"Nunca me apaixonarei por você nesta vida. Você está destinada a viver sozinha." Inácio Duarte disse isso quando ela se casou com ele. Nos três anos de casamento, Inácio nunca a tocou. Ela era a filha da família Sampaio no mundo exterior, uma garotinha surda, mas não era a Sra. Duarte. Sua família a usava para ser promovida, a família de seu marido a desprezava e os amigos de Inácio a intimidavam sem escrúpulos. Finalmente, em um dia ensolarado, ela viu as coisas com clareza e decidiu ir embora. Mas o homem rebelde mudou de ideia: "Você fica e nós recomeçamos." Marília Sampaio sorriu friamente: "Sr. Duarte, me desculpe, eu tenho um novo amor."

Capítulo 1No Dia de Finados, a chuva caía forte e incessante.Na porta do hospital.Marília Sampaio, com a silhueta frágil, segurava com as mãos magras o laudo do teste de gravidez. Estava escrito, de forma absolutamente clara:“Não grávida!”“Três anos de casamento e ainda não engravidou?”“Como pode ser tão inútil? Se continuar assim, a família Duarte vai acabar te expulsando de casa. E então, o que será da nossa família Sampaio?”A mãe de Marília, Helena, calçava saltos altos e trajava roupas elegantes. Apontava o dedo para Marília, com o rosto tomado pela decepção.O olhar de Marília estava vazio. Todas as palavras entaladas em seu peito, por fim, se resumiram a uma só frase:“Desculpe.”“Não quero desculpas, quero que você dê um filho ao Inácio Duarte. Entendeu?”A garganta de Marília estava seca. Ela não sabia como responder.Três anos de casamento, Inácio jamais havia tocado nela.Como poderia haver uma criança?Helena, ao ver aquela postura submissa e incapaz da filha, sentiu que ela não tinha nada de si.Por fim, lançou palavras frias:“Se você realmente não consegue, então ajude o Inácio a encontrar uma mulher lá fora. Assim, ele ainda vai lhe ser grato.”Marília permaneceu olhando, atônita, para as costas de Helena se afastando, sem conseguir acreditar.Sua própria mãe estava sugerindo que ela arranjasse uma mulher para o próprio marido.O vento gelado naquele instante atravessou-lhe o fundo da alma.……Sentada dentro do carro a caminho de casa.Na mente de Marília, ecoavam as últimas palavras de Helena ao partir, enquanto um zumbido repentino soava em seus ouvidos.Ela sabia que sua doença havia piorado.Nesse momento, chegou uma mensagem em seu celular.Era Inácio, repetindo a mesma frase de sempre, há três anos: “Hoje não volto.”Durante todo o casamento, Inácio nunca passara a noite em casa.E jamais havia tocado Marília.Marília ainda recordava, três anos atrás, na noite de núpcias, quando ele dissera:“Se a família Sampaio teve coragem de nos enganar, prepare-se para passar a vida inteira sozinha.”Solitária para sempre…Três anos antes, as famílias Sampaio e Duarte haviam feito uma aliança comercial.Os interesses de ambos os lados já estavam acertados.Porém, no dia do casamento, a família Sampaio mudara de ideia de última hora, transferindo todos os bens, inclusive os bilhões que Inácio deu ao se casar com Marília.Ao pensar nisso, o olhar de Marília se tornou opaco. Como de costume, respondeu a Inácio apenas com um “OK”.O laudo do teste de gravidez fora amassado em sua mão, sem que percebesse.Quando chegou em casa, Marília jogou o papel no lixo.Em todo mês, nesse período, sentia-se especialmente exausta.Não preparou o jantar e recostou-se no sofá por um tempo, entre o sono e a vigília.O zumbido persistia nos seus ouvidos.Era um dos motivos pelos quais Inácio a desprezava: ela tinha deficiência auditiva, o que, em famílias tradicionais, era considerado quase uma incapacidade.Com isso, como Inácio poderia querer um filho com ela?O relógio de parede, de estilo europeu, soou de maneira grave.Cinco horas da manhã.O relógio de parede, de estilo europeu, soou de maneira grave.Em uma hora, Inácio estaria de volta.Só então Marília percebeu que havia passado a noite toda dormindo no sofá.Levantou-se rapidamente para preparar o café da manhã de Inácio, temendo qualquer atraso.Inácio era meticuloso, exigente com horários e com quem o cercava.Às seis horas, ele chegou pontualmente.Vestia um terno italiano impecável, postura ereta, discreto, com traços marcantes e masculinos.Mas, no reflexo do olhar de Marília, ele era frio e distante.Ele sequer olhou para Marília, apenas passou por ela e, ao olhar o café da manhã na mesa, ironizou: “Você faz isso todos os dias. Qual a diferença entre você e uma empregada?”Três anos. Marília sempre fazia as mesmas coisas, vestia roupas em tons acinzentados, até as respostas por mensagem eram sempre um simples “OK”.Para falar a verdade, se não fosse pela aliança comercial, se não fosse pelo golpe da família Sampaio…Ele jamais teria se casado com uma mulher como ela!Empregada?O zumbido voltou aos ouvidos de Marília. Ela engoliu seco e, sem saber de onde veio a coragem, perguntou: “Inácio, você gosta de alguém?”A pergunta repentina fez o olhar de Inácio mudar: “O que está querendo dizer?”Marília ergueu o rosto para ele, tentando conter o nó na garganta, e falou devagar: “Se você tem alguém de quem gosta, pode ficar com ela…”Ela não terminou a frase, pois Inácio a interrompeu.“Você está louca.”……Inácio foi embora, e Marília ficou sozinha na varanda, olhando sem foco para a chuva fria lá fora.O som da chuva, ora nítido, ora distante.Ao retirar o aparelho auditivo, todo o seu mundo se tornou silencioso.Um mês atrás, o médico lhe disse: “Sra. Sampaio, houve alterações patológicas no seu nervo auditivo e em vários centros do sistema nervoso, levando a uma nova diminuição da sua audição. Caso o quadro continue a se agravar, a senhora ficará completamente surda.”Ela não estava acostumada com um mundo tão silencioso. Ao chegar na sala, ligou a televisão e aumentou o volume ao máximo, conseguindo ouvir apenas um leve ruído.Talvez por coincidência, a televisão transmitia justamente uma entrevista com a rainha internacional das baladas românticas, Mafalda Barbosa, retornando ao país.A mão de Marília, que segurava o controle remoto, estremeceu.Mafalda, o primeiro amor de Inácio!Depois de tantos anos, ela continuava tão bonita quanto antes, enfrentando as câmeras com naturalidade, sem o menor traço daquela jovem tímida e insegura que, tempos atrás, buscara apoio da família Sampaio.Quando o jornalista perguntou sobre o motivo de seu retorno ao Brasil, Mafalda respondeu com confiança e ousadia:“Desta vez voltei para reconquistar o meu primeiro amor.”O controle remoto caiu das mãos de Marília.O coração de Marília também pareceu despencar.A chuva do lado de fora parecia ficar ainda mais forte.Apressada e confusa, Marília desligou a televisão e foi arrumar o café da manhã que permanecia intocado.Ao chegar na cozinha, percebeu que Inácio havia esquecido o celular.Ela pegou o aparelho e viu na tela uma mensagem não lida.“Inácio, imagino que esses anos não tenham sido felizes para você, não é?”“Eu sei que você não a ama. Podemos nos encontrar hoje à noite? Sinto muito a sua falta.”Até a tela escurecer, Marília permaneceu atônita, sem conseguir reagir.Pediu um carro e seguiu para a empresa de Inácio.No caminho, Marília observava pela janela a chuva interminável, que parecia nunca cessar.Inácio não gostava que Marília fosse ao seu trabalho. Por isso, sempre que precisava encontrá-lo lá, ela usava o elevador de carga dos fundos.Samuel Lacerda, o assistente pessoal de Inácio, ao vê-la, limitou-se a cumprimentá-la friamente: “Sra. Sampaio.”Ao lado de Inácio, ninguém a tratava como Sra. Duarte.Ela era apenas uma presença indesejada.Quando Inácio viu o celular sendo entregue por Marília, franziu a testa.Ela sempre fazia isso: fosse o almoço, um documento, uma peça de roupa ou um guarda-chuva — qualquer coisa que ele esquecesse, ela trazia até ele.“Já lhe disse que não precisa se dar ao trabalho de me trazer nada”, comentou Inácio.Marília ficou sem reação.“Desculpe, eu esqueci.”Quando foi que sua memória se tornara tão fraca?Talvez tivesse sido por causa da mensagem enviada por Mafalda, que a deixara apavorada.Tinha medo de que Inácio desaparecesse de repente...Antes de sair, Marília olhou para Inácio e, por fim, não conseguiu evitar a pergunta: “Inácio, você ainda gosta da Mafalda?”Inácio achava Marília cada vez mais estranha ultimamente.Além de se esquecer das coisas, agora também fazia perguntas esquisitas.Como alguém assim poderia ser digna de ser sua Sra. Duarte?Com impaciência, ele respondeu: “Se está com tanto tempo livre, arrume algo para fazer.”Marília já tinha tentado trabalhar, mas a mãe de Inácio, Clarissa Alcantara, não hesitara em questioná-la: “Você quer que todo mundo saiba que nosso Inácio casou com uma esposa surda?”No final, ela teve de desistir do emprego e se dedicar exclusivamente à vida no Terraço do Atlântico, sendo apenas uma Sra. Duarte de nome, sem nenhum verdadeiro papel.Ao voltar para casa, Marília permaneceu sozinha até o anoitecer.Não conseguia dormir.O celular ao lado da cama tocou de repente, de forma insistente.Era um número desconhecido.Atendeu, e do outro lado ouviu uma voz doce, mas que a deixava em constante pânico.Mafalda.“É a Marília? O Inácio bebeu demais, você pode vir buscá-lo?”Refúgio das Estrelas.Quando Marília chegou à sala reservada, ouviu o grupo de jovens ricos fazendo algazarra.“Mafalda, você não voltou para reconquistar nosso Sr. Duarte? Pois esta é a sua chance, declare-se logo para ele.”Mafalda, bonita e carismática, além de ser o primeiro amor de Inácio, era admirada por todos do círculo social abastado, que torciam para que ela conquistasse o coração dele.Sem hesitar, Mafalda se virou para Inácio e disse: “Inácio, eu gosto de você. Vamos recomeçar?”Quando Marília chegou à porta do salão, ouviu exatamente essas palavras.Lá dentro, as pessoas começaram a incentivar Inácio, especialmente a voz de seu grande amigo Leonel Castilho, que se destacava entre as demais.“Inácio, você esperou pela Mafalda durante três anos. Agora que ela voltou, está na hora de tomar uma decisão.”Marília ficou paralisada na entrada, o coração disparado. Foi nesse momento que um homem abriu a porta.“Sra. Sampaio?”Os convidados da festa voltaram-se todos para a porta.O ambiente no salão privado mergulhou em um silêncio estranho.Marília avistou de imediato Inácio sentado à cabeceira da mesa, com o olhar límpido, demonstrando estar totalmente sóbrio.Ela percebeu, então, que havia sido enganada por Mafalda.Ao ver Marília, o olhar negro de Inácio se contraiu.Os demais presentes, inclusive Leonel, que há pouco havia sugerido que Inácio aceitasse a declaração de Mafalda, ficaram visivelmente constrangidos.Naquele contexto, Marília não deveria ter ido.“Marília, não entenda mal, Leonel estava brincando. Eu e Inácio somos apenas amigos atualmente.”Mafalda foi a primeira a romper o silêncio.Antes que Marília pudesse responder, Inácio levantou-se, demonstrando impaciência.“Não precisa explicar nada para ela.”Em seguida, ele caminhou diretamente até Marília e perguntou:“O que veio fazer aqui?”“Pensei que você estivesse embriagado. Vim te buscar para ir para casa.” Marília respondeu com sinceridade.Inácio soltou uma risada fria:“Parece que você não se lembra de nada do que te falei.”Abaixando a voz, ele murmurou apenas para que ambos pudessem ouvir:“Você acha que, nesses três anos, todos esqueceram que, há três anos, eu, Inácio, fui enganado? Veio aqui para reavivar a memória deles?”Marília ficou atônita.O olhar de Inácio tornou-se ainda mais gelado:“Não fique tentando chamar atenção sem motivo. Isso só faz com que eu sinta ainda mais repulsa por você.”Após dizer isso, ele virou as costas e se afastou, deixando Marília para trás.Olhando para a silhueta alta de Inácio, Marília permaneceu imóvel por um longo tempo, sem conseguir processar o ocorrido.Os jovens abastados no salão, ao observarem Marília sendo abandonada, não demonstraram o menor sinal de compaixão.Leonel, sem qualquer pudor, virou-se para Mafalda, que fingia estar triste, e disse:“Mafalda, você é boa demais. Não há nada que precise ser explicado.”“Se Marília não tivesse enganado Inácio com um casamento de fachada, ele teria se casado com você. Assim, você não teria precisado ir embora para outro país e passar por tantas dificuldades.”O zumbido nos ouvidos de Marília era intenso, mas ela escutou cada palavra claramente.Ela sabia melhor do que ninguém.Independentemente de Inácio casar-se ou não com ela, ele jamais teria se casado com Mafalda, que não tinha nenhum respaldo da família Barreiros.E Mafalda sabia disso perfeitamente, por isso decidiu terminar e partir para longe.No entanto, no final, por que toda a culpa recaiu sobre ela?Ao sair do Refúgio das Estrelas com o guarda-chuva, Marília sentiu-se completamente envolta pela escuridão.Uma figura elegante se aproximou.Era Mafalda!Ela estava impecavelmente arrumada, usando saltos altos e exalando autoconfiança.“Está bem frio esta noite. Como se sente, procurando Inácio tão tarde e sendo desprezada por ele?”Marília ouviu, mas não respondeu.Mafalda não se incomodou, continuando a falar sozinha:“Acho você realmente digna de pena. Até hoje, nunca experimentou o sabor do amor, não é? Sabia que, quando estava comigo, Inácio cozinhava para mim e era o primeiro a aparecer quando eu adoecia…”“Marília, Inácio já lhe disse que te ama? Antes, ele sempre me dizia…”Em silêncio, Marília recordava os três anos que passou ao lado de Inácio.Ele nunca havia sequer entrado na cozinha por ela...Quando ela adoeceu, nunca recebeu uma palavra de cuidado dele.Quanto ao amor, ele nunca declarou.Naquela noite, deitada na cama, Marília não conseguiu dormir.Descobriu que, durante doze anos, perseguira um homem que, em algum momento, amou outra pessoa com a intensidade de um adolescente.Naquele instante, ela finalmente percebeu que deveria desistir.Passou a noite em claro e, ao amanhecer, no dia seguinte—Inácio retornou às pressas, lançando sobre Marília um olhar ainda mais gelado.“Você está mesmo relutante em abrir mão do dinheiro da família Duarte, relutante em abrir mão de mim, Inácio, essa máquina de fazer dinheiro!”Marília ficou surpresa, sem entender o motivo de seu estado, e instintivamente tentou se explicar:“Nunca quis o seu dinheiro.”O que sempre importou para ela era apenas Inácio.Inácio sorriu, mas havia ironia em seu sorriso:“Então, por que sua mãe foi até a empresa esta manhã me pedir um filho para você?”Marília ficou atônita.Ao encarar os olhos frios de Inácio, percebeu que o motivo de sua raiva não era o ocorrido na noite anterior.Inácio não quis prolongar o assunto. Deixou-lhe apenas uma advertência antes de sair:“Marília, se quiser continuar na família Duarte e se quiser evitar a ruína da família Sampaio, faça com que sua mãe saiba se comportar.”...Antes que Marília procurasse Helena,Helena mesma apareceu, mostrando-se bem diferente de sua habitual frieza. Segurou a mão de Marília e, com doçura, pediu:“Marília, vá pedir a Inácio que te dê um filho, nem que seja por meio de um procedimento médico.”Capítulo 2No Dia de Finados, a chuva caía forte e incessante.Na porta do hospital.Marília Sampaio, com a silhueta frágil, segurava com as mãos magras o laudo do teste de gravidez. Estava escrito, de forma absolutamente clara:“Não grávida!”“Três anos de casamento e ainda não engravidou?”“Como pode ser tão inútil? Se continuar assim, a família Duarte vai acabar te expulsando de casa. E então, o que será da nossa família Sampaio?”A mãe de Marília, Helena, calçava saltos altos e trajava roupas elegantes. Apontava o dedo para Marília, com o rosto tomado pela decepção.O olhar de Marília estava vazio. Todas as palavras entaladas em seu peito, por fim, se resumiram a uma só frase:“Desculpe.”“Não quero desculpas, quero que você dê um filho ao Inácio Duarte. Entendeu?”A garganta de Marília estava seca. Ela não sabia como responder.Três anos de casamento, Inácio jamais havia tocado nela.Como poderia haver uma criança?Helena, ao ver aquela postura submissa e incapaz da filha, sentiu que ela não tinha nada de si.Por fim, lançou palavras frias:“Se você realmente não consegue, então ajude o Inácio a encontrar uma mulher lá fora. Assim, ele ainda vai lhe ser grato.”Marília permaneceu olhando, atônita, para as costas de Helena se afastando, sem conseguir acreditar.Sua própria mãe estava sugerindo que ela arranjasse uma mulher para o próprio marido.O vento gelado naquele instante atravessou-lhe o fundo da alma.……Sentada dentro do carro a caminho de casa.Na mente de Marília, ecoavam as últimas palavras de Helena ao partir, enquanto um zumbido repentino soava em seus ouvidos.Ela sabia que sua doença havia piorado.Nesse momento, chegou uma mensagem em seu celular.Era Inácio, repetindo a mesma frase de sempre, há três anos: “Hoje não volto.”Durante todo o casamento, Inácio nunca passara a noite em casa.E jamais havia tocado Marília.Marília ainda recordava, três anos atrás, na noite de núpcias, quando ele dissera:“Se a família Sampaio teve coragem de nos enganar, prepare-se para passar a vida inteira sozinha.”Solitária para sempre…Três anos antes, as famílias Sampaio e Duarte haviam feito uma aliança comercial.Os interesses de ambos os lados já estavam acertados.Porém, no dia do casamento, a família Sampaio mudara de ideia de última hora, transferindo todos os bens, inclusive os bilhões que Inácio deu ao se casar com Marília.Ao pensar nisso, o olhar de Marília se tornou opaco. Como de costume, respondeu a Inácio apenas com um “OK”.O laudo do teste de gravidez fora amassado em sua mão, sem que percebesse.Quando chegou em casa, Marília jogou o papel no lixo.Em todo mês, nesse período, sentia-se especialmente exausta.Não preparou o jantar e recostou-se no sofá por um tempo, entre o sono e a vigília.O zumbido persistia nos seus ouvidos.Era um dos motivos pelos quais Inácio a desprezava: ela tinha deficiência auditiva, o que, em famílias tradicionais, era considerado quase uma incapacidade.Com isso, como Inácio poderia querer um filho com ela?O relógio de parede, de estilo europeu, soou de maneira grave.Cinco horas da manhã.O relógio de parede, de estilo europeu, soou de maneira grave.Em uma hora, Inácio estaria de volta.Só então Marília percebeu que havia passado a noite toda dormindo no sofá.Levantou-se rapidamente para preparar o café da manhã de Inácio, temendo qualquer atraso.Inácio era meticuloso, exigente com horários e com quem o cercava.Às seis horas, ele chegou pontualmente.Vestia um terno italiano impecável, postura ereta, discreto, com traços marcantes e masculinos.Mas, no reflexo do olhar de Marília, ele era frio e distante.Ele sequer olhou para Marília, apenas passou por ela e, ao olhar o café da manhã na mesa, ironizou: “Você faz isso todos os dias. Qual a diferença entre você e uma empregada?”Três anos. Marília sempre fazia as mesmas coisas, vestia roupas em tons acinzentados, até as respostas por mensagem eram sempre um simples “OK”.Para falar a verdade, se não fosse pela aliança comercial, se não fosse pelo golpe da família Sampaio…Ele jamais teria se casado com uma mulher como ela!Empregada?O zumbido voltou aos ouvidos de Marília. Ela engoliu seco e, sem saber de onde veio a coragem, perguntou: “Inácio, você gosta de alguém?”A pergunta repentina fez o olhar de Inácio mudar: “O que está querendo dizer?”Marília ergueu o rosto para ele, tentando conter o nó na garganta, e falou devagar: “Se você tem alguém de quem gosta, pode ficar com ela…”Ela não terminou a frase, pois Inácio a interrompeu.“Você está louca.”……Inácio foi embora, e Marília ficou sozinha na varanda, olhando sem foco para a chuva fria lá fora.O som da chuva, ora nítido, ora distante.Ao retirar o aparelho auditivo, todo o seu mundo se tornou silencioso.Um mês atrás, o médico lhe disse: “Sra. Sampaio, houve alterações patológicas no seu nervo auditivo e em vários centros do sistema nervoso, levando a uma nova diminuição da sua audição. Caso o quadro continue a se agravar, a senhora ficará completamente surda.”Ela não estava acostumada com um mundo tão silencioso. Ao chegar na sala, ligou a televisão e aumentou o volume ao máximo, conseguindo ouvir apenas um leve ruído.Talvez por coincidência, a televisão transmitia justamente uma entrevista com a rainha internacional das baladas românticas, Mafalda Barbosa, retornando ao país.A mão de Marília, que segurava o controle remoto, estremeceu.Mafalda, o primeiro amor de Inácio!Depois de tantos anos, ela continuava tão bonita quanto antes, enfrentando as câmeras com naturalidade, sem o menor traço daquela jovem tímida e insegura que, tempos atrás, buscara apoio da família Sampaio.Quando o jornalista perguntou sobre o motivo de seu retorno ao Brasil, Mafalda respondeu com confiança e ousadia:“Desta vez voltei para reconquistar o meu primeiro amor.”O controle remoto caiu das mãos de Marília.O coração de Marília também pareceu despencar.A chuva do lado de fora parecia ficar ainda mais forte.Apressada e confusa, Marília desligou a televisão e foi arrumar o café da manhã que permanecia intocado.Ao chegar na cozinha, percebeu que Inácio havia esquecido o celular.Ela pegou o aparelho e viu na tela uma mensagem não lida.“Inácio, imagino que esses anos não tenham sido felizes para você, não é?”“Eu sei que você não a ama. Podemos nos encontrar hoje à noite? Sinto muito a sua falta.”Até a tela escurecer, Marília permaneceu atônita, sem conseguir reagir.Pediu um carro e seguiu para a empresa de Inácio.No caminho, Marília observava pela janela a chuva interminável, que parecia nunca cessar.Inácio não gostava que Marília fosse ao seu trabalho. Por isso, sempre que precisava encontrá-lo lá, ela usava o elevador de carga dos fundos.Samuel Lacerda, o assistente pessoal de Inácio, ao vê-la, limitou-se a cumprimentá-la friamente: “Sra. Sampaio.”Ao lado de Inácio, ninguém a tratava como Sra. Duarte.Ela era apenas uma presença indesejada.Quando Inácio viu o celular sendo entregue por Marília, franziu a testa.Ela sempre fazia isso: fosse o almoço, um documento, uma peça de roupa ou um guarda-chuva — qualquer coisa que ele esquecesse, ela trazia até ele.“Já lhe disse que não precisa se dar ao trabalho de me trazer nada”, comentou Inácio.Marília ficou sem reação.“Desculpe, eu esqueci.”Quando foi que sua memória se tornara tão fraca?Talvez tivesse sido por causa da mensagem enviada por Mafalda, que a deixara apavorada.Tinha medo de que Inácio desaparecesse de repente...Antes de sair, Marília olhou para Inácio e, por fim, não conseguiu evitar a pergunta: “Inácio, você ainda gosta da Mafalda?”Inácio achava Marília cada vez mais estranha ultimamente.Além de se esquecer das coisas, agora também fazia perguntas esquisitas.Como alguém assim poderia ser digna de ser sua Sra. Duarte?Com impaciência, ele respondeu: “Se está com tanto tempo livre, arrume algo para fazer.”Marília já tinha tentado trabalhar, mas a mãe de Inácio, Clarissa Alcantara, não hesitara em questioná-la: “Você quer que todo mundo saiba que nosso Inácio casou com uma esposa surda?”No final, ela teve de desistir do emprego e se dedicar exclusivamente à vida no Terraço do Atlântico, sendo apenas uma Sra. Duarte de nome, sem nenhum verdadeiro papel.Ao voltar para casa, Marília permaneceu sozinha até o anoitecer.Não conseguia dormir.O celular ao lado da cama tocou de repente, de forma insistente.Era um número desconhecido.Atendeu, e do outro lado ouviu uma voz doce, mas que a deixava em constante pânico.Mafalda.“É a Marília? O Inácio bebeu demais, você pode vir buscá-lo?”Refúgio das Estrelas.Quando Marília chegou à sala reservada, ouviu o grupo de jovens ricos fazendo algazarra.“Mafalda, você não voltou para reconquistar nosso Sr. Duarte? Pois esta é a sua chance, declare-se logo para ele.”Mafalda, bonita e carismática, além de ser o primeiro amor de Inácio, era admirada por todos do círculo social abastado, que torciam para que ela conquistasse o coração dele.Sem hesitar, Mafalda se virou para Inácio e disse: “Inácio, eu gosto de você. Vamos recomeçar?”Quando Marília chegou à porta do salão, ouviu exatamente essas palavras.Lá dentro, as pessoas começaram a incentivar Inácio, especialmente a voz de seu grande amigo Leonel Castilho, que se destacava entre as demais.“Inácio, você esperou pela Mafalda durante três anos. Agora que ela voltou, está na hora de tomar uma decisão.”Marília ficou paralisada na entrada, o coração disparado. Foi nesse momento que um homem abriu a porta.“Sra. Sampaio?”Os convidados da festa voltaram-se todos para a porta.O ambiente no salão privado mergulhou em um silêncio estranho.Marília avistou de imediato Inácio sentado à cabeceira da mesa, com o olhar límpido, demonstrando estar totalmente sóbrio.Ela percebeu, então, que havia sido enganada por Mafalda.Ao ver Marília, o olhar negro de Inácio se contraiu.Os demais presentes, inclusive Leonel, que há pouco havia sugerido que Inácio aceitasse a declaração de Mafalda, ficaram visivelmente constrangidos.Naquele contexto, Marília não deveria ter ido.“Marília, não entenda mal, Leonel estava brincando. Eu e Inácio somos apenas amigos atualmente.”Mafalda foi a primeira a romper o silêncio.Antes que Marília pudesse responder, Inácio levantou-se, demonstrando impaciência.“Não precisa explicar nada para ela.”Em seguida, ele caminhou diretamente até Marília e perguntou:“O que veio fazer aqui?”“Pensei que você estivesse embriagado. Vim te buscar para ir para casa.” Marília respondeu com sinceridade.Inácio soltou uma risada fria:“Parece que você não se lembra de nada do que te falei.”Abaixando a voz, ele murmurou apenas para que ambos pudessem ouvir:“Você acha que, nesses três anos, todos esqueceram que, há três anos, eu, Inácio, fui enganado? Veio aqui para reavivar a memória deles?”Marília ficou atônita.O olhar de Inácio tornou-se ainda mais gelado:“Não fique tentando chamar atenção sem motivo. Isso só faz com que eu sinta ainda mais repulsa por você.”Após dizer isso, ele virou as costas e se afastou, deixando Marília para trás.Olhando para a silhueta alta de Inácio, Marília permaneceu imóvel por um longo tempo, sem conseguir processar o ocorrido.Os jovens abastados no salão, ao observarem Marília sendo abandonada, não demonstraram o menor sinal de compaixão.Leonel, sem qualquer pudor, virou-se para Mafalda, que fingia estar triste, e disse:“Mafalda, você é boa demais. Não há nada que precise ser explicado.”“Se Marília não tivesse enganado Inácio com um casamento de fachada, ele teria se casado com você. Assim, você não teria precisado ir embora para outro país e passar por tantas dificuldades.”O zumbido nos ouvidos de Marília era intenso, mas ela escutou cada palavra claramente.Ela sabia melhor do que ninguém.Independentemente de Inácio casar-se ou não com ela, ele jamais teria se casado com Mafalda, que não tinha nenhum respaldo da família Barreiros.E Mafalda sabia disso perfeitamente, por isso decidiu terminar e partir para longe.No entanto, no final, por que toda a culpa recaiu sobre ela?Ao sair do Refúgio das Estrelas com o guarda-chuva, Marília sentiu-se completamente envolta pela escuridão.Uma figura elegante se aproximou.Era Mafalda!Ela estava impecavelmente arrumada, usando saltos altos e exalando autoconfiança.“Está bem frio esta noite. Como se sente, procurando Inácio tão tarde e sendo desprezada por ele?”Marília ouviu, mas não respondeu.Mafalda não se incomodou, continuando a falar sozinha:“Acho você realmente digna de pena. Até hoje, nunca experimentou o sabor do amor, não é? Sabia que, quando estava comigo, Inácio cozinhava para mim e era o primeiro a aparecer quando eu adoecia…”“Marília, Inácio já lhe disse que te ama? Antes, ele sempre me dizia…”Em silêncio, Marília recordava os três anos que passou ao lado de Inácio.Ele nunca havia sequer entrado na cozinha por ela...Quando ela adoeceu, nunca recebeu uma palavra de cuidado dele.Quanto ao amor, ele nunca declarou.Naquela noite, deitada na cama, Marília não conseguiu dormir.Descobriu que, durante doze anos, perseguira um homem que, em algum momento, amou outra pessoa com a intensidade de um adolescente.Naquele instante, ela finalmente percebeu que deveria desistir.Passou a noite em claro e, ao amanhecer, no dia seguinte—Inácio retornou às pressas, lançando sobre Marília um olhar ainda mais gelado.“Você está mesmo relutante em abrir mão do dinheiro da família Duarte, relutante em abrir mão de mim, Inácio, essa máquina de fazer dinheiro!”Marília ficou surpresa, sem entender o motivo de seu estado, e instintivamente tentou se explicar:“Nunca quis o seu dinheiro.”O que sempre importou para ela era apenas Inácio.Inácio sorriu, mas havia ironia em seu sorriso:“Então, por que sua mãe foi até a empresa esta manhã me pedir um filho para você?”Marília ficou atônita.Ao encarar os olhos frios de Inácio, percebeu que o motivo de sua raiva não era o ocorrido na noite anterior.Inácio não quis prolongar o assunto. Deixou-lhe apenas uma advertência antes de sair:“Marília, se quiser continuar na família Duarte e se quiser evitar a ruína da família Sampaio, faça com que sua mãe saiba se comportar.”...Antes que Marília procurasse Helena,Helena mesma apareceu, mostrando-se bem diferente de sua habitual frieza. Segurou a mão de Marília e, com doçura, pediu:“Marília, vá pedir a Inácio que te dê um filho, nem que seja por meio de um procedimento médico.”Capítulo 3No Dia de Finados, a chuva caía forte e incessante.Na porta do hospital.Marília Sampaio, com a silhueta frágil, segurava com as mãos magras o laudo do teste de gravidez. Estava escrito, de forma absolutamente clara:“Não grávida!”“Três anos de casamento e ainda não engravidou?”“Como pode ser tão inútil? Se continuar assim, a família Duarte vai acabar te expulsando de casa. E então, o que será da nossa família Sampaio?”A mãe de Marília, Helena, calçava saltos altos e trajava roupas elegantes. Apontava o dedo para Marília, com o rosto tomado pela decepção.O olhar de Marília estava vazio. Todas as palavras entaladas em seu peito, por fim, se resumiram a uma só frase:“Desculpe.”“Não quero desculpas, quero que você dê um filho ao Inácio Duarte. Entendeu?”A garganta de Marília estava seca. Ela não sabia como responder.Três anos de casamento, Inácio jamais havia tocado nela.Como poderia haver uma criança?Helena, ao ver aquela postura submissa e incapaz da filha, sentiu que ela não tinha nada de si.Por fim, lançou palavras frias:“Se você realmente não consegue, então ajude o Inácio a encontrar uma mulher lá fora. Assim, ele ainda vai lhe ser grato.”Marília permaneceu olhando, atônita, para as costas de Helena se afastando, sem conseguir acreditar.Sua própria mãe estava sugerindo que ela arranjasse uma mulher para o próprio marido.O vento gelado naquele instante atravessou-lhe o fundo da alma.……Sentada dentro do carro a caminho de casa.Na mente de Marília, ecoavam as últimas palavras de Helena ao partir, enquanto um zumbido repentino soava em seus ouvidos.Ela sabia que sua doença havia piorado.Nesse momento, chegou uma mensagem em seu celular.Era Inácio, repetindo a mesma frase de sempre, há três anos: “Hoje não volto.”Durante todo o casamento, Inácio nunca passara a noite em casa.E jamais havia tocado Marília.Marília ainda recordava, três anos atrás, na noite de núpcias, quando ele dissera:“Se a família Sampaio teve coragem de nos enganar, prepare-se para passar a vida inteira sozinha.”Solitária para sempre…Três anos antes, as famílias Sampaio e Duarte haviam feito uma aliança comercial.Os interesses de ambos os lados já estavam acertados.Porém, no dia do casamento, a família Sampaio mudara de ideia de última hora, transferindo todos os bens, inclusive os bilhões que Inácio deu ao se casar com Marília.Ao pensar nisso, o olhar de Marília se tornou opaco. Como de costume, respondeu a Inácio apenas com um “OK”.O laudo do teste de gravidez fora amassado em sua mão, sem que percebesse.Quando chegou em casa, Marília jogou o papel no lixo.Em todo mês, nesse período, sentia-se especialmente exausta.Não preparou o jantar e recostou-se no sofá por um tempo, entre o sono e a vigília.O zumbido persistia nos seus ouvidos.Era um dos motivos pelos quais Inácio a desprezava: ela tinha deficiência auditiva, o que, em famílias tradicionais, era considerado quase uma incapacidade.Com isso, como Inácio poderia querer um filho com ela?O relógio de parede, de estilo europeu, soou de maneira grave.Cinco horas da manhã.O relógio de parede, de estilo europeu, soou de maneira grave.Em uma hora, Inácio estaria de volta.Só então Marília percebeu que havia passado a noite toda dormindo no sofá.Levantou-se rapidamente para preparar o café da manhã de Inácio, temendo qualquer atraso.Inácio era meticuloso, exigente com horários e com quem o cercava.Às seis horas, ele chegou pontualmente.Vestia um terno italiano impecável, postura ereta, discreto, com traços marcantes e masculinos.Mas, no reflexo do olhar de Marília, ele era frio e distante.Ele sequer olhou para Marília, apenas passou por ela e, ao olhar o café da manhã na mesa, ironizou: “Você faz isso todos os dias. Qual a diferença entre você e uma empregada?”Três anos. Marília sempre fazia as mesmas coisas, vestia roupas em tons acinzentados, até as respostas por mensagem eram sempre um simples “OK”.Para falar a verdade, se não fosse pela aliança comercial, se não fosse pelo golpe da família Sampaio…Ele jamais teria se casado com uma mulher como ela!Empregada?O zumbido voltou aos ouvidos de Marília. Ela engoliu seco e, sem saber de onde veio a coragem, perguntou: “Inácio, você gosta de alguém?”A pergunta repentina fez o olhar de Inácio mudar: “O que está querendo dizer?”Marília ergueu o rosto para ele, tentando conter o nó na garganta, e falou devagar: “Se você tem alguém de quem gosta, pode ficar com ela…”Ela não terminou a frase, pois Inácio a interrompeu.“Você está louca.”……Inácio foi embora, e Marília ficou sozinha na varanda, olhando sem foco para a chuva fria lá fora.O som da chuva, ora nítido, ora distante.Ao retirar o aparelho auditivo, todo o seu mundo se tornou silencioso.Um mês atrás, o médico lhe disse: “Sra. Sampaio, houve alterações patológicas no seu nervo auditivo e em vários centros do sistema nervoso, levando a uma nova diminuição da sua audição. Caso o quadro continue a se agravar, a senhora ficará completamente surda.”Ela não estava acostumada com um mundo tão silencioso. Ao chegar na sala, ligou a televisão e aumentou o volume ao máximo, conseguindo ouvir apenas um leve ruído.Talvez por coincidência, a televisão transmitia justamente uma entrevista com a rainha internacional das baladas românticas, Mafalda Barbosa, retornando ao país.A mão de Marília, que segurava o controle remoto, estremeceu.Mafalda, o primeiro amor de Inácio!Depois de tantos anos, ela continuava tão bonita quanto antes, enfrentando as câmeras com naturalidade, sem o menor traço daquela jovem tímida e insegura que, tempos atrás, buscara apoio da família Sampaio.Quando o jornalista perguntou sobre o motivo de seu retorno ao Brasil, Mafalda respondeu com confiança e ousadia:“Desta vez voltei para reconquistar o meu primeiro amor.”O controle remoto caiu das mãos de Marília.O coração de Marília também pareceu despencar.A chuva do lado de fora parecia ficar ainda mais forte.Apressada e confusa, Marília desligou a televisão e foi arrumar o café da manhã que permanecia intocado.Ao chegar na cozinha, percebeu que Inácio havia esquecido o celular.Ela pegou o aparelho e viu na tela uma mensagem não lida.“Inácio, imagino que esses anos não tenham sido felizes para você, não é?”“Eu sei que você não a ama. Podemos nos encontrar hoje à noite? Sinto muito a sua falta.”Até a tela escurecer, Marília permaneceu atônita, sem conseguir reagir.Pediu um carro e seguiu para a empresa de Inácio.No caminho, Marília observava pela janela a chuva interminável, que parecia nunca cessar.Inácio não gostava que Marília fosse ao seu trabalho. Por isso, sempre que precisava encontrá-lo lá, ela usava o elevador de carga dos fundos.Samuel Lacerda, o assistente pessoal de Inácio, ao vê-la, limitou-se a cumprimentá-la friamente: “Sra. Sampaio.”Ao lado de Inácio, ninguém a tratava como Sra. Duarte.Ela era apenas uma presença indesejada.Quando Inácio viu o celular sendo entregue por Marília, franziu a testa.Ela sempre fazia isso: fosse o almoço, um documento, uma peça de roupa ou um guarda-chuva — qualquer coisa que ele esquecesse, ela trazia até ele.“Já lhe disse que não precisa se dar ao trabalho de me trazer nada”, comentou Inácio.Marília ficou sem reação.“Desculpe, eu esqueci.”Quando foi que sua memória se tornara tão fraca?Talvez tivesse sido por causa da mensagem enviada por Mafalda, que a deixara apavorada.Tinha medo de que Inácio desaparecesse de repente...Antes de sair, Marília olhou para Inácio e, por fim, não conseguiu evitar a pergunta: “Inácio, você ainda gosta da Mafalda?”Inácio achava Marília cada vez mais estranha ultimamente.Além de se esquecer das coisas, agora também fazia perguntas esquisitas.Como alguém assim poderia ser digna de ser sua Sra. Duarte?Com impaciência, ele respondeu: “Se está com tanto tempo livre, arrume algo para fazer.”Marília já tinha tentado trabalhar, mas a mãe de Inácio, Clarissa Alcantara, não hesitara em questioná-la: “Você quer que todo mundo saiba que nosso Inácio casou com uma esposa surda?”No final, ela teve de desistir do emprego e se dedicar exclusivamente à vida no Terraço do Atlântico, sendo apenas uma Sra. Duarte de nome, sem nenhum verdadeiro papel.Ao voltar para casa, Marília permaneceu sozinha até o anoitecer.Não conseguia dormir.O celular ao lado da cama tocou de repente, de forma insistente.Era um número desconhecido.Atendeu, e do outro lado ouviu uma voz doce, mas que a deixava em constante pânico.Mafalda.“É a Marília? O Inácio bebeu demais, você pode vir buscá-lo?”Refúgio das Estrelas.Quando Marília chegou à sala reservada, ouviu o grupo de jovens ricos fazendo algazarra.“Mafalda, você não voltou para reconquistar nosso Sr. Duarte? Pois esta é a sua chance, declare-se logo para ele.”Mafalda, bonita e carismática, além de ser o primeiro amor de Inácio, era admirada por todos do círculo social abastado, que torciam para que ela conquistasse o coração dele.Sem hesitar, Mafalda se virou para Inácio e disse: “Inácio, eu gosto de você. Vamos recomeçar?”Quando Marília chegou à porta do salão, ouviu exatamente essas palavras.Lá dentro, as pessoas começaram a incentivar Inácio, especialmente a voz de seu grande amigo Leonel Castilho, que se destacava entre as demais.“Inácio, você esperou pela Mafalda durante três anos. Agora que ela voltou, está na hora de tomar uma decisão.”Marília ficou paralisada na entrada, o coração disparado. Foi nesse momento que um homem abriu a porta.“Sra. Sampaio?”Os convidados da festa voltaram-se todos para a porta.O ambiente no salão privado mergulhou em um silêncio estranho.Marília avistou de imediato Inácio sentado à cabeceira da mesa, com o olhar límpido, demonstrando estar totalmente sóbrio.Ela percebeu, então, que havia sido enganada por Mafalda.Ao ver Marília, o olhar negro de Inácio se contraiu.Os demais presentes, inclusive Leonel, que há pouco havia sugerido que Inácio aceitasse a declaração de Mafalda, ficaram visivelmente constrangidos.Naquele contexto, Marília não deveria ter ido.“Marília, não entenda mal, Leonel estava brincando. Eu e Inácio somos apenas amigos atualmente.”Mafalda foi a primeira a romper o silêncio.Antes que Marília pudesse responder, Inácio levantou-se, demonstrando impaciência.“Não precisa explicar nada para ela.”Em seguida, ele caminhou diretamente até Marília e perguntou:“O que veio fazer aqui?”“Pensei que você estivesse embriagado. Vim te buscar para ir para casa.” Marília respondeu com sinceridade.Inácio soltou uma risada fria:“Parece que você não se lembra de nada do que te falei.”Abaixando a voz, ele murmurou apenas para que ambos pudessem ouvir:“Você acha que, nesses três anos, todos esqueceram que, há três anos, eu, Inácio, fui enganado? Veio aqui para reavivar a memória deles?”Marília ficou atônita.O olhar de Inácio tornou-se ainda mais gelado:“Não fique tentando chamar atenção sem motivo. Isso só faz com que eu sinta ainda mais repulsa por você.”Após dizer isso, ele virou as costas e se afastou, deixando Marília para trás.Olhando para a silhueta alta de Inácio, Marília permaneceu imóvel por um longo tempo, sem conseguir processar o ocorrido.Os jovens abastados no salão, ao observarem Marília sendo abandonada, não demonstraram o menor sinal de compaixão.Leonel, sem qualquer pudor, virou-se para Mafalda, que fingia estar triste, e disse:“Mafalda, você é boa demais. Não há nada que precise ser explicado.”“Se Marília não tivesse enganado Inácio com um casamento de fachada, ele teria se casado com você. Assim, você não teria precisado ir embora para outro país e passar por tantas dificuldades.”O zumbido nos ouvidos de Marília era intenso, mas ela escutou cada palavra claramente.Ela sabia melhor do que ninguém.Independentemente de Inácio casar-se ou não com ela, ele jamais teria se casado com Mafalda, que não tinha nenhum respaldo da família Barreiros.E Mafalda sabia disso perfeitamente, por isso decidiu terminar e partir para longe.No entanto, no final, por que toda a culpa recaiu sobre ela?Ao sair do Refúgio das Estrelas com o guarda-chuva, Marília sentiu-se completamente envolta pela escuridão.Uma figura elegante se aproximou.Era Mafalda!Ela estava impecavelmente arrumada, usando saltos altos e exalando autoconfiança.“Está bem frio esta noite. Como se sente, procurando Inácio tão tarde e sendo desprezada por ele?”Marília ouviu, mas não respondeu.Mafalda não se incomodou, continuando a falar sozinha:“Acho você realmente digna de pena. Até hoje, nunca experimentou o sabor do amor, não é? Sabia que, quando estava comigo, Inácio cozinhava para mim e era o primeiro a aparecer quando eu adoecia…”“Marília, Inácio já lhe disse que te ama? Antes, ele sempre me dizia…”Em silêncio, Marília recordava os três anos que passou ao lado de Inácio.Ele nunca havia sequer entrado na cozinha por ela...Quando ela adoeceu, nunca recebeu uma palavra de cuidado dele.Quanto ao amor, ele nunca declarou.Naquela noite, deitada na cama, Marília não conseguiu dormir.Descobriu que, durante doze anos, perseguira um homem que, em algum momento, amou outra pessoa com a intensidade de um adolescente.Naquele instante, ela finalmente percebeu que deveria desistir.Passou a noite em claro e, ao amanhecer, no dia seguinte—Inácio retornou às pressas, lançando sobre Marília um olhar ainda mais gelado.“Você está mesmo relutante em abrir mão do dinheiro da família Duarte, relutante em abrir mão de mim, Inácio, essa máquina de fazer dinheiro!”Marília ficou surpresa, sem entender o motivo de seu estado, e instintivamente tentou se explicar:“Nunca quis o seu dinheiro.”O que sempre importou para ela era apenas Inácio.Inácio sorriu, mas havia ironia em seu sorriso:“Então, por que sua mãe foi até a empresa esta manhã me pedir um filho para você?”Marília ficou atônita.Ao encarar os olhos frios de Inácio, percebeu que o motivo de sua raiva não era o ocorrido na noite anterior.Inácio não quis prolongar o assunto. Deixou-lhe apenas uma advertência antes de sair:“Marília, se quiser continuar na família Duarte e se quiser evitar a ruína da família Sampaio, faça com que sua mãe saiba se comportar.”...Antes que Marília procurasse Helena,Helena mesma apareceu, mostrando-se bem diferente de sua habitual frieza. Segurou a mão de Marília e, com doçura, pediu:“Marília, vá pedir a Inácio que te dê um filho, nem que seja por meio de um procedimento médico.”

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