Capítulo 1Quando Ofélia Barbosa chegou ao aeroporto, o voo vindo dos Estados Unidos acabava de aterrissar.Hoje era o dia em que Kevin Guerra voltava para casa.Fazendo as contas, ela e Kevin já se conheciam havia exatos dez anos.Três anos de faculdade, sete anos desde a formatura.Se não fosse pela noite da cerimônia de formatura, quando acidentalmente beberam algo contaminado e acabaram juntos na cama, Kevin jamais teria se casado com ela.Para ele, ela era apenas uma colega comum, enquanto Kevin era o herdeiro da Família Guerra de Cidade Verde, de origem nobre, um verdadeiro filho do destino.Eles eram mundos à parte.Talvez por acreditar erroneamente que ela queria ascender socialmente, no dia seguinte ao casamento, Kevin, furioso, pegou um avião para os Estados Unidos.E assim se foram sete anos.Mas não importava, agora ele estava de volta. Se ela conseguisse explicar que não havia sido ela quem colocara algo na bebida naquela noite, talvez ainda houvesse salvação para o casamento deles.Ofélia olhava fixamente para a saída de desembarque.Os passageiros iam saindo um a um. Quando quase todos já tinham passado, ela ainda não encontrara quem procurava.Será que ele tinha mudado a passagem?O toque do telefone a interrompeu.Era Lucas ligando: "Mamãe, estou no mercado. O que você quer comer hoje à noite?"Ofélia pensou por um instante e disse os pratos que ele mais gostava: "Ovos mexidos com camarão, carne acebolada com batata, e pode fazer qualquer sopa.""Tá bom, mamãe.""Uhum, te amo." Após desligar, Ofélia guardou o telefone na bolsa.Ela e Kevin tinham um filho.Naquela noite caótica de sete anos atrás, ela descobriu que estava grávida.Naquela época, Kevin já estava no exterior. Ela ligou para ele diversas vezes, mas sempre aparecia que ele estava ocupado.Só depois percebeu que seu número havia sido bloqueado por ele.Ela passou três dias trancada em casa, sem ver ninguém.Órfã desde pequena, perdeu também os avós na faculdade. No mundo, já não tinha mais nenhum parente.Aquela vida que crescia em seu ventre parecia ser o último presente de ternura que o destino lhe oferecia.Quando finalmente saiu de casa, foi ao hospital para fazer o pré-natal e buscar os suplementos necessários.Ela queria ter alguém a quem pudesse chamar de família.Alguém que fosse só dela.Por isso, escondeu a gravidez de toda a Família Guerra e secretamente deu à luz Lucas.O tempo passou.Ninguém sabe quanto tempo mais esperou, até que, pelo canto dos olhos, finalmente viu Kevin.Ele puxava uma mala com uma mão, caminhando com passos tranquilos. Os traços perfeitos, proporções impecáveis, as mangas da camisa levemente dobradas, revelando antebraços fortes — agora, mais maduro, irradiava ainda mais charme masculino do que sete anos atrás.O tempo também parecia favorecê-lo.Só que a mala roxa em sua mão chamava um pouco a atenção.Ofélia, cheia de alegria, estava prestes a se aproximar, mas seus passos vacilaram de repente.Uma mulher alta veio apressada logo atrás, vestindo um sobretudo preto que combinava perfeitamente com o terno de Kevin. Os dois caminharam lado a lado.Ela conhecia aquela mulher.Francisca Reis.A amiga de infância de Kevin, uma brilhante graduada da Universidade Mundo.Diziam que Francisca era a pessoa mais provável de se casar com Kevin, mas ninguém esperava o que viria a acontecer naquela noite, quando Ofélia acabou se antecipando.Aquela mala devia ser de Francisca.Eles ficaram juntos durante esses sete anos nos Estados Unidos?Ofélia respirou fundo.Não adiantava imaginar coisas.Vinte anos de amizade de infância não se rompem facilmente. Ainda mais quando Kevin tinha um mal-entendido sobre ela. Era a chance de esclarecer tudo.Ofélia forçou um sorriso, deu um passo à frente e parou diante deles. "Kevin."A pessoa chamada parou lentamente, franzindo levemente as sobrancelhas. "O que você está fazendo aqui?"O sorriso de Ofélia ficou congelado em seu rosto, mas ela logo se recompôs e respondeu com um tom casual: "Vim buscar vocês no aeroporto.""Obrigada pelo incômodo, Ofélia." A voz de Francisca se intrometeu, com um sorriso no rosto. "Já faz sete anos que não volto ao país, não estou muito acostumada com as ruas da cidade. Você veio dirigindo?"Então, nesses sete anos, eles realmente ficaram juntos.Os olhos de Ofélia arderam, mas ela disse: "Vou levar vocês."...Dez minutos depois, um pequeno carro elétrico branco saiu do estacionamento subterrâneo.Ofélia olhava fixamente para a frente, segurando o volante com força.Sua habilidade ao volante não era das melhores. O escritório ficava tão perto de seu apartamento alugado que ela quase nunca precisava dirigir em sete anos.O ar estava muito silencioso.Kevin e Francisca sentavam-se no banco de trás, enquanto Ofélia estava sozinha no banco do motorista, parecendo até uma motorista de aplicativo."Senhora Reis, onde prefere descer?"Francisca se virou para Kevin com um tom leve: "Ouvi sua assistente dizer que você acabou de comprar um apartamento grande no bairro nobre da Zona Oeste. Posso ter a honra de ser sua inquilina?"Kevin pegou o celular e começou a digitar. "Vou providenciar.""Ótimo." Francisca sorriu radiante e logo passou o endereço para Ofélia.O silêncio voltou a dominar o carro.Talvez a presença dela os deixasse desconfortáveis.Na época da faculdade, por causa da amizade com Kelly Martins, Ofélia sempre era convidada para os jantares e festas do grupo deles.Mas, comparada àquele grupo de pessoas brilhantes, ela era quase invisível.Ninguém notava sua presença.E quanto mais ignorada era, mais famosa ficou depois de se casar com Kevin.No círculo de amigos de Kevin, todos sabiam que Ofélia era alguém que "tinha subido na vida" casando com um homem rico.Ela queria se explicar, mas não havia como. Na manhã seguinte, a garrafa suspeita de bebida simplesmente desaparecera.Sem provas, Ofélia só pôde aceitar a culpa, afinal, ela era a única a se beneficiar da situação.BAM—Um barulho de colisão veio da frente do carro.Ofélia pisou no freio com força, o coração disparado, só então percebendo que tinha batido em um Porsche, cuja traseira estava amassada.Dirigir distraída era um erro grave.Ofélia saiu do carro, frustrada, com os músculos fracos e o corpo sem forças, já imaginando o prejuízo que teria.Do banco do motorista do Porsche desceu um homem de meia-idade, barrigudo. Ao ver o rosto de Ofélia, ele ficou surpreso.Era uma mulher bonita.O rosto oval e delicado, sobrancelhas grossas e curvadas, lábios rosados, despertavam o desejo de beijá-la.Parecia alguém fácil de intimidar."Desculpe, senhor, o que o senhor acha que devo fazer para compensar? Estou à disposição."A voz dela também era agradável.O homem rapidamente mudou de atitude. "Ah, não é nada tão sério. Que tal, minha linda, procuramos uma cafeteria e conversamos com calma?"O olhar dele deixou Ofélia desconfortável. "Acho melhor chamar a polícia.""Ei, pra quê tanta pressa?"O homem avançou para agarrá-la, Ofélia recuou, mas não conseguiu evitar e acabou esbarrando em um peito quente.Ao olhar para trás, viu que era Kevin.Ofélia imediatamente deu um passo para o lado. "Por que você desceu?"O aroma suave que pairava no ar por apenas um segundo logo se dissipou, como se ele carregasse algum tipo de vírus.Kevin franziu a testa. "Você parece que precisa de ajuda."Uma frase extremamente formal.Na verdade, não estava errado; o vínculo entre eles era apenas um pouco mais próximo do que o de estranhos."Eu consigo resolver."Kevin olhou para as pessoas dentro do carro. "Não perca tempo."Ofélia apertou os lábios.É verdade, como ela poderia fazer Francisca perder tempo?"Então, resolva você."O homem de meia-idade não esperava que aquela jovem bonita já tivesse alguém, e o outro ainda aparentava ter bastante dinheiro, então conteve qualquer intenção.Kevin rapidamente chamou um advogado e resolveu a questão da indenização.Sentada no banco do motorista, Ofélia calculava quanto tempo levaria para pagar aquela dívida.Talvez vários anos.Aquele arranhão veio como um golpe duplo: não só aumentou ainda mais seus problemas financeiros, como também atingiu em cheio seu casamento já tão frágil.O que poderia ser pior do que o próprio marido se tornar seu credor?A janela foi batida, e a voz marcante de Kevin soou abafada: "Desça do carro."Ofélia, confusa, abriu a porta. No segundo seguinte, ouviu de novo a voz dele:"Sente ao lado."Ele queria dirigir o carro dela?!Por "ao lado"... seria atrás, talvez?Ofélia contornou o carro, abriu a porta dos fundos e entrou.Ao encostar as costas no banco de couro, percebeu que ainda havia ali um resquício de calor.O olhar de Kevin encontrou o rosto de Ofélia pelo retrovisor, suas sobrancelhas se franziram de forma quase imperceptível.O carro arrancou devagar.Ofélia olhou pela janela, pensando em quando conseguiria levar o carro para o conserto.No início do ano, passeando pelo shopping, ela viu que havia subsídio para comprar carros elétricos, então vendeu o antigo carro a gasolina. Mal sabia que, poucos meses depois, o novo veículo já estaria danificado, sem nem ter a quem reclamar."Ofélia, nesses sete anos, você tem estado bem?" Francisca perguntou de repente.Ofélia se surpreendeu; na época da faculdade, Francisca nunca lhe dera atenção, e em todos os anos de estudo, trocaram no máximo três frases. Sete anos depois, era estranho vê-la tão diferente."Estou bem."Francisca assentiu. "Se não me engano, você fez graduação em inteligência artificial, certo? Trabalha na área desde que se formou?"De certo modo, sim, mas não completamente.Após se formar, Ofélia enviou currículos para várias empresas de inteligência artificial.Ela era uma das melhores alunas da Universidade Mundo, com notas excelentes, passou nas entrevistas facilmente. Mas, ao entrar na empresa, percebeu que todo o departamento era masculino, e, como única mulher, foi deixada de lado.Nem chefes, nem colegas acreditavam que uma mulher pudesse ser realmente competente. As tarefas que lhe davam eram sempre secundárias, e, além disso, por ter tirado licença-maternidade, perdeu muitas oportunidades de mudar de emprego."Estou no departamento de pesquisa da Tecnologia MapNuvem." Ofélia respondeu com sinceridade.Francisca assentiu: "MapNuvem, uma empresa bem conhecida."Em seguida, olhou para a frente: "Kevin, se não estou errada, você já investiu na MapNuvem, não foi?"Ofélia olhou surpresa.Kevin era investidor da MapNuvem?! Em sete anos de empresa, ela nunca soube disso.Kevin apenas confirmou com um leve aceno, validando o que Francisca dissera.O coração de Ofélia disparou: será que ele sabia da licença-maternidade dela?!...No restante do trajeto, Ofélia não parou de observar o perfil de Kevin pelo retrovisor, tentando adivinhar se ele sabia da existência do filho.Provavelmente não.Se soubesse, já teria ido atrás dela para cobrar explicações.Na verdade, Ofélia não pretendia deixá-lo saber; tinha medo de que Kevin disputasse a guarda de Lucas.Capítulo 2Quando Ofélia Barbosa chegou ao aeroporto, o voo vindo dos Estados Unidos acabava de aterrissar.Hoje era o dia em que Kevin Guerra voltava para casa.Fazendo as contas, ela e Kevin já se conheciam havia exatos dez anos.Três anos de faculdade, sete anos desde a formatura.Se não fosse pela noite da cerimônia de formatura, quando acidentalmente beberam algo contaminado e acabaram juntos na cama, Kevin jamais teria se casado com ela.Para ele, ela era apenas uma colega comum, enquanto Kevin era o herdeiro da Família Guerra de Cidade Verde, de origem nobre, um verdadeiro filho do destino.Eles eram mundos à parte.Talvez por acreditar erroneamente que ela queria ascender socialmente, no dia seguinte ao casamento, Kevin, furioso, pegou um avião para os Estados Unidos.E assim se foram sete anos.Mas não importava, agora ele estava de volta. Se ela conseguisse explicar que não havia sido ela quem colocara algo na bebida naquela noite, talvez ainda houvesse salvação para o casamento deles.Ofélia olhava fixamente para a saída de desembarque.Os passageiros iam saindo um a um. Quando quase todos já tinham passado, ela ainda não encontrara quem procurava.Será que ele tinha mudado a passagem?O toque do telefone a interrompeu.Era Lucas ligando: "Mamãe, estou no mercado. O que você quer comer hoje à noite?"Ofélia pensou por um instante e disse os pratos que ele mais gostava: "Ovos mexidos com camarão, carne acebolada com batata, e pode fazer qualquer sopa.""Tá bom, mamãe.""Uhum, te amo." Após desligar, Ofélia guardou o telefone na bolsa.Ela e Kevin tinham um filho.Naquela noite caótica de sete anos atrás, ela descobriu que estava grávida.Naquela época, Kevin já estava no exterior. Ela ligou para ele diversas vezes, mas sempre aparecia que ele estava ocupado.Só depois percebeu que seu número havia sido bloqueado por ele.Ela passou três dias trancada em casa, sem ver ninguém.Órfã desde pequena, perdeu também os avós na faculdade. No mundo, já não tinha mais nenhum parente.Aquela vida que crescia em seu ventre parecia ser o último presente de ternura que o destino lhe oferecia.Quando finalmente saiu de casa, foi ao hospital para fazer o pré-natal e buscar os suplementos necessários.Ela queria ter alguém a quem pudesse chamar de família.Alguém que fosse só dela.Por isso, escondeu a gravidez de toda a Família Guerra e secretamente deu à luz Lucas.O tempo passou.Ninguém sabe quanto tempo mais esperou, até que, pelo canto dos olhos, finalmente viu Kevin.Ele puxava uma mala com uma mão, caminhando com passos tranquilos. Os traços perfeitos, proporções impecáveis, as mangas da camisa levemente dobradas, revelando antebraços fortes — agora, mais maduro, irradiava ainda mais charme masculino do que sete anos atrás.O tempo também parecia favorecê-lo.Só que a mala roxa em sua mão chamava um pouco a atenção.Ofélia, cheia de alegria, estava prestes a se aproximar, mas seus passos vacilaram de repente.Uma mulher alta veio apressada logo atrás, vestindo um sobretudo preto que combinava perfeitamente com o terno de Kevin. Os dois caminharam lado a lado.Ela conhecia aquela mulher.Francisca Reis.A amiga de infância de Kevin, uma brilhante graduada da Universidade Mundo.Diziam que Francisca era a pessoa mais provável de se casar com Kevin, mas ninguém esperava o que viria a acontecer naquela noite, quando Ofélia acabou se antecipando.Aquela mala devia ser de Francisca.Eles ficaram juntos durante esses sete anos nos Estados Unidos?Ofélia respirou fundo.Não adiantava imaginar coisas.Vinte anos de amizade de infância não se rompem facilmente. Ainda mais quando Kevin tinha um mal-entendido sobre ela. Era a chance de esclarecer tudo.Ofélia forçou um sorriso, deu um passo à frente e parou diante deles. "Kevin."A pessoa chamada parou lentamente, franzindo levemente as sobrancelhas. "O que você está fazendo aqui?"O sorriso de Ofélia ficou congelado em seu rosto, mas ela logo se recompôs e respondeu com um tom casual: "Vim buscar vocês no aeroporto.""Obrigada pelo incômodo, Ofélia." A voz de Francisca se intrometeu, com um sorriso no rosto. "Já faz sete anos que não volto ao país, não estou muito acostumada com as ruas da cidade. Você veio dirigindo?"Então, nesses sete anos, eles realmente ficaram juntos.Os olhos de Ofélia arderam, mas ela disse: "Vou levar vocês."...Dez minutos depois, um pequeno carro elétrico branco saiu do estacionamento subterrâneo.Ofélia olhava fixamente para a frente, segurando o volante com força.Sua habilidade ao volante não era das melhores. O escritório ficava tão perto de seu apartamento alugado que ela quase nunca precisava dirigir em sete anos.O ar estava muito silencioso.Kevin e Francisca sentavam-se no banco de trás, enquanto Ofélia estava sozinha no banco do motorista, parecendo até uma motorista de aplicativo."Senhora Reis, onde prefere descer?"Francisca se virou para Kevin com um tom leve: "Ouvi sua assistente dizer que você acabou de comprar um apartamento grande no bairro nobre da Zona Oeste. Posso ter a honra de ser sua inquilina?"Kevin pegou o celular e começou a digitar. "Vou providenciar.""Ótimo." Francisca sorriu radiante e logo passou o endereço para Ofélia.O silêncio voltou a dominar o carro.Talvez a presença dela os deixasse desconfortáveis.Na época da faculdade, por causa da amizade com Kelly Martins, Ofélia sempre era convidada para os jantares e festas do grupo deles.Mas, comparada àquele grupo de pessoas brilhantes, ela era quase invisível.Ninguém notava sua presença.E quanto mais ignorada era, mais famosa ficou depois de se casar com Kevin.No círculo de amigos de Kevin, todos sabiam que Ofélia era alguém que "tinha subido na vida" casando com um homem rico.Ela queria se explicar, mas não havia como. Na manhã seguinte, a garrafa suspeita de bebida simplesmente desaparecera.Sem provas, Ofélia só pôde aceitar a culpa, afinal, ela era a única a se beneficiar da situação.BAM—Um barulho de colisão veio da frente do carro.Ofélia pisou no freio com força, o coração disparado, só então percebendo que tinha batido em um Porsche, cuja traseira estava amassada.Dirigir distraída era um erro grave.Ofélia saiu do carro, frustrada, com os músculos fracos e o corpo sem forças, já imaginando o prejuízo que teria.Do banco do motorista do Porsche desceu um homem de meia-idade, barrigudo. Ao ver o rosto de Ofélia, ele ficou surpreso.Era uma mulher bonita.O rosto oval e delicado, sobrancelhas grossas e curvadas, lábios rosados, despertavam o desejo de beijá-la.Parecia alguém fácil de intimidar."Desculpe, senhor, o que o senhor acha que devo fazer para compensar? Estou à disposição."A voz dela também era agradável.O homem rapidamente mudou de atitude. "Ah, não é nada tão sério. Que tal, minha linda, procuramos uma cafeteria e conversamos com calma?"O olhar dele deixou Ofélia desconfortável. "Acho melhor chamar a polícia.""Ei, pra quê tanta pressa?"O homem avançou para agarrá-la, Ofélia recuou, mas não conseguiu evitar e acabou esbarrando em um peito quente.Ao olhar para trás, viu que era Kevin.Ofélia imediatamente deu um passo para o lado. "Por que você desceu?"O aroma suave que pairava no ar por apenas um segundo logo se dissipou, como se ele carregasse algum tipo de vírus.Kevin franziu a testa. "Você parece que precisa de ajuda."Uma frase extremamente formal.Na verdade, não estava errado; o vínculo entre eles era apenas um pouco mais próximo do que o de estranhos."Eu consigo resolver."Kevin olhou para as pessoas dentro do carro. "Não perca tempo."Ofélia apertou os lábios.É verdade, como ela poderia fazer Francisca perder tempo?"Então, resolva você."O homem de meia-idade não esperava que aquela jovem bonita já tivesse alguém, e o outro ainda aparentava ter bastante dinheiro, então conteve qualquer intenção.Kevin rapidamente chamou um advogado e resolveu a questão da indenização.Sentada no banco do motorista, Ofélia calculava quanto tempo levaria para pagar aquela dívida.Talvez vários anos.Aquele arranhão veio como um golpe duplo: não só aumentou ainda mais seus problemas financeiros, como também atingiu em cheio seu casamento já tão frágil.O que poderia ser pior do que o próprio marido se tornar seu credor?A janela foi batida, e a voz marcante de Kevin soou abafada: "Desça do carro."Ofélia, confusa, abriu a porta. No segundo seguinte, ouviu de novo a voz dele:"Sente ao lado."Ele queria dirigir o carro dela?!Por "ao lado"... seria atrás, talvez?Ofélia contornou o carro, abriu a porta dos fundos e entrou.Ao encostar as costas no banco de couro, percebeu que ainda havia ali um resquício de calor.O olhar de Kevin encontrou o rosto de Ofélia pelo retrovisor, suas sobrancelhas se franziram de forma quase imperceptível.O carro arrancou devagar.Ofélia olhou pela janela, pensando em quando conseguiria levar o carro para o conserto.No início do ano, passeando pelo shopping, ela viu que havia subsídio para comprar carros elétricos, então vendeu o antigo carro a gasolina. Mal sabia que, poucos meses depois, o novo veículo já estaria danificado, sem nem ter a quem reclamar."Ofélia, nesses sete anos, você tem estado bem?" Francisca perguntou de repente.Ofélia se surpreendeu; na época da faculdade, Francisca nunca lhe dera atenção, e em todos os anos de estudo, trocaram no máximo três frases. Sete anos depois, era estranho vê-la tão diferente."Estou bem."Francisca assentiu. "Se não me engano, você fez graduação em inteligência artificial, certo? Trabalha na área desde que se formou?"De certo modo, sim, mas não completamente.Após se formar, Ofélia enviou currículos para várias empresas de inteligência artificial.Ela era uma das melhores alunas da Universidade Mundo, com notas excelentes, passou nas entrevistas facilmente. Mas, ao entrar na empresa, percebeu que todo o departamento era masculino, e, como única mulher, foi deixada de lado.Nem chefes, nem colegas acreditavam que uma mulher pudesse ser realmente competente. As tarefas que lhe davam eram sempre secundárias, e, além disso, por ter tirado licença-maternidade, perdeu muitas oportunidades de mudar de emprego."Estou no departamento de pesquisa da Tecnologia MapNuvem." Ofélia respondeu com sinceridade.Francisca assentiu: "MapNuvem, uma empresa bem conhecida."Em seguida, olhou para a frente: "Kevin, se não estou errada, você já investiu na MapNuvem, não foi?"Ofélia olhou surpresa.Kevin era investidor da MapNuvem?! Em sete anos de empresa, ela nunca soube disso.Kevin apenas confirmou com um leve aceno, validando o que Francisca dissera.O coração de Ofélia disparou: será que ele sabia da licença-maternidade dela?!...No restante do trajeto, Ofélia não parou de observar o perfil de Kevin pelo retrovisor, tentando adivinhar se ele sabia da existência do filho.Provavelmente não.Se soubesse, já teria ido atrás dela para cobrar explicações.Na verdade, Ofélia não pretendia deixá-lo saber; tinha medo de que Kevin disputasse a guarda de Lucas.Capítulo 3Quando Ofélia Barbosa chegou ao aeroporto, o voo vindo dos Estados Unidos acabava de aterrissar.Hoje era o dia em que Kevin Guerra voltava para casa.Fazendo as contas, ela e Kevin já se conheciam havia exatos dez anos.Três anos de faculdade, sete anos desde a formatura.Se não fosse pela noite da cerimônia de formatura, quando acidentalmente beberam algo contaminado e acabaram juntos na cama, Kevin jamais teria se casado com ela.Para ele, ela era apenas uma colega comum, enquanto Kevin era o herdeiro da Família Guerra de Cidade Verde, de origem nobre, um verdadeiro filho do destino.Eles eram mundos à parte.Talvez por acreditar erroneamente que ela queria ascender socialmente, no dia seguinte ao casamento, Kevin, furioso, pegou um avião para os Estados Unidos.E assim se foram sete anos.Mas não importava, agora ele estava de volta. Se ela conseguisse explicar que não havia sido ela quem colocara algo na bebida naquela noite, talvez ainda houvesse salvação para o casamento deles.Ofélia olhava fixamente para a saída de desembarque.Os passageiros iam saindo um a um. Quando quase todos já tinham passado, ela ainda não encontrara quem procurava.Será que ele tinha mudado a passagem?O toque do telefone a interrompeu.Era Lucas ligando: "Mamãe, estou no mercado. O que você quer comer hoje à noite?"Ofélia pensou por um instante e disse os pratos que ele mais gostava: "Ovos mexidos com camarão, carne acebolada com batata, e pode fazer qualquer sopa.""Tá bom, mamãe.""Uhum, te amo." Após desligar, Ofélia guardou o telefone na bolsa.Ela e Kevin tinham um filho.Naquela noite caótica de sete anos atrás, ela descobriu que estava grávida.Naquela época, Kevin já estava no exterior. Ela ligou para ele diversas vezes, mas sempre aparecia que ele estava ocupado.Só depois percebeu que seu número havia sido bloqueado por ele.Ela passou três dias trancada em casa, sem ver ninguém.Órfã desde pequena, perdeu também os avós na faculdade. No mundo, já não tinha mais nenhum parente.Aquela vida que crescia em seu ventre parecia ser o último presente de ternura que o destino lhe oferecia.Quando finalmente saiu de casa, foi ao hospital para fazer o pré-natal e buscar os suplementos necessários.Ela queria ter alguém a quem pudesse chamar de família.Alguém que fosse só dela.Por isso, escondeu a gravidez de toda a Família Guerra e secretamente deu à luz Lucas.O tempo passou.Ninguém sabe quanto tempo mais esperou, até que, pelo canto dos olhos, finalmente viu Kevin.Ele puxava uma mala com uma mão, caminhando com passos tranquilos. Os traços perfeitos, proporções impecáveis, as mangas da camisa levemente dobradas, revelando antebraços fortes — agora, mais maduro, irradiava ainda mais charme masculino do que sete anos atrás.O tempo também parecia favorecê-lo.Só que a mala roxa em sua mão chamava um pouco a atenção.Ofélia, cheia de alegria, estava prestes a se aproximar, mas seus passos vacilaram de repente.Uma mulher alta veio apressada logo atrás, vestindo um sobretudo preto que combinava perfeitamente com o terno de Kevin. Os dois caminharam lado a lado.Ela conhecia aquela mulher.Francisca Reis.A amiga de infância de Kevin, uma brilhante graduada da Universidade Mundo.Diziam que Francisca era a pessoa mais provável de se casar com Kevin, mas ninguém esperava o que viria a acontecer naquela noite, quando Ofélia acabou se antecipando.Aquela mala devia ser de Francisca.Eles ficaram juntos durante esses sete anos nos Estados Unidos?Ofélia respirou fundo.Não adiantava imaginar coisas.Vinte anos de amizade de infância não se rompem facilmente. Ainda mais quando Kevin tinha um mal-entendido sobre ela. Era a chance de esclarecer tudo.Ofélia forçou um sorriso, deu um passo à frente e parou diante deles. "Kevin."A pessoa chamada parou lentamente, franzindo levemente as sobrancelhas. "O que você está fazendo aqui?"O sorriso de Ofélia ficou congelado em seu rosto, mas ela logo se recompôs e respondeu com um tom casual: "Vim buscar vocês no aeroporto.""Obrigada pelo incômodo, Ofélia." A voz de Francisca se intrometeu, com um sorriso no rosto. "Já faz sete anos que não volto ao país, não estou muito acostumada com as ruas da cidade. Você veio dirigindo?"Então, nesses sete anos, eles realmente ficaram juntos.Os olhos de Ofélia arderam, mas ela disse: "Vou levar vocês."...Dez minutos depois, um pequeno carro elétrico branco saiu do estacionamento subterrâneo.Ofélia olhava fixamente para a frente, segurando o volante com força.Sua habilidade ao volante não era das melhores. O escritório ficava tão perto de seu apartamento alugado que ela quase nunca precisava dirigir em sete anos.O ar estava muito silencioso.Kevin e Francisca sentavam-se no banco de trás, enquanto Ofélia estava sozinha no banco do motorista, parecendo até uma motorista de aplicativo."Senhora Reis, onde prefere descer?"Francisca se virou para Kevin com um tom leve: "Ouvi sua assistente dizer que você acabou de comprar um apartamento grande no bairro nobre da Zona Oeste. Posso ter a honra de ser sua inquilina?"Kevin pegou o celular e começou a digitar. "Vou providenciar.""Ótimo." Francisca sorriu radiante e logo passou o endereço para Ofélia.O silêncio voltou a dominar o carro.Talvez a presença dela os deixasse desconfortáveis.Na época da faculdade, por causa da amizade com Kelly Martins, Ofélia sempre era convidada para os jantares e festas do grupo deles.Mas, comparada àquele grupo de pessoas brilhantes, ela era quase invisível.Ninguém notava sua presença.E quanto mais ignorada era, mais famosa ficou depois de se casar com Kevin.No círculo de amigos de Kevin, todos sabiam que Ofélia era alguém que "tinha subido na vida" casando com um homem rico.Ela queria se explicar, mas não havia como. Na manhã seguinte, a garrafa suspeita de bebida simplesmente desaparecera.Sem provas, Ofélia só pôde aceitar a culpa, afinal, ela era a única a se beneficiar da situação.BAM—Um barulho de colisão veio da frente do carro.Ofélia pisou no freio com força, o coração disparado, só então percebendo que tinha batido em um Porsche, cuja traseira estava amassada.Dirigir distraída era um erro grave.Ofélia saiu do carro, frustrada, com os músculos fracos e o corpo sem forças, já imaginando o prejuízo que teria.Do banco do motorista do Porsche desceu um homem de meia-idade, barrigudo. Ao ver o rosto de Ofélia, ele ficou surpreso.Era uma mulher bonita.O rosto oval e delicado, sobrancelhas grossas e curvadas, lábios rosados, despertavam o desejo de beijá-la.Parecia alguém fácil de intimidar."Desculpe, senhor, o que o senhor acha que devo fazer para compensar? Estou à disposição."A voz dela também era agradável.O homem rapidamente mudou de atitude. "Ah, não é nada tão sério. Que tal, minha linda, procuramos uma cafeteria e conversamos com calma?"O olhar dele deixou Ofélia desconfortável. "Acho melhor chamar a polícia.""Ei, pra quê tanta pressa?"O homem avançou para agarrá-la, Ofélia recuou, mas não conseguiu evitar e acabou esbarrando em um peito quente.Ao olhar para trás, viu que era Kevin.Ofélia imediatamente deu um passo para o lado. "Por que você desceu?"O aroma suave que pairava no ar por apenas um segundo logo se dissipou, como se ele carregasse algum tipo de vírus.Kevin franziu a testa. "Você parece que precisa de ajuda."Uma frase extremamente formal.Na verdade, não estava errado; o vínculo entre eles era apenas um pouco mais próximo do que o de estranhos."Eu consigo resolver."Kevin olhou para as pessoas dentro do carro. "Não perca tempo."Ofélia apertou os lábios.É verdade, como ela poderia fazer Francisca perder tempo?"Então, resolva você."O homem de meia-idade não esperava que aquela jovem bonita já tivesse alguém, e o outro ainda aparentava ter bastante dinheiro, então conteve qualquer intenção.Kevin rapidamente chamou um advogado e resolveu a questão da indenização.Sentada no banco do motorista, Ofélia calculava quanto tempo levaria para pagar aquela dívida.Talvez vários anos.Aquele arranhão veio como um golpe duplo: não só aumentou ainda mais seus problemas financeiros, como também atingiu em cheio seu casamento já tão frágil.O que poderia ser pior do que o próprio marido se tornar seu credor?A janela foi batida, e a voz marcante de Kevin soou abafada: "Desça do carro."Ofélia, confusa, abriu a porta. No segundo seguinte, ouviu de novo a voz dele:"Sente ao lado."Ele queria dirigir o carro dela?!Por "ao lado"... seria atrás, talvez?Ofélia contornou o carro, abriu a porta dos fundos e entrou.Ao encostar as costas no banco de couro, percebeu que ainda havia ali um resquício de calor.O olhar de Kevin encontrou o rosto de Ofélia pelo retrovisor, suas sobrancelhas se franziram de forma quase imperceptível.O carro arrancou devagar.Ofélia olhou pela janela, pensando em quando conseguiria levar o carro para o conserto.No início do ano, passeando pelo shopping, ela viu que havia subsídio para comprar carros elétricos, então vendeu o antigo carro a gasolina. Mal sabia que, poucos meses depois, o novo veículo já estaria danificado, sem nem ter a quem reclamar."Ofélia, nesses sete anos, você tem estado bem?" Francisca perguntou de repente.Ofélia se surpreendeu; na época da faculdade, Francisca nunca lhe dera atenção, e em todos os anos de estudo, trocaram no máximo três frases. Sete anos depois, era estranho vê-la tão diferente."Estou bem."Francisca assentiu. "Se não me engano, você fez graduação em inteligência artificial, certo? Trabalha na área desde que se formou?"De certo modo, sim, mas não completamente.Após se formar, Ofélia enviou currículos para várias empresas de inteligência artificial.Ela era uma das melhores alunas da Universidade Mundo, com notas excelentes, passou nas entrevistas facilmente. Mas, ao entrar na empresa, percebeu que todo o departamento era masculino, e, como única mulher, foi deixada de lado.Nem chefes, nem colegas acreditavam que uma mulher pudesse ser realmente competente. As tarefas que lhe davam eram sempre secundárias, e, além disso, por ter tirado licença-maternidade, perdeu muitas oportunidades de mudar de emprego."Estou no departamento de pesquisa da Tecnologia MapNuvem." Ofélia respondeu com sinceridade.Francisca assentiu: "MapNuvem, uma empresa bem conhecida."Em seguida, olhou para a frente: "Kevin, se não estou errada, você já investiu na MapNuvem, não foi?"Ofélia olhou surpresa.Kevin era investidor da MapNuvem?! Em sete anos de empresa, ela nunca soube disso.Kevin apenas confirmou com um leve aceno, validando o que Francisca dissera.O coração de Ofélia disparou: será que ele sabia da licença-maternidade dela?!...No restante do trajeto, Ofélia não parou de observar o perfil de Kevin pelo retrovisor, tentando adivinhar se ele sabia da existência do filho.Provavelmente não.Se soubesse, já teria ido atrás dela para cobrar explicações.Na verdade, Ofélia não pretendia deixá-lo saber; tinha medo de que Kevin disputasse a guarda de Lucas.