Capítulo 1O ar quente e húmido de Porto Palma envolveu Elara Almeida Monteiro assim que ela saiu do aeroporto.Era um abraço pegajoso e estranho, muito diferente do que ela ansiava. Durante todo o voo de Aethel, ela só conseguia pensar no abraço apertado da sua filha, Sofi, e no sorriso raro mas genuíno do seu marido, Dante.Hoje, no seu vigésimo oitavo aniversário, essa era a única prenda que desejava.A mansão na Ilha Esmeralda erguia-se branca e imponente contra o céu azul. A sua beleza, porém, pareceu fria quando Elara entrou na casa silenciosa, arrastando a sua mala.—Sofi?Uma risada infantil veio da sala de estar. O coração de Elara aqueceu.Ela encontrou a filha de cinco anos no chão de mármore, completamente absorta em papel de embrulho e fitas douradas.—Olha o que eu trouxe para você, meu amor.Elara ajoelhou-se, mostrando um pequeno unicórnio de pelúcia. Sofi mal olhou para cima.—Obrigada, mãe.A voz dela era indiferente. Os seus pequenos dedos trabalhavam com uma concentração feroz num laço.—O que você está a fazer com tanto cuidado? O papai não está?—Papai teve de sair. Estou a acabar o presente de aniversário para a Tia Livia.O nome pairou no ar, pesado e indesejado. Livia Viana.—É o aniversário dela? — A voz de Elara saiu mais fraca do que ela pretendia.Sofia finalmente olhou para ela, e não havia alegria nos seus olhos escuros. Apenas irritação.—Sim. Você está a atrapalhar o meu laço.A palavra "atrapalhar" foi como um tapa. Elara recuou, o unicórnio a escorregar dos seus dedos. Sua própria filha, que ela não via há um mês, a tratava como uma intrusa.No quarto, o silêncio era esmagador. Ela pegou no telemóvel, as mãos a tremer ligeiramente enquanto discava o número de Dante. Atenderam quase instantaneamente.—Dante?—Ele está no banho agora.A voz era de Livia. Suave como seda, afiada como uma faca. Elara ouviu Dante a perguntar ao fundo, "Quem é?", antes de a chamada ser desligada.O telemóvel escuro refletiu o seu rosto pálido.Na manhã seguinte, ela engoliu o seu orgulho junto com o café. Ela tinha de tentar. Por Sofi. Por si mesma.Enviou uma mensagem a Dante: "Podemos almoçar juntos hoje? Para comemorar a minha chegada."A resposta dele veio um minuto depois: "Claro. Meio-dia."Uma pequena e traiçoeira faísca de esperança acendeu-se no peito de Elara. Talvez tivesse sido tudo um mal-entendido.Sentindo-se um pouco mais leve, ela foi até ao quarto de Sofi para a ajudar a vestir-se. Parou à porta, invisível, ao ouvir a filha a conversar com a babá.—Eu não quero que a mamãe venha. A comida com a Tia Livia é mais gostosa.A babá murmurou algo que Elara não conseguiu ouvir. A voz de Sofi, no entanto, soou clara e aguda.—A Tia Livia não pode ser a minha mãe?O mundo de Elara parou. O som desapareceu, substituído por um zumbido agudo nos seus ouvidos. Ela agarrou-se ao batente da porta, o ar a faltar-lhe nos pulmões.Sem uma palavra, ela virou-se, pegou na sua bolsa e nas chaves do carro, e saiu daquela casa sufocante.Conduzia sem rumo quando, ao meio-dia, o seu telemóvel apitou com a mensagem de Dante."Tive uma reunião de emergência. Não posso ir almoçar. Divirta-se."Um riso seco e amargo escapou dos seus lábios. Foi nesse momento que o seu olhar se desviou para um restaurante com fachada de vidro no Distrito Central.Numa mesa iluminada pelo sol, Dante ria. Livia, com um vestido de verão esvoaçante, sorria para ele. E entre eles, no seu lugar, estava Sofi, a comer alegremente uma sobremesa.Eles eram uma fotografia. Uma família perfeita. E ela era a estranha a olhar de fora.O caminho de volta para a mansão foi um borrão. Ela entrou na casa, que agora parecia o mausoléu do seu casamento.Subiu diretamente para o escritório de Dante. Com uma calma assustadora, pegou numa caneta e numa folha de papel timbrado do Grupo Âncora."Acordo de Divórcio", escreveu ela no topo. As suas mãos não tremiam mais.Quando terminou, dobrou o papel com precisão, selou-o num envelope e desceu as escadas.A babá encontrou-a no átrio. Elara estendeu-lhe o envelope.—Entregue isto ao senhor Monteiro quando ele chegar.A sua voz estava fria e nivelada. A mulher que esperava por migalhas de afeto tinha desaparecido.Elara subiu as esceras, pegou na sua mala e desceu novamente, tudo num único movimento fluido.Ela caminhou em direção à porta da frente, sem olhar para trás uma única vez.A porta de madeira maciça abriu-se, revelando o sol ofuscante do lado de fora.As rodas da sua mala fizeram um som agudo e decisivo contra o mármore polido.Naquela noite, em Porto Palma, a brisa salgada do mar entrava pelas portas abertas da varanda da mansão. Dante entrou, carregando uma Sofia sonolenta e risonha nos braços. O dia no iate com Livia tinha sido perfeito.—Papai, a mamãe não vai nos seguir no passeio de barco amanhã, vai? A cara dela estava tão esquisita.Dante sorriu com desdém.—Não se preocupe, meu bem. A mamãe só precisa de um tempo para pensar. Ela não vai.Ele deitou a filha na sua cama macia. Foi então que a babá se aproximou, com o corpo tenso e um envelope branco na mão.—Senhor Monteiro, a senhora Monteiro deixou isto para si. Ela fez as malas e partiu para Solaria por volta do meio-dia.Dante franziu o sobrolho, pegando no envelope. O nome dela, Elara, não estava escrito nele. Era impessoal, formal. Outra birra. Cansativa. Ele sentia uma pontada de irritação, não de preocupação.Nesse exato momento, o seu telemóvel vibrou. O nome "Livia" iluminou o ecrã. A irritação de Dante dissolveu-se, substituída por um calor imediato.—Já estou a tratar disso. Não, claro que não. Não te preocupes com ela — disse ele, a sua voz a suavizar instantaneamente.Enquanto caminhava para fora do quarto, para ter mais privacidade, atirou o envelope para cima da cama com um gesto descuidado. O envelope deslizou pelo edredão de seda, caindo sem som no tapete felpudo, onde ficou, esquecido sob a sombra da cama.Na manhã seguinte, a arrumadeira aspirava o quarto com uma eficiência diligente. Ao mover a mobília, viu o envelope branco. "O senhor Monteiro deve tê-lo deixado cair", pensou ela. Presumindo que o conteúdo já tinha sido lido e era para ser guardado, abriu a gaveta da mesa de cabeceira e colocou-o lá dentro, por baixo de um guia de hotéis e de alguns cartões de visita.O acordo de divórcio desapareceu no esquecimento.Ao mesmo tempo, em Aethel, Elara abriu a porta da casa que tinha sido a sua gaiola dourada. O ar estava parado, cheirando a um perfume de flores que ele lhe tinha dado e que ela odiava. Uma fotografia dos dois no dia do casamento estava na lareira. Ele parecia poderoso; ela, decorativa.Ela desviou o olhar e subiu as escadas, ignorando o closet cheio de vestidos de grife e sapatos que nunca tinha escolhido. Eram o uniforme de "Senhora Monteiro". Deixou-os todos para trás.Numa mala separada, colocou cuidadosamente os seus bens mais preciosos: os seus livros de programação, os seus diários de investigação da universidade e um blazer simples que usara quando ganhara o seu primeiro prémio de tecnologia. Eram os restos da mulher que tinha sido.Sentada à secretária de mogno de Dante, abriu o seu portátil. Com dedos firmes, navegou até ao home banking. O saldo da conta que ele recheava mensalmente era de trinta milhões, setecentos e quarenta e dois mil reais solarianos. O preço da sua obediência.O processo de transferência foi frio e metódico. O clique do teclado era o único som no silêncio da casa. Uma barra de progresso verde encheu-se. Transferência concluída.Ela levantou-se, deixando para trás os cartões de crédito inúteis, alinhados como lápides sobre a madeira polida.Uma hora mais tarde, a porta do seu novo apartamento fechou-se atrás dela. Era mais pequeno, anónimo, mas cada centímetro era seu.O seu telemóvel tocou. Um alarme suave com a etiqueta: "Ligar para Sofi". Um ritual diário que se tornara uma faca no seu coração. O seu polegar pairou sobre o ecrã. Um último suspiro trémulo. Apagar.A centenas de quilómetros de distância, Sofi olhou para o relógio da cozinha. Já passava cinco minutos da hora da chamada. Nada. Um sorriso secreto e triunfante espalhou-se pelo seu rosto.—Vamos, estou atrasada para a escola! — gritou ela à babá, a sua voz cheia de uma alegria invulgar.Ela saiu de propósito mais cedo, para ter a certeza de que perderia a chamada que, desta vez, nunca chegaria.A porta da frente bateu com força, ecoando pela casa vazia.---Na manhã de segunda-feira, o átrio do edifício do Grupo Âncora era uma colmeia de ambição e poder. Mármore polido, aço frio e executivos apressados. Elara atravessou-o, sentindo os olhares curiosos. A esposa do CEO raramente visitava, e nunca com uma expressão tão determinada.Ela não parou até chegar ao andar da direção, onde o ar era mais rarefeito e os passos eram abafados por tapetes caros. Cássio, o Assistente Executivo de Dante, levantou a cabeça do seu trabalho, a sua expressão profissional a vacilar com surpresa.—Dona Elara. O senhor Monteiro está em teletrabalho de Porto Palma esta semana.—Eu sei, Cássio. Isto não é para ele. É para a empresa.Ela colocou a carta de demissão branca e imaculada na sua secretária. A palavra "Demissão" estava visível no topo.Cássio ficou de queixo caído. Ele tinha trabalhado ao lado dela. Tinha visto Elara organizar eventos de caridade impecáveis, gerir horários complexos e até mesmo traduzir documentos técnicos para investidores estrangeiros, tudo na esperança de um aceno de aprovação do marido. E o seu desempenho era lendário no departamento.—Mas... porquê? Foi o senhor Monteiro que pediu isto?—A decisão é minha, e é final. Tenha um bom dia.A sua calma era mais chocante do que qualquer explosão de raiva. Ela virou-se e foi-se embora, deixando um Cássio atordoado para trás.Uma hora mais tarde, Cássio estava numa videochamada com Dante. O rosto do seu chefe estava focado, impaciente. Discutiam uma aquisição hostil.—...e certifique-se de que a equipa jurídica está pronta — disse Dante.Cássio olhou para a carta de demissão na sua secretária. O seu instinto dizia-lhe para falar, para avisar o seu chefe. Ele abriu a boca.—Senhor, há mais uma coisa... sobre a senhora Montei...Ele parou. A lembrança da ordem fria de Dante de há dois anos ecoou na sua mente: "Não me relate nada sobre a Elara. Os seus assuntos são irrelevantes para os negócios." Ameaçar um negócio de mil milhões de reais por causa da esposa que o próprio CEO ignorava? Era suicídio profissional.Cássio engoliu em seco.—...sobre a equipa de Monteiro. Eles estão prontos.Dante assentiu, já a passar para o próximo ponto, completamente ignorante da bomba que acabara de ser evitada.À hora do almoço, na copa, uma colega, Beatriz, sentou-se ao lado de Elara.—Elara, que estranho não te ver a sair para ligar para a tua filha. Está tudo bem?Elara bebeu um gole do seu café, o calor a espalhar-se pelas suas mãos.—Está tudo ótimo, Bia. Apenas a mudar a minha rotina.A sua resposta tranquila e o sorriso subtil não convidavam a mais perguntas.Naquela noite, no seu apartamento espartano, a única luz vinha do seu ecrã de portátil. A página da "Cúpula de Tecnologia de Aethel" estava aberta. Era um regresso a um mundo que ela pensava ter perdido.Ela percorreu a sua antiga lista de contactos, o seu coração a bater um pouco mais depressa. Encontrou o nome. Gael Costa. O seu parceiro de programação na UIA. O cofundador da sua pequena startup, a PrismaTech, que ela abandonara por Dante.Respirou fundo, sentindo uma mistura de nervosismo e excitação. Era a primeira chamada para o seu futuro.O seu dedo pressionou o botão de chamada.—Gael? Sou eu, Elara. Preciso de um favor.---Capítulo 2O ar quente e húmido de Porto Palma envolveu Elara Almeida Monteiro assim que ela saiu do aeroporto.Era um abraço pegajoso e estranho, muito diferente do que ela ansiava. Durante todo o voo de Aethel, ela só conseguia pensar no abraço apertado da sua filha, Sofi, e no sorriso raro mas genuíno do seu marido, Dante.Hoje, no seu vigésimo oitavo aniversário, essa era a única prenda que desejava.A mansão na Ilha Esmeralda erguia-se branca e imponente contra o céu azul. A sua beleza, porém, pareceu fria quando Elara entrou na casa silenciosa, arrastando a sua mala.—Sofi?Uma risada infantil veio da sala de estar. O coração de Elara aqueceu.Ela encontrou a filha de cinco anos no chão de mármore, completamente absorta em papel de embrulho e fitas douradas.—Olha o que eu trouxe para você, meu amor.Elara ajoelhou-se, mostrando um pequeno unicórnio de pelúcia. Sofi mal olhou para cima.—Obrigada, mãe.A voz dela era indiferente. Os seus pequenos dedos trabalhavam com uma concentração feroz num laço.—O que você está a fazer com tanto cuidado? O papai não está?—Papai teve de sair. Estou a acabar o presente de aniversário para a Tia Livia.O nome pairou no ar, pesado e indesejado. Livia Viana.—É o aniversário dela? — A voz de Elara saiu mais fraca do que ela pretendia.Sofia finalmente olhou para ela, e não havia alegria nos seus olhos escuros. Apenas irritação.—Sim. Você está a atrapalhar o meu laço.A palavra "atrapalhar" foi como um tapa. Elara recuou, o unicórnio a escorregar dos seus dedos. Sua própria filha, que ela não via há um mês, a tratava como uma intrusa.No quarto, o silêncio era esmagador. Ela pegou no telemóvel, as mãos a tremer ligeiramente enquanto discava o número de Dante. Atenderam quase instantaneamente.—Dante?—Ele está no banho agora.A voz era de Livia. Suave como seda, afiada como uma faca. Elara ouviu Dante a perguntar ao fundo, "Quem é?", antes de a chamada ser desligada.O telemóvel escuro refletiu o seu rosto pálido.Na manhã seguinte, ela engoliu o seu orgulho junto com o café. Ela tinha de tentar. Por Sofi. Por si mesma.Enviou uma mensagem a Dante: "Podemos almoçar juntos hoje? Para comemorar a minha chegada."A resposta dele veio um minuto depois: "Claro. Meio-dia."Uma pequena e traiçoeira faísca de esperança acendeu-se no peito de Elara. Talvez tivesse sido tudo um mal-entendido.Sentindo-se um pouco mais leve, ela foi até ao quarto de Sofi para a ajudar a vestir-se. Parou à porta, invisível, ao ouvir a filha a conversar com a babá.—Eu não quero que a mamãe venha. A comida com a Tia Livia é mais gostosa.A babá murmurou algo que Elara não conseguiu ouvir. A voz de Sofi, no entanto, soou clara e aguda.—A Tia Livia não pode ser a minha mãe?O mundo de Elara parou. O som desapareceu, substituído por um zumbido agudo nos seus ouvidos. Ela agarrou-se ao batente da porta, o ar a faltar-lhe nos pulmões.Sem uma palavra, ela virou-se, pegou na sua bolsa e nas chaves do carro, e saiu daquela casa sufocante.Conduzia sem rumo quando, ao meio-dia, o seu telemóvel apitou com a mensagem de Dante."Tive uma reunião de emergência. Não posso ir almoçar. Divirta-se."Um riso seco e amargo escapou dos seus lábios. Foi nesse momento que o seu olhar se desviou para um restaurante com fachada de vidro no Distrito Central.Numa mesa iluminada pelo sol, Dante ria. Livia, com um vestido de verão esvoaçante, sorria para ele. E entre eles, no seu lugar, estava Sofi, a comer alegremente uma sobremesa.Eles eram uma fotografia. Uma família perfeita. E ela era a estranha a olhar de fora.O caminho de volta para a mansão foi um borrão. Ela entrou na casa, que agora parecia o mausoléu do seu casamento.Subiu diretamente para o escritório de Dante. Com uma calma assustadora, pegou numa caneta e numa folha de papel timbrado do Grupo Âncora."Acordo de Divórcio", escreveu ela no topo. As suas mãos não tremiam mais.Quando terminou, dobrou o papel com precisão, selou-o num envelope e desceu as escadas.A babá encontrou-a no átrio. Elara estendeu-lhe o envelope.—Entregue isto ao senhor Monteiro quando ele chegar.A sua voz estava fria e nivelada. A mulher que esperava por migalhas de afeto tinha desaparecido.Elara subiu as esceras, pegou na sua mala e desceu novamente, tudo num único movimento fluido.Ela caminhou em direção à porta da frente, sem olhar para trás uma única vez.A porta de madeira maciça abriu-se, revelando o sol ofuscante do lado de fora.As rodas da sua mala fizeram um som agudo e decisivo contra o mármore polido.Naquela noite, em Porto Palma, a brisa salgada do mar entrava pelas portas abertas da varanda da mansão. Dante entrou, carregando uma Sofia sonolenta e risonha nos braços. O dia no iate com Livia tinha sido perfeito.—Papai, a mamãe não vai nos seguir no passeio de barco amanhã, vai? A cara dela estava tão esquisita.Dante sorriu com desdém.—Não se preocupe, meu bem. A mamãe só precisa de um tempo para pensar. Ela não vai.Ele deitou a filha na sua cama macia. Foi então que a babá se aproximou, com o corpo tenso e um envelope branco na mão.—Senhor Monteiro, a senhora Monteiro deixou isto para si. Ela fez as malas e partiu para Solaria por volta do meio-dia.Dante franziu o sobrolho, pegando no envelope. O nome dela, Elara, não estava escrito nele. Era impessoal, formal. Outra birra. Cansativa. Ele sentia uma pontada de irritação, não de preocupação.Nesse exato momento, o seu telemóvel vibrou. O nome "Livia" iluminou o ecrã. A irritação de Dante dissolveu-se, substituída por um calor imediato.—Já estou a tratar disso. Não, claro que não. Não te preocupes com ela — disse ele, a sua voz a suavizar instantaneamente.Enquanto caminhava para fora do quarto, para ter mais privacidade, atirou o envelope para cima da cama com um gesto descuidado. O envelope deslizou pelo edredão de seda, caindo sem som no tapete felpudo, onde ficou, esquecido sob a sombra da cama.Na manhã seguinte, a arrumadeira aspirava o quarto com uma eficiência diligente. Ao mover a mobília, viu o envelope branco. "O senhor Monteiro deve tê-lo deixado cair", pensou ela. Presumindo que o conteúdo já tinha sido lido e era para ser guardado, abriu a gaveta da mesa de cabeceira e colocou-o lá dentro, por baixo de um guia de hotéis e de alguns cartões de visita.O acordo de divórcio desapareceu no esquecimento.Ao mesmo tempo, em Aethel, Elara abriu a porta da casa que tinha sido a sua gaiola dourada. O ar estava parado, cheirando a um perfume de flores que ele lhe tinha dado e que ela odiava. Uma fotografia dos dois no dia do casamento estava na lareira. Ele parecia poderoso; ela, decorativa.Ela desviou o olhar e subiu as escadas, ignorando o closet cheio de vestidos de grife e sapatos que nunca tinha escolhido. Eram o uniforme de "Senhora Monteiro". Deixou-os todos para trás.Numa mala separada, colocou cuidadosamente os seus bens mais preciosos: os seus livros de programação, os seus diários de investigação da universidade e um blazer simples que usara quando ganhara o seu primeiro prémio de tecnologia. Eram os restos da mulher que tinha sido.Sentada à secretária de mogno de Dante, abriu o seu portátil. Com dedos firmes, navegou até ao home banking. O saldo da conta que ele recheava mensalmente era de trinta milhões, setecentos e quarenta e dois mil reais solarianos. O preço da sua obediência.O processo de transferência foi frio e metódico. O clique do teclado era o único som no silêncio da casa. Uma barra de progresso verde encheu-se. Transferência concluída.Ela levantou-se, deixando para trás os cartões de crédito inúteis, alinhados como lápides sobre a madeira polida.Uma hora mais tarde, a porta do seu novo apartamento fechou-se atrás dela. Era mais pequeno, anónimo, mas cada centímetro era seu.O seu telemóvel tocou. Um alarme suave com a etiqueta: "Ligar para Sofi". Um ritual diário que se tornara uma faca no seu coração. O seu polegar pairou sobre o ecrã. Um último suspiro trémulo. Apagar.A centenas de quilómetros de distância, Sofi olhou para o relógio da cozinha. Já passava cinco minutos da hora da chamada. Nada. Um sorriso secreto e triunfante espalhou-se pelo seu rosto.—Vamos, estou atrasada para a escola! — gritou ela à babá, a sua voz cheia de uma alegria invulgar.Ela saiu de propósito mais cedo, para ter a certeza de que perderia a chamada que, desta vez, nunca chegaria.A porta da frente bateu com força, ecoando pela casa vazia.---Na manhã de segunda-feira, o átrio do edifício do Grupo Âncora era uma colmeia de ambição e poder. Mármore polido, aço frio e executivos apressados. Elara atravessou-o, sentindo os olhares curiosos. A esposa do CEO raramente visitava, e nunca com uma expressão tão determinada.Ela não parou até chegar ao andar da direção, onde o ar era mais rarefeito e os passos eram abafados por tapetes caros. Cássio, o Assistente Executivo de Dante, levantou a cabeça do seu trabalho, a sua expressão profissional a vacilar com surpresa.—Dona Elara. O senhor Monteiro está em teletrabalho de Porto Palma esta semana.—Eu sei, Cássio. Isto não é para ele. É para a empresa.Ela colocou a carta de demissão branca e imaculada na sua secretária. A palavra "Demissão" estava visível no topo.Cássio ficou de queixo caído. Ele tinha trabalhado ao lado dela. Tinha visto Elara organizar eventos de caridade impecáveis, gerir horários complexos e até mesmo traduzir documentos técnicos para investidores estrangeiros, tudo na esperança de um aceno de aprovação do marido. E o seu desempenho era lendário no departamento.—Mas... porquê? Foi o senhor Monteiro que pediu isto?—A decisão é minha, e é final. Tenha um bom dia.A sua calma era mais chocante do que qualquer explosão de raiva. Ela virou-se e foi-se embora, deixando um Cássio atordoado para trás.Uma hora mais tarde, Cássio estava numa videochamada com Dante. O rosto do seu chefe estava focado, impaciente. Discutiam uma aquisição hostil.—...e certifique-se de que a equipa jurídica está pronta — disse Dante.Cássio olhou para a carta de demissão na sua secretária. O seu instinto dizia-lhe para falar, para avisar o seu chefe. Ele abriu a boca.—Senhor, há mais uma coisa... sobre a senhora Montei...Ele parou. A lembrança da ordem fria de Dante de há dois anos ecoou na sua mente: "Não me relate nada sobre a Elara. Os seus assuntos são irrelevantes para os negócios." Ameaçar um negócio de mil milhões de reais por causa da esposa que o próprio CEO ignorava? Era suicídio profissional.Cássio engoliu em seco.—...sobre a equipa de Monteiro. Eles estão prontos.Dante assentiu, já a passar para o próximo ponto, completamente ignorante da bomba que acabara de ser evitada.À hora do almoço, na copa, uma colega, Beatriz, sentou-se ao lado de Elara.—Elara, que estranho não te ver a sair para ligar para a tua filha. Está tudo bem?Elara bebeu um gole do seu café, o calor a espalhar-se pelas suas mãos.—Está tudo ótimo, Bia. Apenas a mudar a minha rotina.A sua resposta tranquila e o sorriso subtil não convidavam a mais perguntas.Naquela noite, no seu apartamento espartano, a única luz vinha do seu ecrã de portátil. A página da "Cúpula de Tecnologia de Aethel" estava aberta. Era um regresso a um mundo que ela pensava ter perdido.Ela percorreu a sua antiga lista de contactos, o seu coração a bater um pouco mais depressa. Encontrou o nome. Gael Costa. O seu parceiro de programação na UIA. O cofundador da sua pequena startup, a PrismaTech, que ela abandonara por Dante.Respirou fundo, sentindo uma mistura de nervosismo e excitação. Era a primeira chamada para o seu futuro.O seu dedo pressionou o botão de chamada.—Gael? Sou eu, Elara. Preciso de um favor.---Capítulo 3O ar quente e húmido de Porto Palma envolveu Elara Almeida Monteiro assim que ela saiu do aeroporto.Era um abraço pegajoso e estranho, muito diferente do que ela ansiava. Durante todo o voo de Aethel, ela só conseguia pensar no abraço apertado da sua filha, Sofi, e no sorriso raro mas genuíno do seu marido, Dante.Hoje, no seu vigésimo oitavo aniversário, essa era a única prenda que desejava.A mansão na Ilha Esmeralda erguia-se branca e imponente contra o céu azul. A sua beleza, porém, pareceu fria quando Elara entrou na casa silenciosa, arrastando a sua mala.—Sofi?Uma risada infantil veio da sala de estar. O coração de Elara aqueceu.Ela encontrou a filha de cinco anos no chão de mármore, completamente absorta em papel de embrulho e fitas douradas.—Olha o que eu trouxe para você, meu amor.Elara ajoelhou-se, mostrando um pequeno unicórnio de pelúcia. Sofi mal olhou para cima.—Obrigada, mãe.A voz dela era indiferente. Os seus pequenos dedos trabalhavam com uma concentração feroz num laço.—O que você está a fazer com tanto cuidado? O papai não está?—Papai teve de sair. Estou a acabar o presente de aniversário para a Tia Livia.O nome pairou no ar, pesado e indesejado. Livia Viana.—É o aniversário dela? — A voz de Elara saiu mais fraca do que ela pretendia.Sofia finalmente olhou para ela, e não havia alegria nos seus olhos escuros. Apenas irritação.—Sim. Você está a atrapalhar o meu laço.A palavra "atrapalhar" foi como um tapa. Elara recuou, o unicórnio a escorregar dos seus dedos. Sua própria filha, que ela não via há um mês, a tratava como uma intrusa.No quarto, o silêncio era esmagador. Ela pegou no telemóvel, as mãos a tremer ligeiramente enquanto discava o número de Dante. Atenderam quase instantaneamente.—Dante?—Ele está no banho agora.A voz era de Livia. Suave como seda, afiada como uma faca. Elara ouviu Dante a perguntar ao fundo, "Quem é?", antes de a chamada ser desligada.O telemóvel escuro refletiu o seu rosto pálido.Na manhã seguinte, ela engoliu o seu orgulho junto com o café. Ela tinha de tentar. Por Sofi. Por si mesma.Enviou uma mensagem a Dante: "Podemos almoçar juntos hoje? Para comemorar a minha chegada."A resposta dele veio um minuto depois: "Claro. Meio-dia."Uma pequena e traiçoeira faísca de esperança acendeu-se no peito de Elara. Talvez tivesse sido tudo um mal-entendido.Sentindo-se um pouco mais leve, ela foi até ao quarto de Sofi para a ajudar a vestir-se. Parou à porta, invisível, ao ouvir a filha a conversar com a babá.—Eu não quero que a mamãe venha. A comida com a Tia Livia é mais gostosa.A babá murmurou algo que Elara não conseguiu ouvir. A voz de Sofi, no entanto, soou clara e aguda.—A Tia Livia não pode ser a minha mãe?O mundo de Elara parou. O som desapareceu, substituído por um zumbido agudo nos seus ouvidos. Ela agarrou-se ao batente da porta, o ar a faltar-lhe nos pulmões.Sem uma palavra, ela virou-se, pegou na sua bolsa e nas chaves do carro, e saiu daquela casa sufocante.Conduzia sem rumo quando, ao meio-dia, o seu telemóvel apitou com a mensagem de Dante."Tive uma reunião de emergência. Não posso ir almoçar. Divirta-se."Um riso seco e amargo escapou dos seus lábios. Foi nesse momento que o seu olhar se desviou para um restaurante com fachada de vidro no Distrito Central.Numa mesa iluminada pelo sol, Dante ria. Livia, com um vestido de verão esvoaçante, sorria para ele. E entre eles, no seu lugar, estava Sofi, a comer alegremente uma sobremesa.Eles eram uma fotografia. Uma família perfeita. E ela era a estranha a olhar de fora.O caminho de volta para a mansão foi um borrão. Ela entrou na casa, que agora parecia o mausoléu do seu casamento.Subiu diretamente para o escritório de Dante. Com uma calma assustadora, pegou numa caneta e numa folha de papel timbrado do Grupo Âncora."Acordo de Divórcio", escreveu ela no topo. As suas mãos não tremiam mais.Quando terminou, dobrou o papel com precisão, selou-o num envelope e desceu as escadas.A babá encontrou-a no átrio. Elara estendeu-lhe o envelope.—Entregue isto ao senhor Monteiro quando ele chegar.A sua voz estava fria e nivelada. A mulher que esperava por migalhas de afeto tinha desaparecido.Elara subiu as esceras, pegou na sua mala e desceu novamente, tudo num único movimento fluido.Ela caminhou em direção à porta da frente, sem olhar para trás uma única vez.A porta de madeira maciça abriu-se, revelando o sol ofuscante do lado de fora.As rodas da sua mala fizeram um som agudo e decisivo contra o mármore polido.Naquela noite, em Porto Palma, a brisa salgada do mar entrava pelas portas abertas da varanda da mansão. Dante entrou, carregando uma Sofia sonolenta e risonha nos braços. O dia no iate com Livia tinha sido perfeito.—Papai, a mamãe não vai nos seguir no passeio de barco amanhã, vai? A cara dela estava tão esquisita.Dante sorriu com desdém.—Não se preocupe, meu bem. A mamãe só precisa de um tempo para pensar. Ela não vai.Ele deitou a filha na sua cama macia. Foi então que a babá se aproximou, com o corpo tenso e um envelope branco na mão.—Senhor Monteiro, a senhora Monteiro deixou isto para si. Ela fez as malas e partiu para Solaria por volta do meio-dia.Dante franziu o sobrolho, pegando no envelope. O nome dela, Elara, não estava escrito nele. Era impessoal, formal. Outra birra. Cansativa. Ele sentia uma pontada de irritação, não de preocupação.Nesse exato momento, o seu telemóvel vibrou. O nome "Livia" iluminou o ecrã. A irritação de Dante dissolveu-se, substituída por um calor imediato.—Já estou a tratar disso. Não, claro que não. Não te preocupes com ela — disse ele, a sua voz a suavizar instantaneamente.Enquanto caminhava para fora do quarto, para ter mais privacidade, atirou o envelope para cima da cama com um gesto descuidado. O envelope deslizou pelo edredão de seda, caindo sem som no tapete felpudo, onde ficou, esquecido sob a sombra da cama.Na manhã seguinte, a arrumadeira aspirava o quarto com uma eficiência diligente. Ao mover a mobília, viu o envelope branco. "O senhor Monteiro deve tê-lo deixado cair", pensou ela. Presumindo que o conteúdo já tinha sido lido e era para ser guardado, abriu a gaveta da mesa de cabeceira e colocou-o lá dentro, por baixo de um guia de hotéis e de alguns cartões de visita.O acordo de divórcio desapareceu no esquecimento.Ao mesmo tempo, em Aethel, Elara abriu a porta da casa que tinha sido a sua gaiola dourada. O ar estava parado, cheirando a um perfume de flores que ele lhe tinha dado e que ela odiava. Uma fotografia dos dois no dia do casamento estava na lareira. Ele parecia poderoso; ela, decorativa.Ela desviou o olhar e subiu as escadas, ignorando o closet cheio de vestidos de grife e sapatos que nunca tinha escolhido. Eram o uniforme de "Senhora Monteiro". Deixou-os todos para trás.Numa mala separada, colocou cuidadosamente os seus bens mais preciosos: os seus livros de programação, os seus diários de investigação da universidade e um blazer simples que usara quando ganhara o seu primeiro prémio de tecnologia. Eram os restos da mulher que tinha sido.Sentada à secretária de mogno de Dante, abriu o seu portátil. Com dedos firmes, navegou até ao home banking. O saldo da conta que ele recheava mensalmente era de trinta milhões, setecentos e quarenta e dois mil reais solarianos. O preço da sua obediência.O processo de transferência foi frio e metódico. O clique do teclado era o único som no silêncio da casa. Uma barra de progresso verde encheu-se. Transferência concluída.Ela levantou-se, deixando para trás os cartões de crédito inúteis, alinhados como lápides sobre a madeira polida.Uma hora mais tarde, a porta do seu novo apartamento fechou-se atrás dela. Era mais pequeno, anónimo, mas cada centímetro era seu.O seu telemóvel tocou. Um alarme suave com a etiqueta: "Ligar para Sofi". Um ritual diário que se tornara uma faca no seu coração. O seu polegar pairou sobre o ecrã. Um último suspiro trémulo. Apagar.A centenas de quilómetros de distância, Sofi olhou para o relógio da cozinha. Já passava cinco minutos da hora da chamada. Nada. Um sorriso secreto e triunfante espalhou-se pelo seu rosto.—Vamos, estou atrasada para a escola! — gritou ela à babá, a sua voz cheia de uma alegria invulgar.Ela saiu de propósito mais cedo, para ter a certeza de que perderia a chamada que, desta vez, nunca chegaria.A porta da frente bateu com força, ecoando pela casa vazia.---Na manhã de segunda-feira, o átrio do edifício do Grupo Âncora era uma colmeia de ambição e poder. Mármore polido, aço frio e executivos apressados. Elara atravessou-o, sentindo os olhares curiosos. A esposa do CEO raramente visitava, e nunca com uma expressão tão determinada.Ela não parou até chegar ao andar da direção, onde o ar era mais rarefeito e os passos eram abafados por tapetes caros. Cássio, o Assistente Executivo de Dante, levantou a cabeça do seu trabalho, a sua expressão profissional a vacilar com surpresa.—Dona Elara. O senhor Monteiro está em teletrabalho de Porto Palma esta semana.—Eu sei, Cássio. Isto não é para ele. É para a empresa.Ela colocou a carta de demissão branca e imaculada na sua secretária. A palavra "Demissão" estava visível no topo.Cássio ficou de queixo caído. Ele tinha trabalhado ao lado dela. Tinha visto Elara organizar eventos de caridade impecáveis, gerir horários complexos e até mesmo traduzir documentos técnicos para investidores estrangeiros, tudo na esperança de um aceno de aprovação do marido. E o seu desempenho era lendário no departamento.—Mas... porquê? Foi o senhor Monteiro que pediu isto?—A decisão é minha, e é final. Tenha um bom dia.A sua calma era mais chocante do que qualquer explosão de raiva. Ela virou-se e foi-se embora, deixando um Cássio atordoado para trás.Uma hora mais tarde, Cássio estava numa videochamada com Dante. O rosto do seu chefe estava focado, impaciente. Discutiam uma aquisição hostil.—...e certifique-se de que a equipa jurídica está pronta — disse Dante.Cássio olhou para a carta de demissão na sua secretária. O seu instinto dizia-lhe para falar, para avisar o seu chefe. Ele abriu a boca.—Senhor, há mais uma coisa... sobre a senhora Montei...Ele parou. A lembrança da ordem fria de Dante de há dois anos ecoou na sua mente: "Não me relate nada sobre a Elara. Os seus assuntos são irrelevantes para os negócios." Ameaçar um negócio de mil milhões de reais por causa da esposa que o próprio CEO ignorava? Era suicídio profissional.Cássio engoliu em seco.—...sobre a equipa de Monteiro. Eles estão prontos.Dante assentiu, já a passar para o próximo ponto, completamente ignorante da bomba que acabara de ser evitada.À hora do almoço, na copa, uma colega, Beatriz, sentou-se ao lado de Elara.—Elara, que estranho não te ver a sair para ligar para a tua filha. Está tudo bem?Elara bebeu um gole do seu café, o calor a espalhar-se pelas suas mãos.—Está tudo ótimo, Bia. Apenas a mudar a minha rotina.A sua resposta tranquila e o sorriso subtil não convidavam a mais perguntas.Naquela noite, no seu apartamento espartano, a única luz vinha do seu ecrã de portátil. A página da "Cúpula de Tecnologia de Aethel" estava aberta. Era um regresso a um mundo que ela pensava ter perdido.Ela percorreu a sua antiga lista de contactos, o seu coração a bater um pouco mais depressa. Encontrou o nome. Gael Costa. O seu parceiro de programação na UIA. O cofundador da sua pequena startup, a PrismaTech, que ela abandonara por Dante.Respirou fundo, sentindo uma mistura de nervosismo e excitação. Era a primeira chamada para o seu futuro.O seu dedo pressionou o botão de chamada.—Gael? Sou eu, Elara. Preciso de um favor.---