos atrás, Cecília foi morar no exterior.Nunca imaginou que, por trás da fachada de irmãos, havia uma relação proibida — e que eles até haviam se casado oficialmente!Então, aquele acidente de carro… a verdadeira culpada era Cecília Gomes?...Mas o que Vitória não esperava era ver Cesar Gomes trazendo Cecília para casa.Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ele disse:— Vivi, minha irmã voltou ao Brasil. Ela vai ficar aqui com a gente por um tempo.Vitória cerrou os punhos, cravando as unhas na palma da mão.Ela ainda se lembrava de quando Cesar a trouxe pela primeira vez para aquele apartamento, acolhendo-a nos braços e dizendo:— Vivi, daqui pra frente, essa será a nossa casa. Só nossa.Ela acreditou que ali seria o lar eterno dos dois. Dedicou-se de corpo e alma a cada detalhe: cada reforma, cada móvel escolhido a dedo, tudo impregnado de suas esperanças.E agora, Cesar abria a porta para outra mulher.— Srta. Vieira, muito prazer. — Cecília sorriu para ela, mas nos olhos havia uma ponta de deboche e provocação quase imperceptíveis.Cinco anos atrás, ela chamava Vitória de “cunhada”. Agora, era apenas “Srta. Vieira”.Cesar olhou para Cecília com um misto de advertência e indulgência, mas não conseguiu esconder o carinho.Vitória pensou que Cesar realmente sabia como pisotear sua dignidade.Se ela não soubesse da verdade, talvez ainda estivesse ali, fazendo sala para Cecília como uma tola, achando tudo normal. Que piada seria para eles!— Mano, será que a Srta. Vieira não me quer aqui? — Cecília olhou para Cesar, com olhos marejados de inocência. — Sei que estou atrapalhando, posso ir pra um hotel, não tem problema...Cesar logo franziu a testa para Vitória, prestes a falar, mas foi interrompido por ela:— Não tem problema.As palavras de Cesar morreram na garganta.Vitória manteve-se serena:— Srta. Gomes, fique o tempo que quiser.Em seguida, virou-se e foi para o próprio quarto.Cecília continuava a vê-la como inimiga.Mal sabia ela que Vitória já não se importava — nem com aquela casa, nem com Cesar Gomes.Mesmo que fossem rivais, que fosse apenas por causa daquele acidente. Mas Vitória não demonstrou nada.Cecília ficou incomodada. Achou que Vitória faria um escândalo, mas ela permanecia fria e imperturbável.“Veremos...” Cecília pensou. “Quando ela descobrir que é só uma impostora, quero ver se consegue manter essa calma!”Cesar também se sentiu estranho. Resolveu ir atrás de Vitória no quarto:— Vivi, você realmente não ficou chateada?Ele sabia que Vitória nunca fazia escândalo, mas achava que, pelo menos, ela ficaria um pouco incomodada. Afinal, ele tinha prometido nunca trazer ninguém pra casa sem sua permissão.— Não fiquei. — Vitória respondeu de costas, sem emoção.— Sabia que você era a mais compreensiva... — Cesar a abraçou por trás. O calor de seu corpo deixou Vitória rígida, mas ele não percebeu. — Vivi, a Cecília é minha irmã, então é sua irmã também. Além disso, estou pensando em fazer negócios com a família Vieira da Cidade Capital, e Cecília tem muitos contatos lá...— O que você disse? — Vitória o interrompeu. — Cecília Gomes, com a família Vieira?— Sim, ela fez amizade com o pessoal da família Vieira enquanto estava fora, e a vovó Maria gosta muito dela.Vitória não conseguiu conter uma risada.Cesar olhou sem entender, mas continuou a explicação:— Você sabe que a família Vieira é uma das mais poderosas da Cidade Capital. Com a Cecília por perto, tudo ficará mais fácil pra mim.— Ótimo. — Vitória sorriu. — Então, parabéns antecipados, Diretor Cesar. Que realize todos os seus desejos.

Continue lendo